Registro e numeração das oitavas
O piano tem oito dós, e todos se chamam dó. Aqui você aprende como se numeram as oitavas para dizer qual é qual sem precisar da pauta, a regra que dá o número de qualquer nota, por que o dó central é C4 num livro, dó 5 em outro e dó 3 num terceiro, e como ler os sistemas que ainda circulam, do órgão ao MIDI.
As notas têm só sete nomes, e o piano tem mais de oitenta teclas. A conta não fecha sem repetição: depois do si vem outro dó, e depois outro, e outro. Num piano de concerto há oito teclas que se chamam dó.
Na pauta, a clave e a posição resolvem a dúvida: cada dó fica num lugar diferente. Mas fora da pauta, numa conversa, num texto, numa tabela, "dó" não basta. É preciso dizer qual dó. Para isso se numeram as oitavas (LACERDA, 1966, cap. XLIV).
A ideia: cada oitava começa num dó
Todos os sistemas partem da mesma decisão. O teclado é cortado em fatias de uma oitava, cada fatia começa num dó e termina no si seguinte, e a fatia recebe um número (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice I). Toda nota dentro da fatia leva o número dela.
Neste site, e na maior parte dos programas de música, a numeração é esta: o dó central é C4, a oitava acima dele começa em C5, a de baixo em C3.
As notas entre um dó e outro herdam o número. O ré logo acima do dó central é D4, o lá do diapasão também é A4, e o si logo abaixo do dó central já pertence à oitava de baixo: é B3.
A regra para achar o número
Lacerda resume a regra numa frase: uma nota tem a mesma numeração do dó que lhe fica mais próximo descendo (LACERDA, 1966, cap. XLIV). Para saber o número de um sol, desça até o primeiro dó. O número desse dó é o do sol.
O sol acima da pauta de clave de sol está na mesma oitava do dó do terceiro espaço. Nos números deste site, os dois são da oitava 5: C5 e G5.
A regra tem uma consequência que pega muita gente. O número segue a letra, não o som. Si sustenido soa como dó, mas é um si, e fica na oitava do si; dó bemol soa como si, mas é um dó, e fica na oitava do dó:
No primeiro compasso, B♯3 e C4 soam igual. No segundo, C♭4 e B3 também. O número muda na troca de letra, e não na tecla.
Um dó, três números
Até aqui, tudo simples. O problema é que não existe um sistema só. Blatter começa o seu apêndice sobre o assunto lamentando exatamente isso: seria bom que houvesse um sistema aceito por todos, mas vários surgiram ao longo do tempo, cada um para uma necessidade (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice I).
Os três livros deste site dão três números diferentes ao dó central.
- Blatter descreve o sistema que chama de padrão americano, o mesmo deste site: o dó mais grave do órgão é C0 e o dó central é C4 (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice I). É o sistema também conhecido como notação científica.
- Lacerda numera os dós de 1 a 9, e o dó central é o dó 5 (LACERDA, 1966, cap. XLIV). É a mesma fatia de oitava, com o número uma unidade acima.
- Med divide a escala geral em oito oitavas a partir da mais grave, e o dó central é o dó 3 (MED, 1996, cap. XXXVIII). As duas oitavas mais graves recebem números negativos, −2 e −1, e não existe oitava zero.
Os números negativos de Med têm uma história. Antigamente, conta ele, a nota mais grave considerada era o dó 1, a corda mais grave do violoncelo. Quando entraram em cena instrumentos mais graves, como o contrabaixo, as oitavas de baixo tiveram de ser numeradas com sinal negativo (MED, 1996, cap. XXXVIII).
Nenhum dos três está errado. Cada um é coerente por dentro, e o que importa é saber de qual se está falando. Um texto que diz "dó 3" pode estar falando do dó central, se segue Med, ou de um dó duas oitavas abaixo, se segue Lacerda.
Os sistemas lado a lado
Blatter compara sete sistemas num quadro só (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice I). Os mais úteis de conhecer, com os números de Lacerda e de Med acrescentados:
| Dó | Este site | Lacerda | Med | Helmholtz | MIDI | Órgão |
|---|---|---|---|---|---|---|
| o mais grave do órgão | C0 | dó 1 | dó −2 | C₂ | 12 | 32 pés |
| C1 | dó 2 | dó −1 | C₁ | 24 | 16 pés | |
| C2 | dó 3 | dó 1 | C | 36 | 8 pés | |
| C3 | dó 4 | dó 2 | c | 48 | 4 pés | |
| central | C4 | dó 5 | dó 3 | c′ | 60 | 2 pés |
| C5 | dó 6 | dó 4 | c″ | 72 | 1 pé | |
| C6 | dó 7 | dó 5 | c‴ | 84 | 1/2 pé | |
| C7 | dó 8 | dó 6 | c⁗ | 96 | 1/4 pé | |
| o mais agudo do piano | C8 | dó 9 | dó 7 | c′′′′′ | 108 | 1/8 pé |
Três colunas pedem explicação.
Órgão. É um dos sistemas mais antigos. O órgão de tubos nomeia cada oitava pelo comprimento do tubo aberto que produz o seu dó: o dó mais grave, de cerca de 16 vibrações por segundo, sai de um tubo de 32 pés, e cada oitava acima usa um tubo com metade do comprimento (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice I). É por isso que os registros de órgão ainda se chamam "8 pés" ou "4 pés".
Helmholtz. Criado pelo físico alemão Hermann Helmholtz, usa letras maiúsculas e minúsculas e pequenos traços ou índices. Blatter o chama de desajeitado, na melhor das hipóteses, e difícil de lembrar (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice I). Ainda aparece em livros alemães e em textos antigos.
MIDI. Não numera oitavas, numera teclas: cada semitom é um número, e o dó central é 60. É o sistema que um computador usa por dentro, e é por isso que 60 aparece em tanto programa de música (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice I).
O que vem depois
Com o número da oitava, uma nota passa a ter endereço completo, letra e andar. É o que permite falar da tessitura de uma voz, da extensão de um instrumento e da diferença entre a nota escrita e a nota que soa nos instrumentos transpositores.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 6, apêndice I
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XLIV
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXXVIII