Ouvido absoluto e relativo

Algumas pessoas escutam uma nota e dizem o nome dela sem referência nenhuma. A maioria dos músicos faz outra coisa: escuta a distância entre uma nota e outra. Aqui você aprende a diferença entre as duas, o que as palavras absoluto e relativo querem dizer quando falam de um som e quando falam de um ouvido, por que uma melodia se reconhece em qualquer tom e qual das duas habilidades se treina.

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Uma nota soa no piano, sozinha. Uma pessoa diz: "é um lá". Outra não diz nada sobre a nota em si, mas, quando vem uma segunda nota, diz: "essa é uma quinta acima". As duas estão ouvindo altura, e estão fazendo coisas bem diferentes.

A altura de um som, absoluta e relativa

Antes de falarem de pessoas, essas palavras falam de sons. A altura absoluta de um som é a sua altura exata, a que corresponde a um número de vibrações por segundo. A altura relativa é o que resulta de comparar um som com outro, e por isso precisa de pelo menos dois sons (MED, 1996, cap. X).

Um lá de 440 vibrações por segundo tem uma altura absoluta. Estar uma quinta acima do ré que veio antes é um fato relativo: descreve a distância, e continua verdadeiro se as duas notas mudarem juntas.

Dois tipos de ouvido

O mesmo par de palavras dá nome a duas habilidades de quem escuta. O ouvido absoluto é a capacidade de identificar qualquer som musical e dizer o seu nome, sem nada com que compará-lo. O ouvido relativo é a capacidade de identificar as diferenças de altura entre os sons (MED, 1996, cap. XXXVIII).

O primeiro dá nome às notas; o segundo, aos intervalos. Uma pessoa com ouvido relativo que sabe qual é a primeira nota de uma melodia consegue descobrir todas as outras, porque cada passo é uma distância que ela reconhece.

Por que uma melodia sobrevive à mudança de tom

Cante uma música que você conhece começando numa nota mais aguda que o costume. Todas as notas mudam, e a música continua sendo a mesma. Aqui está o começo de "Brilha, brilha, estrelinha" começando em dó, e depois começando em sol:

Nenhuma nota é igual entre as duas, e qualquer pessoa reconhece a melodia. Med descreve a transposição exatamente assim: ela muda a altura absoluta dos sons e conserva os intervalos entre eles (MED, 1996, cap. XXVII). O que o ouvido guarda é a parte relativa. É por isso que a música depende do ouvido relativo, e não do absoluto: cantar com outras pessoas, tocar de ouvido, reconhecer uma progressão, mudar o tom de uma música para caber numa voz.

O ouvido absoluto é raro

Quem tem ouvido absoluto é pouca gente. Os estudos costumam estimar bem menos de uma pessoa em mil na população em geral, com mais frequência entre músicos que começaram a estudar muito cedo e entre falantes de línguas tonais, em que a altura de uma sílaba muda o seu sentido. Não é requisito para ser um bom músico, e muitos músicos excelentes não o têm.

Ele pode até atrapalhar. Quem conhece todo lá como 440 vibrações pode estranhar cantar lendo a partitura enquanto a banda toca meio tom abaixo, ou ouvir um grupo barroco afinado abaixo do padrão de hoje. A referência é uma convenção, e nem todo músico usa a mesma.

O ouvido relativo se treina

O ouvido relativo melhora com prática, em qualquer idade. O caminho de costume é o que os exercícios deste site seguem:

  1. Reconhecer intervalos, primeiro cantados um depois do outro, depois soando juntos.
  2. Ouvir cada nota de uma escala pelo seu lugar nela: a tônica, a quinta, a sensível que puxa para a tônica.
  3. Reconhecer acordes pela qualidade, e progressões pelo movimento de um acorde para o seguinte.

Um truque que ajuda no primeiro passo é ligar cada intervalo ao começo de uma música que você já conhece, e deixar que a música guarde a distância por você.

O que vem depois

O ouvido relativo se constrói uma distância de cada vez. As primeiras a aprender são os intervalos, ouvidos e nomeados até ficarem tão familiares quanto as músicas que os carregam.

Referências

  1. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. X, XXVII, XXXVIII