Movimento das vozes

Quando duas melodias soam juntas, uma se move em relação à outra de poucas maneiras. Aqui você aprende os movimentos contrário, direto, paralelo e oblíquo, por que um livro conta três e outro quatro, as quintas e oitavas paralelas e ocultas, a quinta de trompa, e a razão acústica e de estilo que fez a teoria desconfiar das paralelas.

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Duas pessoas cantando juntas, cada uma a sua linha, fazem mais que duas melodias: a cada nota, a distância entre elas muda ou não muda, e as duas vão para o mesmo lado ou para lados opostos. Comparando duas linhas que soam ao mesmo tempo, aparecem uns poucos tipos de movimento (MED, 1996, cap. XLIX), e cada um soa de um jeito.

Nos exemplos abaixo, as duas vozes estão na mesma pauta: a de cima é a voz superior, a de baixo, a inferior.

Movimento contrário

As vozes se movem em direções opostas: uma sobe enquanto a outra desce (MED, 1996, cap. XLIX).

É o movimento que mais preserva a independência das vozes. Como as duas vão para lados opostos, o ouvido nunca as confunde, e cada uma continua soando como linha própria.

Movimento direto

As vozes se movem na mesma direção (MED, 1996, cap. XLIX), mas a distância entre elas muda. Blatter chama esse caso de movimento semelhante: as duas sobem ou descem, e uma percorre um intervalo maior que a outra (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).

Movimento paralelo

O caso especial do movimento direto: as vozes vão na mesma direção e conservam o mesmo intervalo entre elas (MED, 1996, cap. XLIX). Terças paralelas:

Um detalhe da definição de Med: para dizer que o movimento é paralelo, não se olha a qualidade do intervalo (MED, 1996, cap. XLIX). No exemplo, há terças maiores e menores, e o movimento continua sendo paralelo, porque todas são terças. Da mesma forma, uma quinta justa seguida de uma quinta diminuta conta como quintas paralelas.

Terças e sextas paralelas são o som das duplas vocais, das melodias "a duas vozes" da música popular. Elas enriquecem a linha sem apagar nenhuma das duas.

Movimento oblíquo

Uma voz fica parada, ou repete a nota, enquanto a outra se move em qualquer direção (MED, 1996, cap. XLIX).

É o movimento das notas pedais e das notas comuns que ficam de um acorde para o outro.

Três ou quatro movimentos?

Med conta três movimentos, direto, oblíquo e contrário, e trata o paralelo como um tipo de direto (MED, 1996, cap. XLIX). Blatter conta quatro, contrário, semelhante, oblíquo e paralelo, e trata o paralelo como um caso especial do semelhante (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).

A diferença é só de contagem. Os dois livros descrevem as mesmas situações e concordam que o paralelo é um direto em que o intervalo não muda. E Blatter lembra que o tipo de movimento só se define entre duas vozes de cada vez: numa textura com quatro vozes, pares diferentes podem estar fazendo movimentos diferentes ao mesmo tempo (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).

Quintas e oitavas paralelas

Nenhum princípio da teoria musical é tão conhecido quanto a regra de evitar quintas e oitavas paralelas. Mas, desde que ela apareceu num tratado do século XIV, os compositores só a obedeceram em parte (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).

Quintas paralelas e oitavas paralelas:

Med também chama de consecutivas, e inclui os uníssonos paralelos na mesma família (MED, 1996, cap. XLIX).

Por que evitá-las

Blatter dá a razão acústica. Quando duas vozes andam juntas a uma oitava, a de cima perde a identidade para o ouvido e passa a soar como um harmônico da de baixo, o seu segundo parcial. A voz de cima some como linha independente, e a textura perde uma voz (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).

Com a quinta, o argumento é parecido: duas notas a uma quinta tendem a gerar um som resultante uma oitava abaixo da mais grave, e as duas vozes soam como uma só. Mas Blatter acrescenta outra razão, de estilo: quintas paralelas lembram músicas folclóricas e tradicionais, e não o contraponto que a escrita a várias vozes pretende (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).

As duas razões mostram o alcance da regra. Ela protege a independência das vozes, e vale onde essa independência é o objetivo. Orquestradores e arranjadores dobram melodias e baixos em oitavas o tempo todo, criando oitavas paralelas de propósito (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1): ali, a intenção é engrossar uma linha, não somar outra.

Quintas e oitavas ocultas

Há um caso mais sutil. Duas vozes que chegam a uma quinta por movimento direto, vindas de outro intervalo, formam uma quinta oculta; se chegam a uma oitava, uma oitava oculta (MED, 1996, cap. XLIX).

No primeiro compasso, uma sexta menor desce em movimento direto até uma quinta; no segundo, uma sexta menor sobe até uma oitava. Não há duas quintas ou duas oitavas seguidas, mas o ouvido, que acompanha as duas linhas chegando juntas, quase ouve a quinta ou a oitava que "faltou". Por isso a escrita rigorosa também vigia esses casos, sobretudo entre as vozes extremas.

Uma quinta oculta é tão comum na música clássica que ganhou nome: a quinta de trompa (MED, 1996, cap. XLIX).

As trompas antigas, sem válvulas, só tocavam as notas da série harmônica, e duas trompas descendo juntas caíam naturalmente nesse desenho, terça, quinta, sexta. O ouvido se acostumou tanto com ele que a quinta oculta, ali, soa como assinatura.

O que vem depois

Os movimentos das vozes são o vocabulário do contraponto, a arte de escrever melodias simultâneas. E, entre acordes, são a matéria da condução de vozes: qual voz fica, qual anda, e para onde.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 4, art. 1
  2. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XLIX