Motivo e tema

As menores ideias de uma obra, e as maiores. Aqui você aprende o que é um motivo e por que quatro notas podem sustentar uma sinfonia, o inciso como impulso e repouso, o motivo rítmico, o que faz de uma melodia um tema, e como o motivo e o tema se relacionam com a frase e com a forma.

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Quatro notas bastam para reconhecer a Quinta Sinfonia de Beethoven:

Três notas curtas e uma longa, uma terça abaixo. Não é uma melodia completa, não termina numa cadência, e mesmo assim é inconfundível. É um motivo.

O motivo

Med define o motivo como uma figura musical breve, de forma clara e precisa, formada por uma combinação bem definida de intervalos e de ritmo, o que facilita a sua memorização. E acrescenta a função: o motivo é um elemento unificador da obra, que se repete várias vezes durante a composição (MED, 1996, cap. XLIX).

As duas partes da definição andam juntas. O motivo precisa ser curto e nítido para ser reconhecido quando volta; e ele volta porque é assim que a obra se amarra. Na Quinta Sinfonia, a primeira coisa que Beethoven faz com as quatro notas é repeti-las um grau abaixo:

É a mesma ideia, deslocada dentro da tonalidade. A terça de baixo mudou de maior para menor, e o ouvido reconhece o motivo mesmo assim, porque o ritmo e o desenho ficaram. Todas as técnicas de manipulação melódica, a sequência, a inversão, a aumentação, trabalham sobre ideias desse tamanho.

O motivo rítmico

Um motivo nem precisa de alturas fixas. Blatter mostra que, no "Hino de Batalha da República", uma canção americana do século XIX, uma mesma figura rítmica pontuada volta ao longo de toda a peça, e é um dos elementos que a unificam (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3). As notas mudam; o ritmo fica.

O mesmo vale para as quatro notas de Beethoven. O que se ouve ao longo do primeiro movimento é, muitas vezes, só o ritmo, curto, curto, curto, longo, sobre alturas diferentes.

Para Blatter, estruturar uma composição para que as suas partes tenham material aparentado, pelas alturas, pelo desenho ou pelo ritmo, é a essência da composição (BLATTER, 2007, parte 5, art. 3). O motivo é a unidade desse parentesco.

O inciso

Med define ainda o inciso, uma pequena célula musical formada por um impulso e um repouso (MED, 1996, cap. XLIX). O impulso é a nota, ou o grupo de notas, que se lança; o repouso é onde ela pousa:

Dois incisos: o primeiro sobe e pousa no dó, o segundo contorna o dó e pousa nele de novo. O inciso é a respiração mínima da música, a menor unidade que já tem começo e fim. Motivos e incisos são, para Med, os elementos menores da estrutura de uma melodia, abaixo da frase e do período (MED, 1996, cap. XLIX).

O tema

No outro extremo está o tema, a ideia fundamental de uma obra. Med o define como uma melodia bem definida, com conteúdo musical significativo, e dá como exemplo o primeiro e o segundo tema de uma sonata (MED, 1996, cap. XLIX).

A diferença para o motivo é de escala e de papel. O motivo é uma célula; o tema é uma melodia inteira, geralmente com frases e cadências, que a obra apresenta como assunto principal. Um tema costuma conter motivos, e o trabalho sobre esses motivos é o que permite que o tema seja desenvolvido: partido, transformado, recombinado.

Uma obra pode ter vários temas, e muitas formas vivem do contraste entre eles. Numa sonata clássica, o primeiro e o segundo tema se opõem em caráter e em tonalidade. Num tema com variações, um tema só é apresentado e depois transformado muitas vezes.

Da célula à forma

Motivo, inciso, frase, período, tema, forma: são níveis de uma mesma construção, do menor ao maior. Blatter lembra que, ao representar uma forma com letras, as maiores e mais destacadas indicam as estruturas mais amplas, e as menores, os detalhes, até o motivo (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). Olhar uma obra de perto é achar os motivos; olhar de longe é ver os temas e as seções.

O que vem depois

Entre o motivo e o tema está a frase, a unidade que termina numa cadência, e o período, que junta duas frases em pergunta e resposta.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 5, art. 3, 4
  2. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XLIX