Ornamentos
Apojatura, mordente, grupeto, trinado, arpejo, glissando e floreio: notas acrescentadas a uma nota da melodia para enfeitá-la. Aqui você aprende o que cada ornamento toca, de onde ele tira o seu tempo, como se escreve, e onde os próprios livros discordam sobre como executá-lo.
Um ornamento é uma nota, ou um grupo de notas, que se acrescenta a uma nota da melodia ou do acompanhamento para enfeitá-la. A nota que recebe o enfeite se chama nota real (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII).
O ornamento não aumenta o compasso. O tempo que ele ocupa sai de alguma nota real, quase sempre da própria nota que ele enfeita (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). Uma semínima com um ornamento continua durando uma semínima; só que agora, dentro dela, soam mais notas.
Na partitura, os ornamentos aparecem de duas maneiras: como notas pequenas, antes da nota real, ou como sinais escritos acima dela (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII).
De onde vêm, e por que os livros hesitam
Os ornamentos nasceram nos instrumentos de teclado antigos, como o cravo, que não conseguem sustentar o som: a corda é beliscada e o som morre logo. Enfeitar uma nota longa com notas vizinhas era um jeito de fazê-la durar (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). Até o começo do século XVII eles quase não eram escritos, e o intérprete os improvisava; a liberdade chegou a tornar melodias irreconhecíveis, e os compositores passaram a indicá-los com sinais (MED, 1996, cap. XLIV).
Med resume os três caminhos: o ornamento pode ser improvisado, sem indicação nenhuma; indicado por um sinal; ou escrito nota por nota (MED, 1996, cap. XLIV). A música dos séculos XVII e XVIII, sobretudo a de cravo, é cheia de sinais; a música contemporânea usa poucos ornamentos e prefere escrevê-los por extenso (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII).
O problema é que cada época, e às vezes cada compositor, executava o mesmo sinal de um jeito. Os três livros admitem isso com todas as letras. Lacerda fala da "extrema confusão" sobre os ornamentos clássicos e se limita aos mais comuns (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). Med diz que a teoria dos ornamentos pertence mais à prática de execução do que à teoria da música, e que as escolhas dependem de gosto e de conhecimento histórico (MED, 1996, cap. XLIV). Blatter deixa a execução fora do seu livro e pede ao leitor só que reconheça as notas pequenas como ornamentos, tocadas depressa, no tempo ou logo antes dele, conforme o compositor, a época e a tradição (BLATTER, 2007, parte 1, art. 3).
Por isso, o que segue é a execução mais comum de cada ornamento. Os exemplos escrevem por extenso o que se toca, porque é o que se ouve.
Apojatura
A apojatura é uma nota um tom ou um semitom acima ou abaixo da nota real, que vem antes dela (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). O nome vem do italiano appoggiare, apoiar (MED, 1996, cap. XLIV): a melodia se apoia numa nota vizinha antes de chegar à nota real. Ela pode ser superior ou inferior, simples (uma nota) ou dupla (duas), e há dois tipos que mudam tudo na execução: a longa e a breve.
A apojatura longa, ou expressiva, é escrita como uma nota pequena sem traço e toma metade do valor da nota real simples, ou um ou dois terços da nota real pontuada (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). O acento cai nela, não na nota real (MED, 1996, cap. XLIV). Uma notinha ré antes de um dó de mínima se toca assim:
É um suspiro: a nota de fora cai no tempo, com peso, e se resolve na nota real.
A apojatura breve é escrita como uma nota pequena cortada por um traço oblíquo, e é curtíssima (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). Aqui os livros se separam sobre de onde ela tira o seu tempo:
| Livro | Onde soa a apojatura breve |
|---|---|
| Lacerda | antes do tempo: o valor dela sai da nota anterior à real |
| Med | no tempo: ela toma a menor parte da nota real, e o acento fica na nota real; a que soa antes do tempo ele chama de acicatura |
Lacerda descreve a breve que antecipa (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII), e Med reserva para essa um nome à parte (MED, 1996, cap. XLIV). Os dois estão descrevendo práticas reais. Blatter é quem resume: no tempo ou logo antes dele, conforme o compositor e a época (BLATTER, 2007, parte 1, art. 3). Tocada no tempo, uma apojatura breve de ré sobre um dó de semínima fica assim:
Mordente
O mordente é a execução rápida da nota real com a nota um tom ou um semitom acima ou abaixo dela, voltando à nota real (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). Ele é superior quando usa a nota de cima e inferior quando usa a de baixo. O simples tem três notas, contando a real; o duplo repete o movimento e tem cinco.
Lacerda escreve o mordente com uma pequena linha em ziguezague sobre a nota. Sem traço, é o mordente superior; cortado por um traço vertical, é o mordente inferior (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). Med usa o mesmo sinal, com a mesma distinção (MED, 1996, cap. XLV). Um mordente superior sobre um dó de semínima:
Se a nota vizinha leva acidente, o acidente se escreve junto do sinal (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII).
Grupeto
O grupeto toca a nota real com as duas vizinhas, a de cima e a de baixo (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). O nome quer dizer pequeno grupo, e em algumas línguas ele se chama "envolvimento": a nota real fica embrulhada pelas vizinhas (MED, 1996, cap. XLVI). O sinal é um S deitado. Na forma normal, o grupeto começa pela nota de cima; no grupeto invertido, pela de baixo, e o sinal se desenha ao contrário (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII).
Med separa dois lugares para ele (MED, 1996, cap. XLVI):
- o grupeto de ataque, com o sinal sobre a nota, é tocado no começo dela: vizinha de cima, nota real, vizinha de baixo, nota real;
- o grupeto medial, com o sinal entre duas notas, é tocado no fim da primeira: a nota real soa primeiro, e o grupeto ocupa a parte final do seu valor, levando à nota seguinte.
Um grupeto de ataque sobre um dó de semínima:
Trinado
O trinado, ou trilo, é a alternância rápida de duas notas vizinhas, uma delas a nota real (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). Escreve-se tr, tr seguido de uma linha ondulada, ou só a linha ondulada. Ele dura o valor inteiro da nota real, e a partitura não diz quantas notas ele tem: isso depende do valor da nota e do andamento, e o mesmo trinado tem menos notas num Adagio do que num Allegro (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII).
O trinado normal usa a nota de cima. Um trinado sobre um dó de semínima, escrito com fusas:
Esse exemplo começa pela nota real, que é o que Med chama de trinado direto. Ele registra também o trinado caído, ou apoiado, que começa pela nota de cima, e diz que a escolha depende do estilo e do compositor (MED, 1996, cap. XLVII). Na música barroca, começar pela nota de cima é a prática mais comum; num trinado de Mozart ou de Chopin, as edições e os intérpretes divergem. Um trinado também pode ter preparação, notas pequenas antes dele, e resolução, uma pequena figura no fim que o leva à nota seguinte (MED, 1996, cap. XLVII).
Arpejo
O arpejo toca as notas de um acorde uma depois da outra, depressa, em vez de todas juntas, em geral da mais grave para a mais aguda (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). Indica-se com uma linha ondulada vertical antes do acorde, ou com arp. Quando o arpejo desce, isso precisa ser indicado. Em valores curtos, cada nota para de soar logo depois de tocada; em valores longos, as notas se sustentam até o acorde seguinte (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII).
Med observa que o arpejo é mais uma maneira de tocar do que um ornamento de verdade: ele não acrescenta nenhuma nota, só as espalha no tempo (MED, 1996, cap. XLVIII).
Glissando e portamento
O glissando é o deslizar rápido e contínuo de uma nota a outra (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). Como ele soa depende do instrumento:
- num instrumento de afinação fixa, como o piano ou a harpa, a mão desliza pelas teclas ou cordas do caminho. No piano, o glissando pode passar só pelas teclas brancas, só pelas pretas, ou pelas duas (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII);
- num instrumento de afinação não fixa, como o violino, o trombone ou a voz, o som passa por todas as alturas do caminho, sem degraus. Escreve-se com um traço entre as duas notas e a abreviatura gliss. (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII).
Med acrescenta o glissando pela série harmônica, que os metais fazem, e lembra que o glissando sem degraus é possível nas cordas, na voz e, em parte, no trombone e no tímpano de pedal (MED, 1996, cap. XLVIII).
O portamento tem nomes em conflito. Para Lacerda, é um deslizar rápido e discreto de uma nota para a outra, feito pouco antes do ataque da segunda, próprio da voz e dos instrumentos de afinação não fixa; nos instrumentos ele se chama portando, e na voz, portamento, indicado por uma curva que liga notas de sílabas diferentes (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). Med usa a palavra para outra coisa: uma nota curta que antecipa a nota real na mesma altura (MED, 1996, cap. XLVIII). O sentido de Lacerda é o que cantores e instrumentistas de corda usam no dia a dia.
Floreio e cadência
O floreio é um grupo de notas intercaladas entre duas notas reais (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). Ele não tem forma fixa, e o seu tempo sai da nota real anterior. A diferença para a cadência melódica está no compasso: o floreio é curto e tem de caber dentro do compasso, enquanto a cadência é mais longa e fica livre dele, porque a nota real anterior leva uma fermata (MED, 1996, cap. XLVIII).
A cadência grande dos concertos, o trecho em que o solista toca sozinho e mostra o que sabe, já não é um ornamento: Med a trata como uma forma musical. Ela era improvisada sobre os temas do concerto, até que compositores como Beethoven, Mendelssohn e Liszt passaram a escrevê-la (MED, 1996, cap. XLVIII).
O que vale para todos
A velocidade de qualquer ornamento depende do valor da nota e do andamento: o mesmo arpejo é mais lento num Adagio do que num Allegro (LACERDA, 1966, cap. XXXVIII). E o ornamento precisa soar com clareza, na mesma dinâmica das notas reais, e não como um borrão antes delas (MED, 1996, cap. XLIV).
As notas de um ornamento são notas de fora, que enfeitam a nota real. A harmonia tem parentes próximos delas: a apojatura e a bordadura também aparecem como notas estranhas ao acorde, e aí a pergunta deixa de ser como enfeitar uma nota e passa a ser como uma nota de fora se resolve no acorde.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 1, art. 3
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXXVIII
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XLIV–XLVIII