Prosódia musical

Quando uma melodia tem letra, as sílabas fortes das palavras precisam cair nos tempos fortes da música. Aqui você aprende o que é prosódia musical, como as palavras oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas se encaixam no compasso, os pés da poesia antiga e as figuras rítmicas que vieram deles, a diferença entre o canto silábico e o melismático, e por que um erro de prosódia se ouve na hora.

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Cante "Parabéns pra você" pondo a força em "PA-ra-béns". Soa errado na hora, mesmo para quem nunca estudou música. O ouvido espera que a sílaba forte da palavra caia no tempo forte do compasso, e quando isso não acontece a palavra fica torta.

O ajuste entre as palavras e a música tem nome: prosódia musical. Med a define como o ajustamento das palavras à música, ou da música às palavras, tendo por base, de um lado, o acento tônico e, de outro, a acentuação métrica (MED, 1996, cap. XLIX).

A regra

A regra é uma só: os acentos das palavras devem coincidir com os acentos métricos (MED, 1996, cap. XXII). A sílaba tônica vai para um tempo forte, ou pelo menos para um tempo mais forte que o das átonas vizinhas.

A definição de Med tem dois sentidos, e os dois acontecem na prática. Um compositor que musica um poema ajusta a música às palavras: o texto já existe, e a melodia se molda a ele. Um letrista que escreve versos para uma melodia pronta faz o contrário, e ajusta as palavras à música. Em qualquer dos dois casos, o encontro das sílabas fortes com os tempos fortes é o que decide se a canção soa natural.

Onde cai a sílaba tônica

Em português, a posição da sílaba tônica decide como a palavra entra no compasso.

Oxítonas, com a tônica na última sílaba, como "can-ção" ou "ca-", começam com átonas. Essas átonas precisam vir antes do tempo forte, e a palavra pede uma anacruse. Uma nota antes da barra, a tônica logo depois:

Posta ao contrário, com "can" no tempo forte e "ção" no fraco, a mesma palavra soa como "CAN-ção":

Paroxítonas, com a tônica na penúltima, como "ca-sa", começam no tempo forte e terminam numa átona, no tempo fraco. É o desenho forte e fraco de um compasso binário. Quando a paroxítona tem sílabas antes da tônica, como "sau-da-de", a primeira vai para a anacruse.

Proparoxítonas, com a tônica na antepenúltima, como "-si-ca", têm uma forte seguida de duas fracas. Cabem com naturalidade num compasso ternário, uma sílaba por tempo:

Os pés da poesia

A relação entre o ritmo das palavras e o ritmo da música é muito antiga. Blatter lembra que uma das teorias para explicar como se cantava a música mais antiga, anotada sem ritmo, é que ela seguia o ritmo dos versos, e que algumas das figuras rítmicas mais antigas vêm diretamente dos pés da poesia, as combinações de sílabas fortes e fracas (BLATTER, 2007, parte 1, art. 5):

DesenhoUma palavra com esse desenho
iambofraca, fortea-mor
troqueuforte, fracaca-sa
anapestofraca, fraca, forteco-ra-ção
dátiloforte, fraca, fraca-si-ca
espondeuforte, forteduas tônicas seguidas
tríbracofraca, fraca, fracatrês átonas seguidas

Na música, o pé vira ritmo. O iambo e o troqueu, curto e longo, longo e curto:

O anapesto e o dátilo, dois curtos e um longo, um longo e dois curtos:

O acento da palavra pode vir da duração, da posição no compasso ou das duas coisas juntas. Nos exemplos, a sílaba forte é a mais longa e cai no começo do compasso ou logo depois dele.

Silábico e melismático

Uma sílaba pode ter uma nota só, ou várias. Quando cada sílaba tem a sua nota, o canto é silábico; quando uma sílaba se estende por várias notas, é melismático, e o grupo de notas sobre uma sílaba é um melisma. Na partitura, as notas do melisma são abrangidas por uma linha curva (LACERDA, 1966, cap. IX):

A primeira e a última nota têm uma sílaba cada; as quatro colcheias do meio cantam a mesma sílaba. O melisma é o lugar natural das vogais longas e das palavras que o texto quer destacar. Por isso ele cai com frequência na sílaba tônica: esticar uma átona chama a atenção para a parte errada da palavra.

Na escrita vocal, havia o costume de não unir as bandeirolas das notas que têm sílabas diferentes, para que cada sílaba ficasse visível sob a sua nota. Lacerda considera melhor seguir a regra geral e uni-las por tempo, porque a leitura fica mais fácil (LACERDA, 1966, cap. IX).

O erro de prosódia

Um erro de prosódia é uma sílaba átona no lugar de uma tônica: "CAN-ção", "SAU-dade", "CA-fé". Ele se ouve na hora porque a palavra, cantada assim, deixa de ser reconhecível, ou vira outra.

Isso não quer dizer que toda canção obedeça à regra em todas as sílabas. A música popular brasileira, em especial, brinca com a prosódia: desloca acentos de propósito, estica uma átona para criar balanço, casa a síncope com a fala. A diferença entre o deslize e o recurso é a intenção, e o ouvido costuma saber distinguir uma coisa da outra.

O que vem depois

A prosódia é o ponto em que a melodia encontra a língua. A partir dela, a frase musical e a frase do texto se organizam juntas, e a forma da canção segue a forma dos versos.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 1, art. 5
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. IX
  3. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXII, XLIX