Consonância e dissonância

Duas notas tocadas juntas podem soar em repouso ou pedir movimento. Aqui você aprende quais intervalos a teoria chama de consonantes e quais de dissonantes, os graus entre um e outro, por que a quarta justa divide os livros e como a ideia de consonância mudou ao longo da história.

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Toque dó e sol juntos. O som se assenta, como se não precisasse ir a lugar nenhum. Agora dó e si. Há um atrito, uma vontade de que alguma das notas se mexa. Os dois são intervalos harmônicos, com as notas soando ao mesmo tempo, e mesmo assim causam sensações opostas.

O primeiro é consonante; o segundo, dissonante. Lacerda define os dois pela sensação: o intervalo consonante produz repouso, porque suas notas se fundem; o dissonante produz movimento, porque não se fundem (LACERDA, 1966, cap. XXXIV).

Estável, e não agradável

Blatter faz um alerta sobre as palavras. Na conversa comum, "consonante" vira sinônimo de agradável e "dissonante", de desagradável. Na teoria não é assim: consonante quer dizer estável, dissonante quer dizer instável (BLATTER, 2007, parte 3, art. 1). Uma dissonância não é um erro nem um som feio; é um som que pede continuação. Grande parte da música vive justamente de criar dissonâncias e resolvê-las.

As consonâncias

Os livros dividem as consonâncias em dois grupos (MED, 1996, cap. XVII).

As consonâncias perfeitas são o uníssono, a oitava e a quinta justas; Lacerda cita só a quinta e a oitava, e Med acrescenta a quarta, que tem uma história à parte. Nelas as notas se fundem de forma tão marcada que quase soam como uma só.

As consonâncias imperfeitas são as terças e as sextas, maiores e menores. Soam estáveis, mas com uma fusão menos completa, e por isso com mais cor.

Med acrescenta uma observação que liga as duas classes à inversão. As perfeitas continuam perfeitas quando invertidas, e por isso ele as chama também de invariáveis. As imperfeitas mudam de qualidade, a terça maior virando sexta menor, e ele as chama de variáveis.

A quarta justa divide os livros

Nenhum intervalo gera tanta discordância quanto a quarta justa.

Lacerda a coloca num lugar à parte, a consonância mista, com características entre a perfeita e a imperfeita (LACERDA, 1966, cap. XXXIV). Med a lista entre as consonâncias perfeitas, ao lado da quinta, e registra que ela nem sempre foi considerada consonante e que ainda há quem a chame de mista (MED, 1996, cap. XVII). Blatter vai para o outro lado: historicamente, a quarta justa foi tratada como instável, uma dissonância com tendência a se resolver na terça maior, como no exemplo acima (BLATTER, 2007, parte 3, art. 1).

Uma explicação possível para a divergência está no contexto. Uma quarta sozinha soa estável; mas, quando aparece acima da nota mais grave de um acorde, a música costuma tratar a nota de cima como algo que precisa descer, e é essa quarta que Blatter vê resolvendo na terça.

As dissonâncias, e seus graus

Tudo o que não é consonância é dissonância: as segundas, as sétimas e os intervalos aumentados e diminutos (LACERDA, 1966, cap. XXXIV). Mas nem toda dissonância tem a mesma força. Med as gradua (MED, 1996, cap. XVII):

GrauIntervalos
dissonâncias neutrasquarta aumentada, quinta diminuta
dissonâncias suavessétima menor, segunda maior
dissonâncias fortessétima maior, segunda menor

Ouça a diferença entre o primeiro compasso, com a segunda maior e a sétima menor, e o segundo, com a segunda menor e a sétima maior. Med ordena os intervalos do mais consonante ao mais dissonante: uníssono, oitava, quinta e quarta justas; terça maior, sexta maior, terça menor, sexta menor; quarta aumentada e quinta diminuta; sétima menor e segunda maior; sétima maior e, por último, segunda menor.

Ele observa ainda que muitos intervalos aumentados e diminutos só soam dissonantes pelo nome. Uma segunda aumentada tem o som de uma terça menor; escrita de outro jeito, ela vira consonância. Por isso Med os chama de dissonâncias condicionais.

A dissonância pede resolução

Na harmonia tradicional, um intervalo dissonante não fica parado: ele se resolve num consonante, seguindo a tendência de suas notas (MED, 1996, cap. XVII). A quarta aumentada abre para uma sexta; a quinta diminuta fecha numa terça.

No primeiro compasso, fá–si se abre em mi–dó: as notas se afastam. No segundo, si–fá se fecha em dó–mi: as notas se aproximam. Med lembra que, na música popular e na moderna, uma dissonância muitas vezes se resolve em outra dissonância, ou simplesmente não se resolve.

O que vem depois

Consonância e dissonância são a matéria-prima da harmonia. Empilhando terças, que são consonâncias imperfeitas, chega-se aos acordes; e o jeito como as dissonâncias se resolvem de um acorde para o outro é o que dá direção a uma progressão.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 3, art. 1
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXXIV
  3. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XVII