Manipulação melódica

Como uma única ideia melódica rende uma música inteira. Aqui você aprende o retrógrado, a inversão tonal e a inversão real, a transposição dentro da tonalidade e a sequência, a aumentação e a diminuição, o deslocamento de acordes em bloco, e algumas técnicas do século XX, com uma mesma melodia curta passando por todas elas.

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Toda música tem algum material que a unifica: uma melodia grande, ou um gesto pequeno que liga as partes de uma obra. Organizar uma composição para que as suas partes tenham material aparentado, pelas alturas, pelo desenho melódico ou pelo ritmo, é a essência da composição, e os compositores fazem isso, conscientemente ou por intuição, com algumas técnicas que se deixam entender com facilidade (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3).

Este tópico passa uma melodia curta por essas técnicas. Esta é a ideia original:

Sobe por duas terças, desce por graus, e pousa na tônica. Tudo o que vem a seguir é esta mesma melodia.

Retrógrado

A técnica mais simples é inverter a ordem: a última nota, com a sua duração, vem primeiro, a penúltima em segundo, e assim por diante. É o retrógrado (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3):

Como a melodia tem alturas e durações, dá para inverter só uma das duas (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3). No retrógrado das alturas, o ritmo continua o original e só a ordem das notas se inverte:

No retrógrado rítmico, as notas seguem na ordem original e o ritmo é que vem de trás para a frente:

Inversão

Na inversão, a melodia é virada de cabeça para baixo: onde subia, desce, e onde descia, sobe, pela mesma distância (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3). Mas "a mesma distância" tem dois sentidos.

Na inversão tonal, cada intervalo é espelhado dentro da escala. Uma terça que subia vira uma terça que desce, e a melodia continua na tonalidade:

O preço é que alguns intervalos mudam de qualidade. O primeiro intervalo do original é uma terça maior subindo, de dó a mi; na inversão tonal, é uma terça menor descendo, de dó a lá. Por isso ela não é um espelho exato: sacrifica a exatidão para conservar a tonalidade (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3).

Na inversão real, cada intervalo mantém o tamanho exato. A terça maior que subia vira uma terça maior que desce:

Agora o espelho é perfeito, mas a melodia saiu de dó maior: as notas são as de fá menor (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3). O termo espelho às vezes serve para os dois tipos, e alguns teóricos o reservam para a inversão real.

As técnicas se combinam. Com três retrógrados e duas inversões, há seis retrógrados de inversões possíveis, e todas elas são material novo tirado da mesma ideia (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3).

Transposição dentro da tonalidade e sequência

Transpor, no sentido comum, é mudar a altura mantendo cada intervalo exato. Mas há outro tipo, muito usado: deslocar a ideia para cima ou para baixo dentro da mesma tonalidade, começando em outro grau da escala. Aí alguns intervalos mudam em um semitom, e cada versão tem uma cor própria (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3).

Esse procedimento não tem nome consagrado. Blatter registra transposição tonal, transmutação e também transposição modal, e observa que nenhum desses termos é muito usado (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3). Cuidado com o último: em português, "transposição dos modos" costuma querer dizer outra coisa, escrever um modo litúrgico começando em outra nota.

Quando a ideia é deslocada assim várias vezes seguidas, subindo ou descendo, forma-se uma sequência (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3). O começo da melodia, subindo por graus:

Terça maior e terça menor, depois terça menor e terça maior, depois de novo menor e maior. O desenho é o mesmo; os intervalos se adaptam à escala.

Deslocar acordes em bloco

Um acorde também pode ser deslocado para cima ou para baixo, de dois jeitos. Dentro da tonalidade, a estrutura dos acordes muda conforme o grau; mantendo a estrutura fixa, os acordes saem da tonalidade (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3). Tríades subindo pela escala de dó:

A mesma tríade maior, deslocada sem mudar de forma:

O deslocamento em bloco, dentro ou fora da tonalidade, é chamado às vezes pelo termo inglês planing (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3). É um som característico de Debussy, e também do violão popular, quando uma mesma forma de acorde corre pelo braço.

Aumentação e diminuição

A aumentação alonga as durações da ideia. Dobrando todas:

A diminuição faz o contrário, e encurta as durações. Pela metade:

As duas não precisam ser proporcionais: as durações podem crescer ou diminuir em quantidades diferentes. E o mesmo efeito se consegue mudando o andamento, em vez das figuras (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3). Uma melodia aumentada no baixo, sob a mesma melodia no ritmo original, é um recurso antigo do contraponto.

Técnicas do século XX

No século XX, os compositores levaram essas ideias mais longe (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3).

  • Aumentação e diminuição das alturas. Em vez das durações, crescem ou encolhem os intervalos: cada intervalo ganha, ou perde, um semitom.
  • Acordes a partir da melodia. As notas da melodia são agrupadas de três em três, ou de quatro em quatro, e formam acordes aparentados com ela. O processo inverso tira uma melodia de uma série de acordes.
  • Permutações. A ordem de um elemento é rearranjada. Nas permutações cíclicas, a ordem se mantém e muda só o elemento inicial: 1 2 3 4 5, depois 2 3 4 5 1, depois 3 4 5 1 2.
  • Extração. Algumas notas da melodia são tiradas dela e formam uma segunda voz, e as duas linhas passam a soar em contraponto.
  • Proporções numéricas. A seção áurea e a série de Fibonacci servem a alguns compositores para decidir, por exemplo, em que compasso fica o clímax de uma peça.

A série dodecafônica de Schoenberg, uma ordem fixa das doze notas cromáticas, é o terreno natural dessas técnicas.

Escolher é a arte

Combinando essas técnicas, uma única ideia rende um número enorme de variações, e o compositor nunca fica sem material. Mas Blatter adverte que nem toda variação é musicalmente útil ou atraente só porque nasce de uma boa ideia. O desafio sempre foi escolher e combinar as variantes que produzem a arte mais eficaz (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3).

O que vem depois

As técnicas de manipulação trabalham sobre ideias curtas. A menor delas, a que se repete e se transforma ao longo de uma obra, é o motivo, e a mais importante é o tema.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 5, art. 3