Clave

O pentagrama mostra que uma nota é mais aguda ou mais grave que outra, mas não diz qual nota ela é. Quem diz é a clave, um sinal que dá nome a uma linha. Aqui você vê as claves de sol, de fá e de dó, onde fica o dó central em cada uma e por que existe mais de uma clave.

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Pense num prédio em que só um andar tem o número escrito na porta do elevador. Se aquele é o quinto, você descobre o número de todos os outros contando para cima e para baixo. A clave faz isso com o pentagrama: é um sinal, escrito no começo da pauta, que dá nome a uma linha. Sabendo o nome daquela linha, você descobre o nome de todas as outras linhas e de todos os espaços.

Sem clave, a pauta só diz que uma nota é mais aguda ou mais grave que a outra. Com ela, cada lugar ganha um nome.

Um nome, e o resto se conta

A clave mais comum é a clave de sol. A volta de baixo do desenho se enrola em torno da segunda linha, e é isso que ela diz: a nota escrita na segunda linha é um sol.

A partir daí, basta seguir a ordem dos nomes. Como linha e espaço se alternam, cada lugar acima é o nome seguinte, e cada lugar abaixo é o nome anterior. O espaço logo acima da segunda linha é , a terceira linha é si, e o primeiro espaço, logo abaixo do sol, é .

São os nove lugares do pentagrama na clave de sol, de baixo para cima: mi, , sol, , si, , , mi e . Nas linhas ficam mi, sol, si, ré e fá; nos espaços, fá, lá, dó e mi.

Três sinais que já foram letras

Existem três claves, e cada uma leva o nome da nota que marca: a de sol, a de fá e a de dó. Os desenhos parecem arbitrários, mas não são. Antes das sílabas, as notas eram chamadas por letras, e a linha de referência era marcada com a letra correspondente: G para sol, F para fá, C para dó. De cópia em cópia, as letras foram se deformando até virar os sinais de hoje. Lacerda conta essa origem e lembra por que a letra do sol é G, e não A: a lista de letras começa pelo lá (LACERDA, 1966, cap. III).

A clave de fá

A clave de fá marca o na quarta linha. Os dois pontos depois do desenho ficam um acima e um abaixo dessa linha, apontando para ela, e são o que sobrou da letra F.

Contando a partir dela, os nove lugares da pauta ficam assim:

Nas linhas, sol, si, ré, fá e lá; nos espaços, lá, dó, mi e sol. São nomes diferentes dos da clave de sol para os mesmos lugares, e essa é a primeira coisa que confunde quem aprende as duas. A nota na segunda linha é sol numa clave e si na outra.

A clave de sol serve para os sons agudos e parte dos médios, mais ou menos a metade direita do piano. A de fá serve para os graves e a outra parte dos médios, a metade esquerda.

O dó central

As duas claves se encontram numa nota: o que fica no meio do teclado, chamado de dó central.

Na clave de sol, ele fica na primeira linha suplementar abaixo da pauta. Na clave de fá, na primeira linha suplementar acima dela. É a mesma nota, com o mesmo som, escrita em lugares diferentes porque a clave é outra.

Med usa o dó central como a peça que prende uma clave à outra (MED, 1996, cap. III), e ele é a melhor âncora para ler qualquer clave: onde quer que ela esteja, o dó central está sempre perto.

Por que não uma clave só

Qualquer clave poderia, em teoria, escrever todos os sons. O problema é ler. Uma melodia grave escrita na clave de sol precisa de uma escadinha de linhas suplementares:

Na clave de fá, as mesmas notas cabem dentro da pauta:

É o mesmo som. A clave é escolhida para que as notas de um instrumento ou de uma voz fiquem no pentagrama, e não fora dele. Lacerda dá exatamente essa razão para existir mais de uma clave (LACERDA, 1966, cap. III).

A clave de dó

A clave de dó marca o dó central na linha que fica no meio do desenho. Ao contrário das outras, ela aparece em mais de uma posição no uso de hoje.

Na terceira linha, é a clave de contralto, também chamada de clave de viola, porque é nela que se escreve a música da viola:

Na quarta linha, é a clave de tenor, usada nos trechos agudos do violoncelo, do fagote e do trombone:

Nas duas figuras a nota é o mesmo dó central. O que muda é a linha onde a clave diz que ele está, e com isso o nome de todas as outras linhas.

Todas as posições

As três claves já foram escritas em muitas linhas diferentes, e cada posição ganhou o nome da voz que cabia nela. Med reúne sete delas no setticlavio (MED, 1996, cap. IX):

ClaveLinhaNome
de solsol, ou violino
de dósoprano
de dómeio-soprano
de dócontralto
de dótenor
de fábarítono
de fábaixo

Lacerda lista mais duas, a de sol na primeira linha e a de fá na quinta, e deixa claro que na prática de hoje só se usam a de sol na segunda linha, a de fá na quarta e, mais raramente, a de dó na terceira e na quarta (LACERDA, 1966, cap. III). Blatter chega à mesma lista de quatro (BLATTER, 2007, art. 2). As outras continuam úteis para quem lê música antiga e, como Lacerda observa, para transpor.

O que vem depois

Com a clave, cada lugar da pauta tem nome, mas o nome ainda não diz de qual oitava é a nota: há vários no teclado, e o dó central é só um deles. Isso é assunto da numeração das oitavas. E as distâncias entre as notas vizinhas, que não são todas iguais, levam ao tom e ao semitom.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: art. 2
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. III
  3. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. III, IX