Fuga
A forma em que a imitação chega ao máximo de organização. Aqui você aprende o sujeito e a resposta, a exposição em que as vozes entram uma a uma, o contrassujeito, a diferença entre resposta real e resposta tonal, os episódios e o corpo da fuga, e os recursos especiais, como o stretto, o pedal e a fuga dupla.
Um tema aparece sozinho, numa voz. Logo depois, outra voz o repete numa altura diferente, enquanto a primeira continua com uma nova linha. Uma terceira entra, depois uma quarta, até todas estarem tocando, cada uma com a sua melodia. Isso é o começo de uma fuga.
De onde vem
A fuga, como se conhece hoje, é um produto do Barroco, e aparece por volta da década de 1620; antes disso, a palavra servia para qualquer música imitativa. O seu precursor mais importante é o ricercare, uma peça instrumental do século XV aparentada ao moteto vocal, muito contrapontística, com uma figura temática bem característica passeando entre as vozes em imitação (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).
Para os estudantes de hoje, a definição e a estrutura da fuga estão ligadas a Bach, embora Händel e muitos outros compositores da época, e anteriores, tenham escrito fugas importantes (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).
Sujeito e resposta
A fuga é uma peça imitativa e contrapontística em que um tema, geralmente um só, o sujeito, é apresentado numa voz, seguido de entradas do mesmo tema nas outras vozes, até que todas tenham entrado. O número de vozes pode chegar a seis ou mais, mas o mais comum é de três a cinco (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).
As entradas alternam de altura. A primeira, a terceira e a quinta voz apresentam o tema na tônica; a segunda, a quarta e a sexta, na dominante. Essa versão transposta do sujeito se chama resposta (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).
O sujeito costuma ter uma cabeça, com características marcantes que permitem reconhecê-lo sempre que aparece, e uma cauda, mais utilitária, que leva ao que vem depois (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). Um sujeito em dó maior, com a cabeça no salto de dó a sol:
Resposta real e resposta tonal
Para achar a resposta, parece bastar transpor o sujeito uma quinta acima. Essa transposição exata se chama resposta real:
Mas Bach muitas vezes modificava a resposta, e a versão modificada se chama resposta tonal (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). Os teóricos observaram em que casos isso acontece (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4):
- quando o sujeito começa com um salto da tônica para a dominante, ou da dominante para a tônica;
- quando o sujeito modula;
- quando o sujeito dá ênfase à dominante.
O sujeito acima começa com um salto de tônica a dominante, dó a sol. A resposta real começaria com sol a ré, dominante a segunda da tonalidade. A resposta tonal troca o salto: começa com sol a dó, dominante a tônica, e ajusta o trecho seguinte:
A razão é tonal. Se a resposta real saísse de sol para ré, a fuga começaria a soar em sol maior antes da hora; trocando o salto, a resposta responde ao sujeito sem tirar a música de dó. No caso de um sujeito que modula, a lógica é a mesma: a resposta real modularia ainda mais longe da tônica e tornaria impossível a terceira entrada, que precisa voltar à tônica (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).
A exposição
A fuga costuma ter duas partes principais, a exposição e o corpo. Na exposição, cada voz apresenta a sua versão do tema, sujeito ou resposta, e, depois de entrar, passa a acompanhar as vozes seguintes com contrapontos chamados contrassujeitos. A exposição termina, em geral, num acorde de tônica ou de dominante (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). Numa fuga a quatro vozes:
| Entrada | Soprano | Contralto | Tenor | Baixo |
|---|---|---|---|---|
| 1ª | sujeito (I) | |||
| 2ª | resposta (V) | contrassujeito 1 | ||
| 3ª | contrassujeito 1 | contrassujeito 2 | sujeito (I) | |
| 4ª | contrassujeito 2 | contrassujeito 3 | contrassujeito 1 | resposta (V) |
A ordem das vozes varia de fuga para fuga; o que se mantém é a alternância entre sujeito e resposta. Os contrassujeitos costumam ser escritos em contraponto invertível, para que possam aparecer acima ou abaixo do tema (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).
O corpo e os episódios
O corpo da fuga começa no acorde que fecha a exposição e é feito de entradas do sujeito ou da resposta, em várias tonalidades, e, entre elas, episódios. Assim como o desenvolvimento da forma sonata, o corpo é imprevisível: o compositor pode trazer o tema em qualquer tonalidade que quiser (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).
O episódio é o trecho que não contém o sujeito nem a resposta. É contrapontístico, feito com material tirado do sujeito, da resposta ou dos contrassujeitos, e costuma apresentar esse material em sequência, com contraponto invertível (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). Os episódios dão ao ouvido um descanso do tema e levam a música de uma tonalidade à outra, para a próxima entrada.
Recursos especiais
Alguns recursos aparecem em muitas fugas, sem serem obrigatórios (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).
Stretto. Uma entrada do tema começa antes de a anterior terminar, e as vozes se atropelam. O sujeito em dó, e uma segunda entrada que começa na metade do primeiro compasso, uma oitava acima:
Pedal. Uma nota sustentada por vários compassos numa das vozes, geralmente a tônica ou a dominante, quase sempre perto do fim do corpo.
Aumentação e diminuição. O tema aparece em valores mais longos ou mais curtos.
Contraexposição. Uma nova exposição dentro do corpo, com as vozes entrando de novo uma a uma, às vezes em outra ordem.
Entrada adiada. Na exposição, uma voz, geralmente a última, entra mais tarde do que o esperado, e a sua chegada vira surpresa.
Coda. Um final acrescentado ao corpo, que pode trazer uma última entrada do tema.
Fugas duplas e triplas. Em algumas fugas grandes, o compositor usa dois ou três sujeitos, com duas exposições, ou com dois temas apresentados juntos desde o começo.
O que vem depois
A fuga reúne quase tudo o que o contraponto tem: imitação, contraponto invertível, sequência, aumentação e diminuição, modulação. Ouvir uma fuga sabendo onde entra cada voz é uma das melhores maneiras de ouvir contraponto de verdade.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 5, art. 4