Intervalo
Duas notas, e a pergunta de sempre: a que distância uma está da outra? Essa distância é o intervalo. Aqui você aprende a contá-lo pelos nomes das notas, a reconhecê-lo na pauta só pelo desenho e a distinguir melódico de harmônico, conjunto de disjunto, simples de composto.
Tom e semitom medem os passos curtos, de uma nota para a vizinha. Mas uma melodia também pula: de direto para , por exemplo. Para dizer a que distância uma nota está da outra, seja ela qual for, a música usa o intervalo.
O intervalo não se mede em centímetros nem em semitons. Ele se mede em nomes de notas.
Contando pelos nomes
Para saber o intervalo entre duas notas, conte os nomes de uma até a outra, incluindo as duas pontas. De dó até mi: dó, ré, mi. Três nomes, e o intervalo é uma terça.
De dó até sol: dó, ré, mi, fá, sol. Cinco nomes, uma quinta.
Os intervalos recebem nomes de números ordinais. Partindo de dó:
| De | Até | Nomes contados | Intervalo |
|---|---|---|---|
| dó | dó (o mesmo) | 1 | uníssono |
| dó | ré | 2 | segunda |
| dó | mi | 3 | terça |
| dó | fá | 4 | quarta |
| dó | sol | 5 | quinta |
| dó | lá | 6 | sexta |
| dó | si | 7 | sétima |
| dó | dó acima | 8 | oitava |
O erro mais comum é contar os passos em vez dos nomes. De dó até ré há um passo, mas dois nomes, e o intervalo é uma segunda. Pense nos dedos da mão: do polegar ao dedo médio são três dedos, embora a distância seja de dois espaços entre eles.
Na hora de contar, parte-se sempre da nota mais grave para a mais aguda. Lacerda insiste nesse ponto: o intervalo se classifica pelo número de notas da mais grave até a mais aguda, contando as duas (LACERDA, 1966, cap. XXVIII).
O uníssono
Quando as duas notas têm o mesmo nome e a mesma altura, conta-se um nome só, e o resultado é o uníssono. Med o chama também de primeira e o trata como o primeiro dos intervalos (MED, 1996, cap. X). Lacerda prefere outra leitura: sons iguais não formam intervalo nenhum, formam um uníssono (LACERDA, 1966, cap. XXVIII). Na prática, os dois dizem a mesma coisa, e aqui o uníssono entra na lista para que a contagem comece do 1.
Melódico e harmônico
As duas notas de um intervalo podem soar uma depois da outra ou ao mesmo tempo. Uma depois da outra, o intervalo é melódico, porque é assim que uma melodia anda.
Ao mesmo tempo, o intervalo é harmônico, porque é assim que se formam os acordes.
Os dois exemplos são a mesma quinta. O jeito de soar muda; a distância, não.
Ascendente e descendente
Um intervalo melódico ainda tem direção. Se a segunda nota é mais aguda, ele é ascendente; se é mais grave, descendente.
No primeiro compasso a melodia sobe de mi a dó; no segundo, desce de dó a mi. Nos dois casos a contagem é a mesma, da nota mais grave para a mais aguda: mi, fá, sol, lá, si, dó. É uma sexta ascendente e depois uma sexta descendente. O intervalo harmônico não tem direção, já que as duas notas soam juntas.
Conjunto e disjunto
Quando uma melodia anda de uma nota para a vizinha, por segundas, o movimento é conjunto. É o jeito mais fácil de cantar.
Quando ela pula, por terças ou intervalos maiores, o movimento é disjunto.
Quase toda melodia mistura os dois. Blatter observa que o movimento disjunto é mais típico da música instrumental, e dá os nomes do dia a dia para os dois: andar por graus e andar por saltos (BLATTER, 2007, parte 2, art. 1).
Na pauta, o intervalo tem desenho
A contagem funciona também sem nome nenhum, direto na pauta: cada linha e cada espaço é um nome. E daí sai um atalho. Olhe as notas de cada compasso:
A segunda vai de uma linha para o espaço logo acima. A terça vai de uma linha para a linha seguinte. A quarta volta a terminar num espaço, e a quinta, numa linha. O padrão se repete: nos intervalos de número ímpar (terça, quinta, sétima), as duas notas ficam as duas em linhas ou as duas em espaços; nos de número par (segunda, quarta, sexta, oitava), uma fica numa linha e a outra num espaço.
Com esse desenho, um músico reconhece o intervalo antes mesmo de ler o nome das notas. É o caminho que Blatter segue: ele apresenta cada intervalo pela figura que forma na pauta, sem clave, porque para contar o intervalo não é preciso saber quais são as notas (BLATTER, 2007, parte 2, art. 1).
O acidente não muda o número
Como a contagem é feita pelos nomes, um acidente não altera o número do intervalo. Med é explícito: a classificação numérica não leva em conta nem acidentes nem claves (MED, 1996, cap. X).
Os três compassos têm terças: dó e mi, dó e mi bemol, dó sustenido e mi. Em todos, são três nomes e as duas notas ficam em linhas. Mas ouça: elas não soam iguais. Conte no teclado. De dó a mi são quatro semitons; de dó a mi bemol, três; de dó sustenido a mi, também três.
Então o número diz só uma parte da história. Duas terças podem ter tamanhos diferentes, e é para separá-las que existe a qualificação dos intervalos: terça maior, terça menor, quinta justa, e assim por diante. Esse é o próximo assunto.
Simples e composto
Até a oitava, o intervalo é simples. Passou da oitava, é composto.
De dó até o ré da oitava de cima são nove nomes: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó, ré. É uma nona, ou, dizendo de outro jeito, uma oitava mais uma segunda.
Existe uma conta para ir de um jeito para o outro. Para achar o intervalo composto, some 7 ao simples para cada oitava: uma segunda mais uma oitava é 2 + 7 = 9, uma nona; uma terça vira décima, uma quinta vira décima segunda. Para voltar ao simples, tire 7. Por que 7 e não 8? Porque a nota do meio, o dó de cima no exemplo, é o fim da oitava e o começo da segunda ao mesmo tempo, e não pode ser contada duas vezes (MED, 1996, cap. XII).
Aqui os livros divergem no nome. Med numera os compostos até onde for preciso: nona, décima, décima primeira, décima segunda. Lacerda prefere chamar o composto pelo nome do simples, como "quinta composta", e abre exceção só para a nona e a décima, que têm nome próprio no uso corrente (LACERDA, 1966, cap. XXVIII). Blatter aceita as duas formas: nona ou oitava mais uma segunda. As três maneiras descrevem a mesma distância.
O que vem depois
Dó–mi e dó–mi bemol são duas terças, e soam diferentes. Separar uma da outra, contando os tons e semitons de cada intervalo, é a qualificação dos intervalos: maior, menor, justo, aumentado e diminuto. E, empilhando terças, chega-se aos acordes.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 2, art. 1
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XVII, XXVIII
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. X, XII