Ritmo

Ritmo, compasso e andamento andam juntos e são confundidos o tempo todo. Aqui você aprende a separá-los: o ritmo é a maneira como as durações se sucedem, o compasso é a régua que as organiza, e o andamento é a velocidade com que tudo passa.

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Bata na mesa o começo de uma música que você conhece bem, sem cantar as notas, só batendo. Quem ouve provavelmente reconhece a música. O que sobrou, depois de tirar as alturas, é o ritmo: a maneira como as durações se sucedem, curtas e longas, com silêncios entre elas (LACERDA, 1966, cap. X).

O ritmo de uma melodia

Toda melodia tem um ritmo por baixo. Aqui está uma melodia curta:

E aqui está só o ritmo dela, com todas as notas trocadas por uma altura só:

As alturas sumiram, mas a figura da música continua lá: um tempo e meio, meio tempo, dois tempos iguais; depois dois longos. Med faz exatamente esse exercício para definir a palavra: tira as durações de uma melodia e mostra que elas, sozinhas, são o ritmo (MED, 1996, cap. XIX).

Ritmo não é compasso

É comum ouvir "o ritmo desta música é três por quatro". Lacerda dedica uma seção inteira a desfazer essa confusão: compasso, andamento e ritmo são três coisas diferentes (LACERDA, 1966, cap. X).

  • O compasso é a divisão da música em partes: a régua.
  • O andamento é a velocidade com que a música passa.
  • O ritmo é a maneira como os valores se sucedem.

Para ver que são independentes, basta mudar um sem mexer nos outros. Aqui, o mesmo compasso de quatro tempos com três ritmos diferentes:

O compasso é o mesmo nos três: quatro tempos, com o peso no primeiro. O que muda é o que acontece dentro dele.

E o contrário: o mesmo ritmo, dividido em compassos diferentes. Med observa que uma mesma sequência de valores pode receber mais de uma organização métrica (MED, 1996, cap. XX). Seis semínimas iguais, primeiro agrupadas em compassos de três, depois em compassos de dois:

As mesmas seis durações, as mesmas notas. Ouça onde cai o peso: no primeiro, sempre no dó; no segundo, a cada dois tempos, primeiro no dó, depois no mi, depois no sol. O ritmo é igual; o compasso muda o que se sente.

O andamento, por fim, só estica ou encolhe tudo: o mesmo ritmo, no mesmo compasso, tocado mais depressa ou mais devagar, continua sendo o mesmo ritmo.

As pequenas fórmulas

Um ritmo não é uma fila solta de durações. Ele se forma de grupos pequenos que fazem sentido, e Med chama cada grupo desses de fórmula rítmica. A menor de todas, com pelo menos dois valores, ele chama de mínimo rítmico, uma espécie de sílaba da música (MED, 1996, cap. XX).

A partir de um mínimo binário, duas semínimas, nascem muitas fórmulas: dividindo um dos valores, pontuando, trocando um som por pausa.

Cada compasso aqui é uma fórmula diferente tirada da mesma sílaba de dois tempos. É com fórmulas assim, repetidas e variadas, que se constroem os ritmos das músicas.

De onde vêm os ritmos

Blatter lembra que muitos ritmos básicos da música ocidental vêm do corpo em movimento: a dança, a marcha, o trabalho em grupo. Suítes barrocas eram feitas de danças, o minueto estava em quase toda sinfonia clássica, e o século XIX foi da valsa (BLATTER, 2007, parte 1, art. 5). A outra fonte é a palavra: os pés da poesia antiga, as sequências de sílabas fortes e fracas, viraram figuras rítmicas, sobretudo na música cantada.

O que vem depois

Quando o ritmo coloca um som no tempo fraco e o prolonga sobre o forte, ele briga com o compasso, e essa briga tem nome: síncope. Quando dois ritmos diferentes soam ao mesmo tempo, fala-se em polirritmia.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 1, art. 5
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. X
  3. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. IV, XIX, XX, XXII