Tessitura

Nenhuma voz e nenhum instrumento alcança todas as notas. O conjunto que vai da nota mais grave à mais aguda que ele consegue emitir é a sua tessitura, e uma melodia também tem a sua. Aqui você aprende como se escreve uma tessitura, por que nem toda nota dentro dela é igualmente fácil, o que ela tem a ver com a escolha do tom e por que os nomes mudam de livro para livro.

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Cante a nota mais grave que conseguir, depois a mais aguda. Tudo o que fica entre essas duas é o que a sua voz alcança; abaixo e acima delas, não sai nada. Toda voz e todo instrumento têm limites assim, e o conjunto de notas entre eles, da mais grave à mais aguda, é a sua tessitura (LACERDA, 1966, cap. XXXVI).

Um soprano, por exemplo, canta normalmente qualquer nota do dó abaixo da pauta em clave de sol até o sol acima dela (LACERDA, 1966, cap. XXXVI).

Como se escreve uma tessitura

Uma tessitura não é uma melodia, então não faz sentido escrever todas as notas dela. Bastam as duas pontas: a nota mais grave e a mais aguda, em geral em semibreves, muitas vezes ligadas por um traço diagonal. O que fica no meio está subentendido.

No quadro das vozes adultas de Lacerda, o baixo vai do fá abaixo da pauta em clave de fá até o dó central (LACERDA, 1966, cap. XLI).

A melodia também tem tessitura

A mesma ideia vale para uma música. A tessitura de uma melodia é o conjunto de notas que ela percorre, da mais grave à mais aguda (LACERDA, 1966, cap. XXXVI). Ela não diz nada sobre a ordem das notas, só sobre o quanto a melodia se espalha.

Veja o começo de "Brilha, brilha, estrelinha":

A nota mais grave é o dó e a mais aguda é o lá. O resto da canção nunca sai desse espaço, e por isso a tessitura dela inteira é uma sexta:

Esse espaço pequeno é parte do motivo de as crianças a cantarem com tanta facilidade. No extremo oposto, o hino dos Estados Unidos, "The Star-Spangled Banner", abrange uma oitava e uma quinta, e muita gente fica sem voz no ponto mais agudo.

Nem toda nota é igualmente fácil

As pontas de uma tessitura são limites, não lugares confortáveis. Perto do grave, a voz perde força; perto do agudo, ela se esforça. Na maior parte do tempo, quem canta fica à vontade numa faixa mais estreita, no meio.

Os limites também não são fixos. Blatter dá a tessitura das quatro vozes para cantores sem formação, marcando uma extensão normal e, além dela, notas que só aparecem de vez em quando. Cantores treinados vão mais longe, e muitos amadores alcançam só uma parte do trecho (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1). Lacerda concorda que o cantor que se dedica à técnica vocal pode ampliar a sua tessitura (LACERDA, 1966, cap. XLI).

Por que importa: a escolha do tom

A tessitura é a primeira coisa a verificar quando alguém vai cantar uma melodia. Se a melodia passa da tessitura da voz, ela não pode ser cantada como está escrita.

Imagine uma melodia que vai do mi na primeira linha da pauta em clave de sol até o mi uma oitava acima. Para um soprano, ela é ideal: essa oitava é justamente a parte da voz que Lacerda indica como a mais cômoda. Para um contralto, cuja tessitura ele coloca do fá abaixo do dó central até o dó no meio da pauta em clave de sol, o ponto mais agudo fica alto demais (LACERDA, 1966, cap. XLI). Descendo uma terça maior, de dó a dó, a mesma melodia cabe.

Mudar todas as notas de uma música para cima ou para baixo pelo mesmo intervalo é transposição. Blatter dá exatamente esse caso: uma canção escrita para sopranos fica aguda demais para contraltos, e por isso é transposta para um tom mais grave (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice V).

Uma ideia, vários nomes

Os nomes variam mais do que a ideia.

Lacerda chama de tessitura o trecho inteiro, e dá à parte central, a mais cômoda, um nome próprio: registro médio (LACERDA, 1966, cap. XLI). Med trata tessitura, âmbito e extensão como sinônimos, o conjunto de sons que uma voz ou um instrumento pode abranger (MED, 1996, cap. XXXVIII).

Em inglês a divisão é outra, e isso aparece em traduções e em textos de canto. Range é o trecho inteiro, da nota mais grave à mais aguda. Ambitus costuma ser usado para a tessitura de uma melodia, sobretudo no canto gregoriano. E tessitura, em inglês, em geral quer dizer algo mais estreito: onde fica a maior parte das notas de uma parte, ou a faixa confortável de uma voz. Quando um texto em inglês fala da tessitura de uma peça, ele quase nunca está falando da tessitura no sentido de Lacerda.

O que vem depois

A tessitura também separa duas melodias que usam exatamente as mesmas notas. Nos antigos modos litúrgicos, uma melodia que termina em ré com as notas da escala dórica é autêntica ou plagal só pela posição da sua tessitura em torno dessa final: quase toda acima dela, ou espalhada dos dois lados. Esse é o assunto dos modos autênticos e plagais.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 4, art. 1; parte 6, apêndice V
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXXVI, XLI
  3. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. IX, XXXVIII