Fórmula de compasso
Os dois números empilhados no começo da pauta resumem o compasso: quantos tempos ele tem e qual figura vale um tempo. Aqui você aprende a ler a fórmula nos compassos simples, a decifrar a dos compostos, que à primeira vista engana, e a reconhecer os sinais C e C cortado.
No começo da pauta, logo depois da clave e da armadura, costumam vir dois números empilhados. Eles são a fórmula de compasso, e dizem de uma vez o que os dois tópicos anteriores explicaram: quantos tempos há em cada compasso e qual figura vale um tempo (LACERDA, 1966, cap. VIII).
A fórmula se escreve uma vez só, no início, e vale até o fim da música ou até aparecer outra (MED, 1996, cap. XIX). Lê-se com a palavra "por": esta é "três por quatro". Lacerda insiste nesse ponto: diz-se "nove por oito", e não "nove oitavos".
O número de baixo é uma figura
O número de baixo diz qual figura está sendo contada. Cada figura recebe o número de vezes que cabe numa semibreve:
| Número | Figura |
|---|---|
| 1 | semibreve |
| 2 | mínima |
| 4 | semínima |
| 8 | colcheia |
| 16 | semicolcheia |
| 32 | fusa |
| 64 | semifusa |
É por isso que a fórmula parece uma fração. Lacerda explica que ela é mesmo uma fração da semibreve: "dois por quatro" são dois quartos de semibreve, ou seja, duas semínimas por compasso (LACERDA, 1966, cap. VIII). Na pauta, porém, a fórmula não leva o traço de fração, que coincidiria com a terceira linha (MED, 1996, cap. XIX).
No compasso simples, a leitura é direta
No compasso simples, o número de cima é o número de tempos, e o de baixo é a unidade de tempo.
Dois por quatro: dois tempos, cada tempo uma semínima.
Quatro por quatro: quatro tempos de semínima.
Dois por dois: dois tempos, e agora cada tempo é uma mínima.
Lacerda lista os números de cima dos compassos simples: 2, 3, 4, 5 ou 7, os mesmos números de tempos do tópico sobre o compasso.
No compasso composto, a fórmula engana
No compasso composto a unidade de tempo é pontuada, e uma figura pontuada não tem número que a represente. A solução da escrita é contar a subdivisão em vez do tempo: o número de baixo passa a ser a figura em que o tempo se divide, e o de cima, quantas dessas figuras cabem no compasso (LACERDA, 1966, cap. VIII).
Seis por oito parece dizer "seis tempos de colcheia". Não é. São seis colcheias por compasso, agrupadas de três em três: dois tempos, cada tempo uma semínima pontuada. É isso que as barras de colcheia mostram no segundo compasso.
Para chegar ao compasso real a partir da fórmula, a conta é esta:
- tempos: o número de cima dividido por 3. Seis por oito tem 6 ÷ 3 = 2 tempos.
- unidade de tempo: a figura do número de baixo, uma vez mais longa, com ponto. Oito é colcheia; a mais longa é a semínima; com ponto, semínima pontuada.
Nove por oito: 9 ÷ 3 = 3 tempos de semínima pontuada. Doze por oito seriam quatro. Por isso, nos compostos, o número de cima é sempre um múltiplo de três: Lacerda cita 6, 9, 12, 15 e 21.
De um para o outro
Um compasso simples e um composto são correspondentes quando têm o mesmo número de tempos e a mesma figura como unidade, sem ponto num e com ponto no outro. Lacerda dá a conta para passar de um ao outro direto pela fórmula: do simples para o composto, multiplique o número de cima por 3 e o de baixo por 2; do composto para o simples, divida (LACERDA, 1966, cap. VIII).
| Simples | × 3 em cima, × 2 embaixo | Composto correspondente |
|---|---|---|
| 2 por 4 | 2 × 3 = 6, 4 × 2 = 8 | 6 por 8 |
| 3 por 4 | 3 × 3 = 9, 4 × 2 = 8 | 9 por 8 |
| 4 por 4 | 4 × 3 = 12, 4 × 2 = 8 | 12 por 8 |
| 2 por 2 | 2 × 3 = 6, 2 × 2 = 4 | 6 por 4 |
C e C cortado
Duas fórmulas têm um sinal próprio no lugar dos números. O C vale quatro por quatro:
E o C cortado, atravessado por uma barra vertical, vale dois por dois, e é chamado também de alla breve:
Blatter explica que os dois sinais são restos de um sistema antigo de indicar o tempo (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4). Med conta a origem: na notação antiga, um círculo indicava o compasso ternário, considerado perfeito; um semicírculo, parecido com um C, o quaternário; e o semicírculo cortado, o binário, os dois considerados imperfeitos (MED, 1996, cap. XIX). O C não é a inicial de "comum", embora o inglês o chame de common time.
A mesma música, fórmulas diferentes
A fórmula é uma escolha de escrita. Blatter mostra que o mesmo ritmo pode ser escrito em dois por quatro, em dois por dois ou com colcheias, e soar exatamente igual, desde que o andamento acompanhe a troca de figura (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4).
Nos dois, dois tempos por compasso e o mesmo desenho rítmico; no segundo, todas as figuras dobraram. O player daqui mantém a semínima sempre na mesma velocidade, então vai tocar o segundo mais devagar. Com a mínima no lugar da semínima como pulso, os dois seriam idênticos.
O que vem depois
Com a fórmula lida, cada compasso tem tempos contados. Mas nem todos pesam igual: o primeiro tempo costuma soar mais forte que os outros. Esse é o assunto da acentuação métrica.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 1, art. 4
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. VIII
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XIX