Compassos irregulares e alternados
Alguns compassos têm cinco ou sete tempos, e não se dividem em grupos iguais de dois ou de três. Aqui você aprende como o ouvido os escuta mesmo assim, em grupos curtos e longos; como o agrupamento se escreve; que nomes os livros dão a eles; e o que acontece quando o próprio compasso muda de uma barra para a outra.
Marque um pulso constante e conte até cinco, depois recomece. Dois e três são fáceis de sentir: o acento cai a cada dois ou a cada três tempos, e o compasso parece respirar sozinho. Cinco não se divide em partes iguais, e sete também não. O ouvido não desiste deles, porém. Ele os escuta como grupos de tamanhos diferentes, um curto e um longo.
Compassos assim, de cinco, sete, onze tempos, costumam ser chamados de compassos irregulares. Blatter observa que o outro nome, "irracionais", está errado nas duas coisas, e que o que importa é como eles são construídos e como se sentem (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4).
Cinco: três e dois, ou dois e três
Um compasso de cinco é quase sempre dois grupos: um de três tempos e um de dois. Num andamento lento, contam-se os cinco; num mais rápido, sente-se um par desigual de pulsos, um longo e um curto (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4). Lacerda descreve do mesmo jeito: um compasso ternário mais um binário, ou o contrário (LACERDA, 1966, cap. VI).
Repare onde cai o segundo acento: no quarto tempo, depois do grupo de três. Agora a mesma contagem agrupada ao contrário, dois e depois três, com o segundo acento no terceiro tempo:
As duas versões têm a mesma fórmula de compasso e soam diferentes. O agrupamento faz parte da música, não da fração. O segundo movimento da Sexta Sinfonia de Tchaikovsky é uma peça conhecida em cinco, com jeito de valsa (MED, 1996, cap. XIX), e "Take Five", de Dave Brubeck, tornou um padrão 3+2 familiar muito além da música erudita.
Sete: três jeitos de agrupar
Sete tempos se sentem como um três desigual: dois grupos curtos e um longo. O grupo longo pode vir no fim, no meio ou no começo (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4):
| Agrupamento | Onde fica o grupo longo |
|---|---|
| 2+2+3 | no fim |
| 2+3+2 | no meio |
| 3+2+2 | no começo |
Em sete por oito, as colcheias se ligam por grupo, e o agrupamento se lê de relance. Aqui está o 2+2+3, primeiro em colcheias e depois nos três pulsos que o ouvido guarda dele, duas semínimas e uma semínima pontuada:
E o 3+2+2, com o pulso longo no começo:
A versão de Lacerda para o sete anda mais devagar: um compasso quaternário mais um ternário, ou o contrário (LACERDA, 1966, cap. VI). As duas descrições não brigam. Num andamento lento, com a semínima valendo um tempo, sete se sente como quatro e três; num andamento rápido, em colcheias, ele se quebra nos dois e três que Blatter lista.
Como escrever o agrupamento
As barras de ligação já mostram como as colcheias se agrupam, mas às vezes o compositor quer que a própria fórmula diga isso. Um jeito é escrever as partes como uma soma: um cinco por oito marcado 3+2 sobre 8, ou um sete por oito marcado 2+2+3 sobre 8. O mesmo recurso reagrupa um compasso comum, como oito colcheias num quatro por quatro agrupadas 3+3+2 (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4).
Med mostra a mesma ideia pelo outro lado. Para ele, o cinco por quatro pode ser um três por quatro e um dois por quatro juntos, o que ele chama de compasso alternado, e o agrupamento pode ser indicado ao lado da fórmula (MED, 1996, cap. XIX). Na chamada teoria alemã de compassos, um compasso feito de compassos simples diferentes, como 2+3 ou 2+2+3, é um compasso composto irregular, e um feito de compassos iguais, como 2+2+2, é regular. Quem decide é o agrupamento, não a fração: oito por oito agrupado 2+2+2+2 é regular, agrupado 3+3+2 é irregular (MED, 1996, cap. XXVIII).
Quando o compasso muda
Uma peça também pode mudar de compasso no caminho: uma barra de 3/4, depois uma de 2/4, depois 5/8. Cada fórmula nova se escreve na barra em que começa, e vale até a próxima. A música do século XX usa muito isso, e A Sagração da Primavera, de Stravinsky, é o caso famoso: o compasso muda quase a cada barra, e os acentos caem sempre onde o ouvinte não espera.
Quando a mesma alternância se repete do começo ao fim, o compositor pode anunciá-la uma vez só, com as duas fórmulas no início. Med registra essa prática e não a recomenda; lembra também que às vezes a alternância nem é escrita e fica para o intérprete sentir (MED, 1996, cap. XIX).
O que vem depois
Tudo aqui acontece um compasso de cada vez, mesmo quando o compasso muda. Quando dois compassos, ou duas divisões diferentes do tempo, soam juntos, três contra dois, o resultado é a polirritmia e a polimetria.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 1, art. 4
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. VI
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XIX, XXVIII