Modos litúrgicos
Dórico, frígio, lídio, mixolídio, eólio, jônio e lócrio: as sete maneiras de distribuir os semitons têm nomes vindos da música da Igreja medieval. Aqui você aprende a final e a cor de cada modo, como reconhecer um modo pela única nota que o separa do maior ou do menor, por que os livros contam quatro, seis ou sete, e onde os modos ainda são ouvidos.
Construa uma escala sobre cada tecla branca do piano, usando só teclas brancas, e os dois semitons caem em graus diferentes a cada vez. Cada uma dessas posições é um modo, e cada uma tem um nome antigo. Começando em ré, o modo é dórico; em mi, frígio; em fá, lídio; em sol, mixolídio (LACERDA, 1966, cap. XXXV).
O primeiro grau de um modo, a nota sobre a qual ele se constrói e em que suas melodias terminam, se chama final (LACERDA, 1966, cap. XXXV).
Nomes da Igreja, emprestados da Grécia
Esses modos eram a base da música litúrgica da Idade Média, e por isso se chamam modos litúrgicos ou modos eclesiásticos. Outro nome, modos gregorianos, vem da tradição que atribui ao papa Gregório I, no século VI, a organização do canto da Igreja (LACERDA, 1966, cap. XXXV).
Os nomes dórico, frígio e os demais são gregos, mas a semelhança fica nos nomes. Os antigos modos gregos começavam em outras notas e eram pensados no sentido descendente; os modos medievais foram construídos no sentido ascendente, sobre outras finais (MED, 1996, cap. XXVI). Blatter é mais direto: os nomes foram emprestados e não têm relação nenhuma com o sistema grego (BLATTER, 2007, parte 2, art. 7).
Os sete, lado a lado
| Modo | Final | Semitons entre | Terça |
|---|---|---|---|
| dórico | ré | II–III e VI–VII | menor |
| frígio | mi | I–II e V–VI | menor |
| lídio | fá | IV–V e VII–VIII | maior |
| mixolídio | sol | III–IV e VI–VII | maior |
| eólio | lá | II–III e V–VI | menor |
| jônio | dó | III–IV e VII–VIII | maior |
| lócrio | si | I–II e IV–V | menor |
As posições dos semitons são as definições de Lacerda (LACERDA, 1966, cap. XXXV); a última coluna é o jeito de Med classificá-los: o modo com terça maior entre I e III é um modo maior, e o com terça menor, um modo menor (MED, 1996, cap. XXVI).
Quatro, seis ou sete
Os livros não concordam sobre quantos modos litúrgicos existem, e a razão é histórica.
Os modos próprios da Igreja se construíam sobre quatro finais: dórico, frígio, lídio e mixolídio. Blatter os chama de modos sacros; somados à segunda forma, mais grave, que cada um tinha, assunto do próximo tópico, eles chegam a oito. Eólio e jônio, sobre lá e dó, ele chama de modos seculares, considerados impróprios para o culto (BLATTER, 2007, parte 2, art. 7). Med situa o surgimento deles no século XVI (MED, 1996, cap. XXVI). Lacerda conta o fim da história: no fim da Idade Média, a música erudita foi preferindo o jônio e o eólio, que acabaram dominando com outros nomes, modo maior e modo menor (LACERDA, 1966, cap. XXXV).
O lócrio, sobre si, é onde as contas se separam. Lacerda diz que ele foi introduzido pelos teóricos e parece nunca ter sido usado na prática, e por isso conta seis modos (LACERDA, 1966, cap. XXXV). Med o lista como sétimo modo, muito pouco usado porque sua estrutura difere de todos os outros (MED, 1996, cap. XXVI). Blatter explica o motivo: a final, si, não tem quinta justa acima, só a quinta diminuta si–fá, e por isso a teoria medieval o tratava como um modo teórico, que não podia ser usado (BLATTER, 2007, parte 2, art. 7).
A nota que denuncia o modo
Decorar sete listas de semitons não é o jeito mais fácil de reconhecer um modo. Med propõe um melhor: comparar o modo com a escala moderna, maior ou menor, de mesma final, a que tem a mesma terça. Sempre há uma única nota diferente, a nota diferencial, e o intervalo da final até ela é o intervalo característico do modo (MED, 1996, cap. XXVI).
| Modo | Comparado com | Intervalo característico |
|---|---|---|
| dórico | menor natural | sexta maior |
| frígio | menor natural | segunda menor |
| lídio | maior | quarta aumentada |
| mixolídio | maior | sétima menor |
| eólio | menor natural | nenhum |
| jônio | maior | nenhum |
| lócrio | menor natural | dois: segunda menor e quinta diminuta |
Compare ré dórico com ré menor natural. Tudo coincide, menos o sexto grau: si no dórico, si bemol no menor. Esse si é a "sexta dórica".
Com os outros é igual. Fá lídio é fá maior com si natural em vez de si bemol, a "quarta lídia". Sol mixolídio é sol maior com fá natural em vez de fá sustenido, a "sétima mixolídia". Mi frígio é mi menor com fá natural em vez de fá sustenido, a "segunda frígia". O eólio e o jônio não têm o que comparar, porque são a própria escala menor natural e a própria escala maior (MED, 1996, cap. XXVI).
Esse também é o jeito prático de pensar tocando. "Menor com sexta maior" é dórico em qualquer nota, sem precisar descobrir de qual escala maior ele tira as notas.
Em qualquer nota
As versões nas teclas brancas são modelos, escolhidos porque não precisam de acidentes. Um modo pode começar em qualquer nota, desde que os semitons fiquem no lugar (LACERDA, 1966, cap. XXXV). O dórico em sol precisa de um si bemol para devolver o semitom ao lugar, entre II e III:
A ideia é antiga. Quando o sinal do bemol passou a ser usado, os músicos da Renascença escreviam modos transpostos, com si bemol e cada final uma quarta acima: dórico em sol, frígio em lá, lídio em si bemol, mixolídio em dó (BLATTER, 2007, parte 2, art. 7).
Ouvido pelo centro
Um modo só soa como ele mesmo quando a sua final é ouvida como centro. Toque as teclas brancas de ré a ré sobre um acorde de dó maior e o ouvido escuta dó maior; toque sobre um acorde de ré menor e as mesmas notas soam dóricas.
Ré menor com sétima indo para sol maior, e voltando: o acorde de sol carrega o si natural, a sexta dórica de ré. Troque esse acorde por sol menor, com si bemol, e a mesma progressão fica eólia. Na música modal, é a harmonia por baixo que continua dizendo qual nota é a final.
Onde os modos vivem
A música erudita deixou para trás o dórico, o frígio, o lídio e o mixolídio, mas eles sobreviveram no folclore de muitos países, e Lacerda registra que alguns compositores do seu tempo os empregavam sistematicamente (LACERDA, 1966, cap. XXXV).
Med reúne exemplos brasileiros, quase todos do Nordeste: um reisado dórico de Pernambuco; uma cantiga de cego e um aboio de vaqueiro em lídio; temas mixolídios do folclore pernambucano, da viola de arame do sertão e de uma embolada da Paraíba; e um baião de viola eólio (MED, 1996, cap. XXVI).
Blatter observa a mesma redescoberta no folk, no jazz, no pop e no rock, agora incluindo o lócrio, e com qualquer nota servindo de final (BLATTER, 2007, parte 2, art. 7). O mixolídio é o som do acorde maior com sétima menor, presente em todo o rock e o blues. O dórico é o menor de boa parte do jazz modal. A quarta aumentada do lídio dá ao acorde maior uma qualidade aberta, flutuante, e a segunda abaixada do frígio é a cor escura que muitos ouvintes associam ao flamenco.
O que vem depois
Os modos desta página estão todos numa mesma forma. No canto medieval, cada modo tinha também uma segunda forma, com a mesma final, mas com a melodia mais grave, espalhada dos dois lados da final: os modos autênticos e plagais.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 2, art. 7
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXXV
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXVI