Imitação e cânone

Uma voz diz, outra repete. Aqui você aprende a imitação, com o seu guia e o seu seguidor, os dois intervalos que a descrevem, a imitação livre e o cânone de regras precisas, a roda como cânone infinito, os cânones em espelho, caranguejo, à quinta e por aumentação, como se escreve uma roda, e o contraponto invertível das invenções de Bach.

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Uma das maneiras mais antigas de fazer duas vozes soarem independentes e aparentadas ao mesmo tempo é esta: uma voz apresenta uma ideia, e outra a repete um pouco depois, enquanto a primeira segue em frente. É a imitação.

Guia e seguidor

Na imitação, uma ideia musical é apresentada por uma voz, ou grupo de vozes, e repetida por outra. A voz que apresenta se chama dux, guia em latim; a que imita se chama comes, seguidor (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). A imitação não é exclusiva da música polifônica, mas cria, pela própria natureza, uma textura contrapontística.

Uma imitação à oitava, dois compassos depois. O guia:

O seguidor, uma oitava abaixo:

Duas medidas descrevem uma imitação: o intervalo de altura entre as vozes e o intervalo de tempo entre as entradas. Aqui, uma oitava e dois compassos. O instante em que a imitação começa, no primeiro tempo do terceiro compasso, é o ponto de imitação (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

A imitação não precisa ser rigorosa. Quando o seguidor repete o guia só em parte, ou com mudanças, é uma imitação livre (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

O cânone

Quando uma voz apresenta uma ideia melódica extensa, e outra a imita inteira enquanto a primeira continua, há um cânone. Num cânone, as relações de altura e de ritmo entre as vozes são definidas com precisão, e a palavra quer dizer justamente isso: uma lista de regras (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

Muitos cânones antigos nem eram escritos por inteiro. Anotava-se só o guia, e a regra para gerar o seguidor vinha em palavras ou em código. Às vezes a regra era um enigma que os intérpretes tinham de resolver, e o resultado se chamava cânone enigmático (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

Os tipos de cânone

Os cânones se descrevem pelo intervalo de tempo entre as entradas, pelo intervalo de altura, e pela regra que transforma o guia no seguidor (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

A roda. O cânone mais familiar: uma melodia imitada, em geral três ou quatro vezes, no uníssono ou à oitava, com as entradas sempre à mesma distância. Quando todos entraram, a primeira voz pode recomeçar. Por isso se diz que a roda é um cânone infinito. Toda roda é um cânone, mas nem todo cânone é uma roda (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). "Frère Jacques" e "Row, Row, Row Your Boat" são rodas.

Cânone a outro intervalo. O seguidor começa uma quinta, uma terça ou outro intervalo acima ou abaixo do guia, independentemente da oitava (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

Cânone em espelho. O seguidor é a inversão do guia: onde um sobe, o outro desce (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

Cânone caranguejo, ou cancrizans. O seguidor é o guia de trás para a frente, o retrógrado. Às vezes a partitura é lida por dois músicos sentados um diante do outro, cada um começando do seu lado da mesma folha (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

Cânone de mensuração. As vozes começam juntas, mas cada uma tem as notas em durações diferentes, numa proporção definida: uma canta a melodia em aumentação, outra no valor original (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

O caranguejo e o espelho são cânones finitos, feitos para terminar, e não para recomeçar (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). Todos eles aplicam ao contraponto as técnicas de manipulação melódica: transposição, inversão, retrógrado, aumentação.

Como se escreve uma roda

Blatter lembra que as rodas são divertidas de cantar e relativamente fáceis de compor, e dá o procedimento (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4):

  1. escreva a primeira linha, o trecho do guia desde o começo até a entrada da segunda voz;
  2. numa pauta abaixo, escreva um contraponto simples que funcione com a primeira linha;
  3. numa terceira pauta, escreva outra linha que funcione com as duas primeiras. Já se tem uma roda a três vozes;
  4. para quatro vozes, escreva uma quarta linha que funcione com as três.

Emendadas uma depois da outra, as linhas formam a melodia da roda, e números sobre a pauta indicam onde cada grupo entra. O segredo está na ordem: cada linha nova é escrita para soar bem junto com todas as anteriores, porque é exatamente assim que ela vai soar quando os grupos se sobrepuserem.

Contraponto invertível

As invenções de Bach, peças para teclado a duas vozes, e as suas sinfonias, a três, são modelos de contraponto usados no ensino desde o Barroco. O nome vem de uma propriedade comum a todas: o contraponto invertível (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

Contraponto invertível quer dizer que duas linhas escritas uma sobre a outra podem, mais adiante, trocar de lugar, com a de baixo passando para cima, e o contraponto continua funcionando (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). Duas linhas em terças:

As mesmas linhas trocadas de lugar, a de cima uma oitava abaixo e a de baixo uma oitava acima:

Invertidas à oitava, as terças viram sextas, e as sextas continuam consonantes. O cuidado está nas quintas: uma quinta justa invertida vira uma quarta justa, que no contraponto é dissonante e precisa ser tratada como tal (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). Nas invenções, dois motivos são apresentados, trocam de mão e de tonalidade ao longo da peça, e o contraponto invertível é o que permite essa troca.

O que vem depois

A forma em que a imitação chega ao grau mais alto de organização é a fuga: um tema que entra voz por voz, sempre respondido, e desenvolvido com todas as técnicas do contraponto.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 5, art. 4