Modos autênticos e plagais
Duas melodias podem terminar na mesma final, usar as mesmas notas e mesmo assim pertencer a formas diferentes de um modo: uma sobe acima da final, a outra gira em torno dela. Aqui você aprende o que separa a forma autêntica da plagal, os nomes com hipo-, a nota de recitação, como identificar o modo de uma melodia e o ponto em que os livros não concordam.
Aqui estão duas melodias curtas em ré dórico. As duas terminam em ré, e as duas usam as notas da escala dórica, com o si natural.
A primeira sobe a partir da final e se move no espaço acima dela, até o ré uma oitava acima. A segunda nunca se afasta muito do ré: desce abaixo dele, sobe um pouco acima e volta. Na teoria medieval, elas não estão na mesma forma do modo. A primeira é dórico autêntico; a segunda, plagal.
A mesma final, outra tessitura
Cada modo tem duas formas, a autêntica e a plagal, e o que as separa é a tessitura (LACERDA, 1966, cap. XXXVI). Lacerda dá a regra pela melodia:
- se a tessitura abrange, aproximadamente, a final e a sua oitava, o modo é autêntico;
- se a tessitura abrange, aproximadamente, a quarta abaixo da final até a oitava dessa nota, e a melodia termina na final, o modo é plagal.
A final não muda. A forma autêntica e a plagal de um modo têm a mesma final; só muda o espaço que a melodia ocupa em torno dela (LACERDA, 1966, cap. XXXVI). Blatter diz o mesmo com outras palavras: as melodias autênticas usam principalmente as notas acima da final, e as plagais mantêm a final perto do meio da tessitura, usando notas abaixo e acima dela em proporção parecida (BLATTER, 2007, parte 2, art. 7).
Em forma de escala, a diferença fica fácil de ver. O dórico autêntico vai de ré a ré; o dórico plagal vai do lá de baixo até o lá de cima, com o ré no meio.
Hipo, abaixo
O modo plagal leva o nome do autêntico com o prefixo hipo, que quer dizer "abaixo": hipodórico, hipofrígio, hipolídio, hipomixolídio (LACERDA, 1966, cap. XXXVI). O prefixo se refere à extensão da melodia abaixo da final (MED, 1996, cap. XXVI).
Na Idade Média, os oito modos também eram numerados, cada autêntico seguido do seu plagal: o dórico era o primeiro modo, o hipodórico o segundo, o frígio o terceiro, e assim por diante até o hipomixolídio, o oitavo (BLATTER, 2007, parte 2, art. 7).
| Número | Modo | Final | Tessitura aproximada |
|---|---|---|---|
| 1 | dórico | ré | ré a ré |
| 2 | hipodórico | ré | lá a lá |
| 3 | frígio | mi | mi a mi |
| 4 | hipofrígio | mi | si a si |
| 5 | lídio | fá | fá a fá |
| 6 | hipolídio | fá | dó a dó |
| 7 | mixolídio | sol | sol a sol |
| 8 | hipomixolídio | sol | ré a ré |
Lacerda, que conta seis modos, dá forma plagal também ao eólio e ao jônio: o hipoeólio e o hipojônio (LACERDA, 1966, cap. XXXVI).
A nota de recitação
Tessitura e final não eram as únicas coisas que distinguiam os modos. Blatter acrescenta uma terceira: a nota de recitação, também chamada de tom salmódico, a nota mais cantada numa melodia modal (BLATTER, 2007, parte 2, art. 7).
Num modo autêntico, a nota de recitação fica uma quinta justa acima da final. Num modo plagal, fica uma terça abaixo da nota de recitação do autêntico. Nos dois casos, se a regra cai no si, que a teoria medieval considerava instável, usa-se o dó no lugar:
| Modo | Final | Nota de recitação |
|---|---|---|
| dórico | ré | lá |
| hipodórico | ré | fá |
| frígio | mi | dó |
| hipofrígio | mi | lá |
| lídio | fá | dó |
| hipolídio | fá | lá |
| mixolídio | sol | ré |
| hipomixolídio | sol | dó |
É por isso que a nota de recitação do frígio é dó e não si, e a do hipomixolídio também é dó e não si (BLATTER, 2007, parte 2, art. 7).
Mesmas notas, modos diferentes
As escalas plagais deixam uma coisa clara: dois modos diferentes podem usar exatamente as mesmas notas. O hipomixolídio vai de ré a ré nas teclas brancas, igual ao dórico autêntico. Med observa que o que os distingue não são as notas, e sim as regras de uso: onde a melodia começa e termina, e qual nota domina (MED, 1996, cap. XXVI).
As notas são as de ré a ré, mas a melodia gira em torno do sol e termina nele. É hipomixolídio, e não dórico.
Como identificar o modo de uma melodia
Lacerda transforma tudo isso em quatro passos (LACERDA, 1966, cap. XXXVI):
- Encontre a final. Uma melodia modal pura sempre termina nela; se a melodia tem acordes por baixo, a final é a nota mais grave do último acorde.
- Construa sobre a final uma escala de uma oitava, com os acidentes que ficam fixos ao longo da melodia.
- Veja onde caem os semitons nessa escala e dê nome ao modo.
- Observe a tessitura da melodia e decida entre autêntico e plagal.
Experimente com a segunda melodia do começo desta página. Ela termina em ré. Em ré, sem acidentes fixos, a escala é ré mi fá sol lá si dó ré, com semitons entre II–III e VI–VII: dórico. A tessitura vai do lá, uma quarta abaixo da final, até o fá, e a melodia termina na final: plagal. O modo é hipodórico.
Onde os livros divergem
Med descreve outro jeito de formar o modo plagal. Pega-se a metade de cima da escala autêntica, o segundo tetracorde, transcreve-se uma oitava abaixo e completa-se com mais quatro notas: o lá si dó ré do dórico, transportado para baixo, seguido de mi fá sol lá, dá o hipodórico. Em seguida ele diz que a tônica do modo plagal fica uma quarta justa abaixo da tônica do autêntico (MED, 1996, cap. XXVI).
Lida ao pé da letra, a frase mudaria a final de lugar, e Lacerda é explícito: a final do modo plagal é a mesma do autêntico (LACERDA, 1966, cap. XXXVI). O próprio exemplo de Med mostra o que ele quer dizer: sua melodia hipomixolídia percorre as notas de ré a ré e termina em sol. A nota uma quarta abaixo é onde a escala plagal começa, não onde suas melodias terminam. Med também observa que nos modos plagais não se definem intervalos característicos (MED, 1996, cap. XXVI).
O que vem depois
Tessitura, final e a posição dos semitons bastam para dar nome a qualquer melodia modal. As mesmas perguntas, com o maior e o menor no lugar dos modos, são o caminho para descobrir o tom de uma música.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 2, art. 7
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXXVI
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXVI