Acidentes

As teclas pretas não têm nomes próprios: elas usam os sete nomes com um sinal na frente. Esses sinais são os acidentes, que sobem ou descem uma nota sem mudar o nome dela. Aqui você conhece os cinco acidentes e aprende até onde vale cada um.

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Um sobrenome não troca a pessoa: Maria continua sendo Maria, e o sobrenome só diz qual Maria é. Os acidentes fazem isso com as notas. São sinais que sobem ou descem a altura de uma nota por um semitom ou por um tom, e a nota não muda de nome: ganha só um complemento. O que sobe um semitom continua sendo um fá, e passa a se chamar fá sustenido.

É assim que as teclas pretas do piano recebem nome. Elas não têm nomes próprios; usam os sete nomes de sempre, com um acidente.

Sustenido e bemol

O sustenido (♯) sobe a nota um semitom. O bemol (♭) desce a nota um semitom.

Aqui está o e, logo à direita dele, a tecla preta que fica um semitom acima: fá♯. Agora o contrário, a partir do si, descendo um semitom:

A tecla preta à esquerda do si é si♭.

Repare numa consequência. A tecla preta entre fá e sol é um semitom acima do fá e, ao mesmo tempo, um semitom abaixo do sol. Ela pode ser chamada de fá♯ ou de sol♭, conforme a nota de onde se parte. Dois nomes para o mesmo som é o assunto da enarmonia, que tem um tópico próprio.

Acidente não quer dizer tecla preta

O sustenido sobe um semitom a partir da nota, seja qual for a tecla que está ali. Entre mi e não há tecla preta, lembra? Então mi♯, mi sustenido, cai numa tecla branca: a mesma do fá.

Do mesmo jeito, dó♭, dó bemol, é a tecla branca do si. Esses nomes parecem estranhos, mas aparecem de verdade na música, e existem por uma boa razão: na pauta, a nota continua no lugar do nome que tem, o mi sustenido na linha ou no espaço do mi, e em certos contextos é isso que importa.

Dobrado sustenido e dobrado bemol

Às vezes é preciso subir ou descer uma nota dois semitons, um tom inteiro, sem mudar o nome dela. Para isso existem o dobrado sustenido (𝄪), que sobe um tom, e o dobrado bemol (𝄫), que desce um tom.

fá𝄪, fá dobrado sustenido, soa na tecla do sol.

São os menos comuns dos cinco. Med registra ainda o sustenido e o bemol triplos, e observa que quase não se usam (MED, 1996, cap. V).

O bequadro

O quinto acidente é o bequadro (♮). Ele anula qualquer um dos outros quatro e devolve a nota à altura natural, sem sinal. Por isso ele sobe ou desce, dependendo do que veio antes: depois de um bemol, o bequadro sobe; depois de um sustenido, desce.

O primeiro fá tem sustenido. O segundo, com o bequadro, volta a ser o fá natural. Ouça: o segundo fá soa um semitom mais baixo que o primeiro.

Escreve-se antes, fala-se depois

A gente diz "fá sustenido", com o nome na frente e o acidente depois. No papel é o contrário: o acidente vem antes da nota, na mesma linha ou no mesmo espaço dela. Blatter dá a razão mais simples possível: quem toca precisa ver o acidente antes de tocar a nota, e não depois (BLATTER, 2007, art. 2).

Até onde vale um acidente

Um acidente escrito no meio da música, chamado acidente ocorrente, não vale só para a nota em que aparece. Ele vale para todas as notas de mesmo nome e mesma altura até o fim do compasso, o trecho entre duas barras verticais.

No primeiro compasso, o segundo fá não tem sinal nenhum, e mesmo assim é sustenido: o acidente do primeiro fá ainda vale. Depois da barra, o efeito acabou, e os fás do segundo compasso são naturais. Lacerda resume a regra: se o acidente deve continuar no compasso seguinte, é preciso escrevê-lo de novo (LACERDA, 1966, cap. XVIII). A exceção é a nota ligada por cima da barra, que carrega o acidente com ela.

Há um segundo limite: o acidente ocorrente vale só para a nota naquela oitava.

O sustenido do primeiro fá não alcança o fá uma oitava acima. Para subir aquele fá também, é preciso um sustenido só para ele, como na terceira nota.

Acidentes fixos

Quando uma música usa o mesmo acidente o tempo todo, repetir o sinal a cada compasso seria cansativo. Por isso ele pode ser escrito uma vez só, logo depois da clave, no começo de cada pauta. É o acidente fixo, e o conjunto de acidentes fixos se chama armadura de clave.

Com um sustenido na linha do fá logo no começo, todos os fás são sustenidos, sem sinal nenhum ao lado das notas. E ao contrário do ocorrente, o fixo vale para todas as oitavas: o fá agudo também é sustenido. Como cada armadura corresponde a uma tonalidade, ela tem um tópico próprio.

O acidente de precaução

Às vezes a regra está cumprida e mesmo assim a leitura pode tropeçar. Depois de um compasso com fá sustenido, o fá do compasso seguinte já é natural pela regra, mas o olho ainda lembra do sustenido. Nesses casos se escreve um acidente de precaução: um bequadro que não muda nada, só avisa. Para chamar ainda mais atenção, ele pode vir entre parênteses. Lacerda recomenda o aviso também quando um acidente aparece no começo de um compasso longo e a nota só volta lá no fim (LACERDA, 1966, cap. XVIII).

O que vem depois

Com os acidentes, todas as teclas do piano têm nome, e várias têm mais de um: esse é o assunto da enarmonia. As armaduras de clave organizam os acidentes fixos por tonalidade. E os intervalos, que medem a distância entre duas notas, dependem de saber exatamente quantos semitons cada acidente acrescenta ou tira.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: art. 2
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XVIII
  3. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. V