Compasso
Por baixo de quase toda música corre um pulso regular, e esse pulso se agrupa. O compasso é cada um desses grupos, separado do seguinte por uma barra. Aqui você aprende a sentir o tempo, a contar quantos tempos cabem num compasso e a ler as barras que os separam.
Ouça um trecho de música e bata o pé junto. Sem pensar, o pé encontra uma batida regular, que vai se repetindo em intervalos iguais, como um relógio. Essa batida é o pulso, e cada uma das batidas se chama tempo.
Blatter observa que o pulso está sempre presente, mesmo quando o ouvinte não o escuta de fato, e que quem toca precisa estar consciente dele o tempo todo (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4).
Os tempos se agrupam
O pulso raramente é uma fila sem forma. Os tempos se juntam em grupos pequenos e regulares: de dois em dois, de três em três, de quatro em quatro. Cada grupo é um compasso, e na partitura uma linha vertical, a barra de compasso, separa um do outro.
Veja a mesma melodia escrita duas vezes. Primeiro sem barras:
Depois com elas:
O som é idêntico. Mas a segunda é muito mais fácil de ler, porque as barras cortam a fila em pedaços de quatro tempos, e o olho vê os pedaços em vez de ter de somar figura por figura. É esse o argumento de Blatter para as barras: sem elas, quem lê perde o lugar numa sequência longa de durações (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4).
Conte os tempos de cada compasso: no primeiro, semínima, duas colcheias, semínima, semínima, que somam quatro; no segundo, mínima e duas semínimas, também quatro; no terceiro, uma semibreve, quatro de novo.
Uma palavra, dois sentidos
Lacerda chama a atenção para um detalhe do vocabulário: "compasso" quer dizer duas coisas (LACERDA, 1966, cap. VI). É a divisão da música em pequenas partes, a ideia geral, quando se diz que uma música "tem compasso". E é também cada uma dessas partes, quando se diz que a melodia acima tem três compassos. Med registra a mesma dupla leitura: o princípio que organiza os tempos e, de forma concreta, o espaço entre duas barras (MED, 1996, cap. XIX). O contexto quase sempre deixa claro qual dos dois é.
Quantos tempos cabem num compasso
O compasso recebe o nome do número de tempos que tem. Com dois tempos, é binário:
Com três, ternário, o compasso da valsa:
Com quatro, quaternário, o mais comum de todos:
Conte em voz alta enquanto ouve: "um, dois; um, dois" no primeiro, "um, dois, três" no segundo, "um, dois, três, quatro" no terceiro. O "um" volta sempre no começo de cada compasso.
Há compassos maiores. Lacerda cita o quinário, de cinco tempos, e o setenário, de sete, e explica que cada um costuma ser sentido como a soma de dois menores: o de cinco como três mais dois, ou dois mais três; o de sete como quatro mais três, ou três mais quatro (LACERDA, 1966, cap. VI).
Med vai mais longe e dá nome a todos, do unário, de um tempo só, ao decenário, de dez; e lembra que o compasso de um tempo, contestado por alguns teóricos, é bem comum em compositores do século XX (MED, 1996, cap. XIX). Lacerda observa que antigamente se usavam sobretudo o binário, o ternário e o quaternário, e que hoje os compositores usam todos com liberdade.
Um tempo não é uma nota
Nos exemplos acima, quase todo tempo tem uma nota. Isso é só para facilitar a conta. Na prática, uma nota pode ocupar vários tempos, e um tempo pode se dividir em várias notas (LACERDA, 1966, cap. VI).
No primeiro compasso, a mínima ocupa dois tempos. No segundo, os dois primeiros tempos se dividem em duas colcheias cada. Em todos, a conta continua dando quatro. O pulso não muda; o que muda é quantas notas caem sobre ele.
Compassos iguais e diferentes
Na maior parte das músicas, todos os compassos têm o mesmo número de tempos. Mas não é uma obrigação. Lacerda já define o compasso como a divisão da música em partes "de duração igual ou variável" (LACERDA, 1966, cap. VI), e Blatter também diz que é muito comum os compassos terem o mesmo tamanho, mas que isso não é exigido.
Aqui o primeiro compasso tem três tempos, o segundo quatro, o terceiro três de novo.
As barras
A barra de compasso é uma linha vertical que atravessa a pauta inteira, da quinta à primeira linha, nem mais curta nem mais comprida. Não se escreve barra antes do primeiro compasso: a pauta começa direto com a clave (MED, 1996, cap. XIX).
Duas outras barras marcam momentos especiais. A barra dupla, com duas linhas finas, separa partes da música. A barra final, com uma linha fina e outra grossa, encerra a música.
Med enumera os momentos em que a barra dupla aparece: o fim de uma seção, a divisão de um período, e a mudança de tonalidade, de compasso ou de andamento. No fim de tudo, a segunda linha engrossa.
O que vem depois
Contar "um, dois, três" pressupõe que o "um" se destaca. Por que o primeiro tempo soa mais forte que os outros é o assunto da acentuação métrica. E qual figura vale um tempo, e se esse tempo se divide em dois ou em três, é o que distingue os compassos simples dos compostos e o que a fórmula de compasso escreve no começo da pauta.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 1, art. 4
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. VI
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XIX