Articulação
As mesmas notas, com as mesmas durações, podem soar ligadas umas às outras ou soltas, curtas, apoiadas. A articulação é essa maneira de emitir e de encadear os sons. Aqui você aprende os sinais do legato, do staccato, do portato, do tenuto e dos acentos, e o que cada um muda no som.
Cante "dó, ré, mi, fá" emendando uma sílaba na outra, sem respirar entre elas. Agora cante de novo, cortando cada sílaba curta, como gotas. As notas são as mesmas, as durações escritas também, e o resultado é outra música. Essa diferença é a articulação: a maneira, mais ou menos ligada ou solta, como as notas se sucedem (LACERDA, 1966, cap. XIV).
Blatter a define pelo começo e pelo fim de cada som: articular é modificar o ataque, o final, ou os dois. Num instrumento de corda, isso sai do arco; no piano, dos dedos; num sopro, da língua e do fôlego (BLATTER, 2007, parte 1, art. 6).
Lacerda reúne as articulações principais em quatro: legato, non legato, staccato e portato.
Legato: ligado
No legato, as notas se sucedem ligadas, sem espaço entre elas, cada uma com o valor inteiro. O sinal é uma linha curva sobre ou sob as notas, a ligadura de expressão (LACERDA, 1966, cap. XIV).
A mesma curva que liga notas iguais soma as durações, como se viu no tópico sobre a ligadura. Blatter lembra a diferença: a ligadura de valor une sempre notas da mesma altura; a de expressão quase sempre une alturas diferentes (BLATTER, 2007, parte 1, art. 6). Em vez da curva, também se pode escrever a palavra legato.
Non legato: sem ligar
No non legato, as notas se sucedem separadas, mas sem ficar curtas; cada uma conserva o seu valor. Não há sinal próprio: escreve-se a expressão non legato sobre o trecho (LACERDA, 1966, cap. XIV).
Staccato: destacado
No staccato, cada nota fica curta e separada da seguinte. O sinal é um ponto sobre ou sob a cabeça da nota, o mesmo ponto de diminuição que Lacerda deixou para este capítulo quando falou do ponto de aumento (LACERDA, 1966, cap. XIV).
Med dá uma proporção: a nota em staccato soa a metade do seu valor, e a outra metade é silêncio. Uma semínima em staccato soa como uma colcheia seguida de uma pausa de colcheia (MED, 1996, cap. VII). O próprio Med avisa que essa conta é aproximada: na prática, quanto a nota encurta depende do estilo, do andamento e do intérprete. Pausas não levam o ponto.
Existe um staccato mais seco, o staccatissimo, marcado com uma pequena cunha. Pelas contas de Med, a nota soa só um quarto do valor (MED, 1996, cap. VII). Lacerda chama de martellato esse staccato "rude", e o indica por pequenos traços verticais.
Portato: entre um e outro
O portato fica no meio do caminho entre o legato e o staccato: as notas se separam, mas pouco. Há duas maneiras de escrevê-lo. A de Lacerda junta os dois sinais, os pontos do staccato debaixo da curva do legato, e ele diz que as notas perdem um quarto do valor (LACERDA, 1966, cap. XIV).
Med registra essa grafia e mais outra, um ponto com um traço sobre cada nota, com a mesma proporção: três quartos de som e um quarto de silêncio (MED, 1996, cap. VII).
Tenuto: segurado
O tenuto é um traço horizontal sobre a nota, ou a abreviatura ten., e pede que ela seja sustentada até o fim do seu valor. Lacerda dá dois usos: chamar a atenção para uma nota que não é staccato no meio de uma série de notas em staccato, e lembrar que uma nota longa precisa soar inteira, um erro comum com semibreves e mínimas (LACERDA, 1966, cap. XIV).
Med acrescenta que o tenuto costuma dar à nota um leve apoio (MED, 1996, cap. XXXIII). E Lacerda faz questão de um aviso: o tenuto não prolonga a nota além do valor escrito. Quem faz isso é a fermata.
Os acentos
Um acento destaca uma nota das vizinhas, com mais força no começo do som. Med descreve dois sinais principais (MED, 1996, cap. XXXIII):
- o acento (>): a nota é apoiada e logo enfraquece;
- o marcato (^): a nota é atacada com muito vigor e logo enfraquece, um apoio maior que o do acento comum.
Med observa ainda que todo acento é proporcional à dinâmica do trecho: um acento num trecho suave é menor que um acento num trecho forte.
A curva que faz tudo
A linha curva é um dos sinais mais sobrecarregados da partitura, e Lacerda chega a listar as suas funções para evitar confusão: somar durações na ligadura de valor, ligar as notas cantadas numa mesma sílaba, abraçar as quiálteras, indicar o legato, marcar as frases e, nos instrumentos de arco, quantas notas vão num só movimento do arco (LACERDA, 1966, cap. XIV). O contexto decide qual delas é.
Med separa ainda duas coisas que costumam andar juntas. A articulação, o modo de atacar e ligar os sons, pertence à técnica do instrumento. O fraseado, a arte de interpretar as frases, pertence à estética (MED, 1996, cap. XXXVII).
O que vem depois
Os acentos já esbarram numa outra propriedade do som: a intensidade. Quão forte ou suave um trecho inteiro soa, e como ele cresce ou diminui, é o assunto da dinâmica, que traz também os sinais de reforço, como o sforzato.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 1, art. 6
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XIV
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. VII, VIII, XXXIII, XXXVII