Contraponto

A arte de escrever duas ou mais melodias que soam juntas, cada uma digna de ser ouvida sozinha. Aqui você aprende o que torna uma linha independente, o cantus firmus e a voz que o acompanha nota contra nota, por que a escrita a quatro vozes é contrapontística mesmo parecendo feita de acordes, e onde o contraponto se encontra com a harmonia.

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contraponto quando existem duas ou mais melodias simultâneas, e o contraponto é a arte de escrevê-las (LACERDA, 1966, cap. XXV). O nome vem do latim punctus contra punctum, ponto contra ponto, nota contra nota: a cada nota de uma voz, uma nota da outra.

A definição parece simples, mas tem uma exigência escondida. Blatter a torna explícita: contraponto é o resultado de duas ou mais linhas musicais independentes e igualmente significativas soando ao mesmo tempo (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1). Não basta pôr duas melodias juntas; cada uma precisa continuar sendo ouvida como melodia.

O que torna uma linha independente

Na música tonal, as linhas de um contraponto cumprem certas expectativas: estabelecem e mantêm uma moldura harmônica, respondem umas às outras e preparam, alcançam e resolvem as dissonâncias (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).

Cada linha, sobretudo quando é vocal, precisa ser cantável. Por isso as linhas andam principalmente por graus conjuntos, e os saltos que fazem são os mais fáceis de cantar: terças, quartas e quintas justas e, sobretudo no baixo, oitavas (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).

E a independência depende de como as vozes se movem uma em relação à outra. O movimento contrário é o que mais separa as linhas; as quintas e oitavas paralelas são evitadas porque fundem duas vozes numa só. Os dois assuntos têm tópico próprio, o do movimento das vozes.

Nota contra nota

A relação mais elementar entre duas vozes é a de nota contra nota. Uma voz, o cantus firmus, a melodia dada, é acompanhada por outra, o contraponto, com uma nota para cada nota dela, e só consonâncias entre as duas (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1). Um contraponto acima de um cantus firmus. A voz de cima:

O cantus firmus:

Os intervalos entre as vozes são quinta, terça, terça, sexta e oitava, todos consonantes. O começo e o fim ficam em consonâncias perfeitas; o meio usa terças e sextas, que dão variedade. Quase todo o caminho é em movimento contrário, e o final, sexta maior abrindo para a oitava, é a cadência mais típica do contraponto a duas vozes.

Essa é a primeira das espécies do contraponto, o método tradicional que acrescenta uma dificuldade por vez: depois de nota contra nota, duas notas contra uma, quatro contra uma, o retardo e, por fim, o contraponto florido. O método tem tópico próprio. Blatter observa que ele vai além do seu livro, mas que os seus princípios sustentam a escrita a várias vozes da música ocidental (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).

Acordes que são contraponto

A escrita a quatro vozes, soprano, contralto, tenor e baixo, parece feita de acordes, e para quem começa soa como uma sucessão de blocos. Blatter lembra que ela é, na verdade, contrapontística: cada uma das quatro vozes é uma linha, e as regras que a governam são regras de contraponto (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).

Por isso contraponto e harmonia não são opostos. Numa peça tonal, as linhas independentes se movem dentro de uma moldura harmônica, a do eixo entre tônica e dominante, e todo movimento harmônico sai dela e volta para ela (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1). A harmonia diz quais notas soam juntas; o contraponto diz como cada voz chega até elas.

Contraponto e polifonia

A textura que o contraponto produz é a polifonia, em que as linhas têm importância igual, ou quase igual, e fica difícil dizer qual é a principal (BLATTER, 2007, parte 5, art. 1). Uma melodia com acompanhamento de acordes não é contraponto; duas melodias que disputam a atenção do ouvinte, sim.

Entre um extremo e outro há muitos graus. Um contracanto, uma segunda melodia que acompanha a principal sem roubar o lugar dela, é contraponto em pequena escala, e aparece em toda parte: na segunda voz de uma dupla, no baixo que caminha no choro, na linha que o sax faz por baixo da cantora.

O que vem depois

O contraponto tem uma técnica que o organiza de modo especial: a imitação, em que uma voz repete o que outra acabou de fazer. Levada ao rigor, a imitação dá o cânone, e, no nível mais alto, a fuga.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 4, art. 1; parte 5, art. 1
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXV