Ponto, ligadura e fermata

As figuras só dobram ou dividem por dois. Para uma nota que dura três tempos, cinco tempos ou o quanto o intérprete quiser, a escrita tem quatro recursos: a ligadura, o ponto de aumento, o duplo ponto e a fermata.

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Cada figura vale duas da seguinte, e só. Uma mínima dura dois tempos de semínima, uma semibreve dura quatro. Mas e uma nota de três tempos? Não existe figura para isso, e uma melodia pede esse tamanho o tempo todo.

A escrita resolve com sinais que se somam à figura. Lacerda conta quatro maneiras de aumentar o valor de uma nota: a ligadura, o ponto de aumento, o duplo ponto e a fermata (LACERDA, 1966, cap. V). Este tópico passa pelas quatro.

A ligadura soma duas figuras

A ligadura é uma linha curva que une duas notas da mesma altura. Ela diz: toque a primeira e segure o som até o fim da segunda, sem tocar de novo. As duas figuras viram um som só, com a soma das durações.

Mínima ligada a semínima: três tempos de sol, depois um de mi. Ouça. São dois sons, não três.

As ligaduras podem se encadear, uma depois da outra, para somar quantas figuras a duração pedir. Cada nota se liga à seguinte:

Semibreve, mais mínima, mais semínima: sete tempos de um sol só.

A ligadura também atravessa a barra de compasso. Uma nota que começa no fim de um compasso e continua no começo do outro só pode ser escrita assim, porque uma figura não passa por cima da barra:

Uma pausa nunca é ligada. Duas pausas seguidas já são um silêncio contínuo, e não há som para segurar (LACERDA, 1966, cap. V).

O ponto de aumento acrescenta metade

O ponto de aumento é um ponto escrito à direita da figura. Ele acrescenta metade do valor dela. Uma mínima vale dois tempos; com o ponto, vale três.

Os dois compassos soam iguais. No primeiro, mínima ligada a semínima; no segundo, uma mínima pontuada. O ponto é um atalho para a ligadura mais comum de todas: a de uma figura com a metade dela.

A regra vale para qualquer figura. Uma semínima pontuada vale uma semínima e mais uma colcheia; uma colcheia pontuada vale uma colcheia e mais uma semicolcheia.

E vale também para as pausas: uma pausa pontuada é um silêncio uma vez e meia mais longo que a pausa sem ponto.

Há uma consequência que vai importar mais tarde. Uma figura sem ponto se divide naturalmente em duas figuras menores; uma figura pontuada se divide em três. Lacerda chama a primeira de valor simples e a segunda de valor composto (LACERDA, 1966, cap. V).

Essa diferença, entre dividir por dois e dividir por três, é a base dos compassos simples e compostos.

O duplo ponto acrescenta mais um quarto

Um segundo ponto acrescenta metade do que o primeiro acrescentou. O primeiro ponto soma metade da figura; o segundo, metade dessa metade. No total, o duplo ponto acrescenta três quartos do valor.

Uma mínima com duplo ponto vale mínima, mais semínima, mais colcheia: três tempos e meio. Os dois compassos soam iguais outra vez.

Med registra até o ponto triplo, que acrescenta ainda um oitavo, e Blatter lembra que se pode ir além disso, mas os dois concordam que é raro: na prática, quase tudo se escreve com um ou dois pontos (MED, 1996, cap. VI).

Ponto ou ligadura?

Se o ponto é um atalho da ligadura, por que as duas coisas existem?

Porque o ponto só serve para dois tamanhos: mais metade e mais três quartos. Uma nota de cinco tempos, que é uma semibreve e mais uma semínima, não tem ponto que a escreva. Só a ligadura (LACERDA, 1966, cap. V).

E o ponto não atravessa a barra de compasso. Se o valor acrescentado cai no compasso seguinte, a ligadura é o único jeito (MED, 1996, cap. VI). A escolha, então, é simples: dentro do compasso e com o tamanho certo, o ponto é mais curto de ler; nos outros casos, a ligadura.

A fermata deixa o tempo com o intérprete

As três primeiras maneiras dizem exatamente quanto a nota dura. A quarta não. A fermata é um arco com um ponto no meio, escrito sobre a nota ou a pausa, e quer dizer: segure mais do que está escrito.

Quanto mais é justamente o que os livros não fecham. Lacerda fala em aproximadamente o dobro do valor, e lembra que tudo depende do andamento e do critério do intérprete (LACERDA, 1966, cap. V). Blatter dá como regra prática metade a mais, e logo diz que há muitas exceções e que o músico costuma segurar o quanto parecer certo (BLATTER, 2007, parte 1, art. 6). Med trata a fermata entre os sinais de andamento, porque ela suspende o tempo regular por um instante (MED, 1996, cap. XXX). No exemplo acima, o som segura a última nota pelo dobro, a leitura de Lacerda.

Sobre uma pausa, a fermata alonga o silêncio do mesmo jeito.

Med dá nomes diferentes conforme o lugar do sinal: fermata sobre a nota, suspensão sobre a pausa e parada sobre a barra dupla, onde marca uma pequena interrupção entre duas partes da música.

O que vem depois

A ligadura que atravessa a barra já pressupõe o compasso: os grupos regulares de tempos que as barras separam. E a diferença entre dividir por dois e dividir por três, que o ponto trouxe à tona, é o que separa os compassos simples dos compostos.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 1, art. 3, 6
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. V
  3. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. VI, VIII, XXX