Teoria Musical

Linha do tempo

A teoria não caiu do céu: cada ideia deste site foi dita por alguém, em algum momento, por uma razão. Aqui estão os momentos, de Pitágoras à bossa nova, e os artigos em que cada ideia é explicada hoje.

  1. c. 500 a.C.

    Pitágoras e as razões das cordas

    A tradição atribui a Pitágoras a descoberta de que os intervalos consonantes correspondem a razões simples entre comprimentos de corda: a oitava a 2:1, a quinta a 3:2, a quarta a 4:3. Empilhar quintas por essas razões gera a escala pitagórica, e não fecha o círculo: doze quintas passam sete oitavas por um pequeno excesso, a coma pitagórica, que dois mil anos de temperamentos tentariam distribuir.

    Leia: Intervalos, Ciclo de quintas, Equivalência enarmônica.

  2. c. 1025

    Guido d'Arezzo e a pauta

    O monge Guido d'Arezzo sistematiza a notação em linhas, com uma linha fixada por uma letra, a clave, e ensina os cantores a ler pelas sílabas ut, ré, mi, fá, sol, lá, tiradas de um hino. É a origem da pauta que ainda se usa e dos nomes das notas nas línguas latinas.

    Leia: Leitura de pauta, Graus da escala, Notas e semitons.

  3. c. 1320

    Ars Nova e a notação mensural

    Philippe de Vitry e os teóricos da Ars Nova dão às figuras durações proporcionais fixas e admitem a divisão binária ao lado da ternária. Nasce a notação em que cada figura vale uma fração da anterior, e com ela o compasso como agrupamento de tempos.

    Leia: Ritmo e compasso, Ligaduras e pausas, Andamento.

  4. 1558

    Zarlino e a tríade

    Em Le istitutioni harmoniche, Gioseffo Zarlino trata a terça como consonância plena e descreve o acorde de três notas com terça maior ou menor como a unidade da harmonia, sobre razões de afinação justa. É a primeira teoria em que a tríade, e não o intervalo, é o objeto.

    Leia: Tríades, Intervalos, Tons relativos e homônimos.

  5. c. 1600

    O baixo contínuo e a cifra

    A prática barroca de escrever só o baixo, com números indicando os intervalos a tocar por cima, é a primeira cifra: uma notação de acordes por abreviação, lida por quem acompanha. As inversões ganham nome pelos números que as descrevem, e a ideia de que um acorde é um conjunto de notas sobre um baixo se consolida.

    Leia: Cifras, Inversões de acorde, Condução de vozes.

  6. 1691–1722

    Werckmeister, Bach e o temperamento

    Andreas Werckmeister publica temperamentos que distribuem a coma de modo a tornar todas as tonalidades toleráveis; em 1722 Bach escreve O Cravo Bem Temperado, um prelúdio e fuga em cada uma das vinte e quatro tonalidades, a demonstração de que o ciclo de quintas se fecha e a armadura pode ir a qualquer lugar.

    Leia: Armaduras de clave, Ciclo de quintas, Equivalência enarmônica, Modulação.

  7. 1722

    Rameau e o baixo fundamental

    No Traité de l'harmonie, Jean-Philippe Rameau propõe que todo acorde tem uma fundamental, mesmo invertido, e que a harmonia se move por um baixo fundamental que salta por quintas. Dominante e subdominante ganham nome, a cadência ganha explicação, e a análise harmônica moderna começa aqui.

    Leia: Função harmônica, Inversões de acorde, Cadências, Ciclo de quintas.

  8. 1725

    Fux e o contraponto por espécies

    Johann Joseph Fux publica o Gradus ad Parnassum, o método de contraponto em cinco espécies que Haydn, Mozart e Beethoven estudariam. As regras de condução das vozes, notas comuns paradas, movimento por grau conjunto, quintas e oitavas paralelas evitadas, são formuladas ali como exercício.

    Leia: Condução de vozes, Notas estranhas ao acorde, Intervalos.

  9. 1815

    O metrônomo de Maelzel

    Johann Maelzel patenteia o metrônomo, e Beethoven é dos primeiros a marcar andamentos em batidas por minuto. A palavra italiana deixa de ser a única indicação de velocidade, e o andamento vira um número.

    Leia: Andamento, Ritmo e compasso.

  10. 1880–1935

    Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e o choro

    O choro nasce no Rio de Janeiro do encontro da polca e da valsa europeias com a síncope africana. Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth escrevem para piano as peças que fixam o gênero, com o baixo em movimento, o diminuto de passagem e a modulação entre partes, e a forma em três seções.

    Leia: Ritmos brasileiros, Síncope, Acordes diminutos, Forma musical.

  11. 1893

    Riemann e as funções tonais

    Hugo Riemann reduz os sete graus a três funções, tônica, subdominante e dominante, e explica os demais como substitutos delas. É a teoria funcional que a harmonia popular brasileira adota, e a origem da ideia de que acordes com notas em comum podem trocar de lugar.

    Leia: Função harmônica, Análise por graus, Empréstimo modal.

  12. 1917–1930

    O samba urbano

    A gravação de Pelo Telefone em 1917 e o samba do Estácio nos anos 1920 fixam o samba urbano: o surdo no segundo tempo, a célula de semicolcheia, colcheia, semicolcheia, e a levada que se escreve em dois por quatro e se sente em dezesseis avos deslocados.

    Leia: Síncope, Ritmos brasileiros, Ritmo e compasso.

  13. anos 1920–1940

    O jazz e a harmonia de extensões

    Do jazz de Nova Orleans ao bebop, a harmonia popular incorpora as tétrades como norma, o II-V-I como célula, as extensões e alterações sobre a dominante e a substituição de trítono. É o vocabulário de acordes que a cifra brasileira herdaria pela bossa nova.

    Leia: II-V-I, Extensões, Substituição por trítono, Dominantes alterados, Turnaround.

  14. 1946

    Luiz Gonzaga e o baião

    Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira gravam Baião, e o ritmo do Nordeste, com o acento no primeiro tempo e no último oitavo, entra na música de rádio. A melodia do baião vive no modo mixolídio, com o sétimo grau abaixado, que a harmonia funcional maior não explica e os modos explicam.

    Leia: Ritmos brasileiros, Modos, Síncope.

  15. 1958

    João Gilberto, Tom Jobim e a bossa nova

    Chega de Saudade, gravada por João Gilberto em 1958, junta a batida do violão, uma síncope de samba reduzida à mão direita, com a harmonia de extensões do jazz: acordes de sexta com nona, empréstimos do homônimo menor, cadeias de II-V-I, baixo cromático descendente. É o repertório que este site usa como exemplo em quase todo artigo de harmonia.

    Leia: Acordes com sexta, Extensões, Empréstimo modal, Substituição por trítono, Síncope.

  16. 1959

    Kind of Blue e o jazz modal

    Miles Davis grava Kind of Blue, em que a improvisação se organiza por modos sobre acordes que duram compassos inteiros, em vez de por cadências rápidas. O modo passa a ser pensado pelo acorde que o sustenta, e a pentatônica e o dórico viram o vocabulário do solo moderno.

    Leia: Modos, Escalas pentatônicas, Ritmo harmônico.

  17. anos 1980–1990

    Os songbooks e a cifra padronizada

    Os songbooks de Almir Chediak fixam para a MPB uma grafia de cifra consistente, com as extensões escritas e as inversões com barra, e tornam a leitura de cifra a porta de entrada da harmonia para uma geração de violonistas. A cifra que este site lê e verifica é, em larga medida, essa.

    Leia: Cifras, Extensões, Inversões de acorde.