Melodia
Uma sucessão de sons de alturas e durações diferentes que faz sentido como música. Aqui você aprende o que transforma uma fila de notas numa melodia, por que o ritmo é metade dela, a diferença entre andar por graus e saltar, como uma melodia se organiza em pontos de chegada, e o que uma canção infantil muito simples mostra sobre tudo isso.
Toque sete notas quaisquer no piano, uma depois da outra. Há uma sucessão de sons, mas quase nunca há uma melodia. Agora cante o começo de uma canção que você conhece. Também é uma sucessão de sons, e ninguém duvida de que é uma melodia. A diferença entre as duas coisas é o assunto deste tópico.
O que é uma melodia
Lacerda define a melodia como uma sucessão de sons de alturas e valores diferentes, que obedece a um sentido lógico musical (LACERDA, 1966, cap. XXV). A definição tem três partes, e cada uma importa.
Sucessão. A melodia acontece no tempo, uma nota depois da outra. É a dimensão horizontal da música, em contraste com os acordes, que empilham sons ao mesmo tempo (LACERDA, 1966, cap. XXV).
Alturas e valores. Não bastam as notas; as durações fazem parte da melodia. Blatter vai além: uma melodia é uma combinação de alturas, durações, dinâmica e articulação, e é essa combinação que dá sentido às palavras ou sugere imagens e emoções (BLATTER, 2007, parte 2, art. 9).
Sentido lógico. A sucessão tem de fazer sentido como música. É a parte mais difícil de definir, e o resto do tópico é sobre ela.
O ritmo é metade da melodia
Estas são as mesmas seis notas, na mesma ordem, com dois ritmos diferentes:
Quem ouve as duas não reconhece a mesma melodia. A primeira anda em passos iguais e pousa; a segunda tropeça no começo e se estica no fim. As alturas dizem por onde a melodia passa; o ritmo diz como ela anda, e o ouvido guarda as duas coisas juntas.
Passos e saltos
Entre uma nota e a seguinte, a melodia pode andar de dois jeitos. Pode ir para a nota vizinha da escala, por graus conjuntos, ou pular uma ou mais notas, por graus disjuntos (MED, 1996, cap. XV):
O primeiro compasso sobe por graus conjuntos; o segundo desce por saltos de terça. Os passos dão continuidade, a sensação de uma linha que se desenrola; os saltos dão impulso e chamam a atenção. A maior parte das melodias cantáveis anda sobretudo por passos e usa os saltos com cuidado, e é comum que depois de um salto grande a melodia volte por passos na direção contrária, como quem recupera o equilíbrio.
Pontos de chegada
Uma característica importante da melodia, diz Blatter, são os seus objetivos tonais. Uma melodia não é só uma série de alturas: é uma série ordenada de modo a levar o ouvido a certos centros (BLATTER, 2007, parte 2, art. 9).
Toda melodia tem pelo menos um começo e um fim. Entre os dois, pode haver uma ou mais paradas, objetivos provisórios que conduzem, afinal, ao objetivo final (BLATTER, 2007, parte 2, art. 9). Nesses pontos a melodia hesita, o movimento se interrompe por um instante. Esses pontos de repouso relativo são as cadências, e o trecho de melodia que termina numa cadência é uma frase (BLATTER, 2007, parte 2, art. 9).
Uma cadência pode soar incompleta, pedindo continuação, ou completa, soando como fim. O objetivo intermediário mais provável é a dominante; a nota final é quase sempre a tônica (BLATTER, 2007, parte 2, art. 9).
Uma canção infantil por dentro
Blatter examina uma melodia muito simples, "Row, Row, Row Your Boat", uma canção infantil de língua inglesa (BLATTER, 2007, parte 2, art. 9). Aqui ela está em dó maior:
Seguindo a leitura dele:
- O começo. A melodia começa na tônica, um lugar que o ouvido reconhece como estável, uma casa. Não é obrigatório, mas é claro.
- A subida. Daí ela percorre as primeiras notas da escala, com um ritmo ditado pelo ritmo das palavras: as sílabas acentuadas caem nos tempos fortes.
- O primeiro objetivo. A subida para no sol, a dominante, no meio da canção. Se a música parasse ali, soaria incompleta. É uma meia cadência, o fim da primeira frase.
- A volta. A melodia recomeça na tônica aguda e salta para baixo, pela dominante e pela mediante, até a tônica grave.
- O fim. A última frase desce por graus conjuntos da dominante à tônica, com as notas estáveis, dominante, mediante e tônica, nos tempos acentuados, e as mais instáveis, subdominante e supertônica, nos fracos. É uma cadência completa.
O desenho, sair de um centro estável, ir para um ponto menos estável e voltar, aparece em muitas melodias, inclusive muito mais sofisticadas (BLATTER, 2007, parte 2, art. 9).
Tendências não são receitas
Algumas notas da escala pedem movimento: a sensível puxa para a tônica, a supertônica tende a descer para ela. Blatter faz questão de avisar que essas tendências não são uma prescrição para escrever melodias. Melodias bem-sucedidas não precisam seguir os caminhos óbvios (BLATTER, 2007, parte 2, art. 9).
É justamente quando a melodia faz o que o ouvido espera, mas não exatamente como ele espera, que ela ganha interesse. Uma melodia que só cumpre as tendências é previsível; uma que as ignora todas perde o chão. As boas ficam no meio.
O que vem depois
Uma melodia se constrói de peças menores: o motivo, a ideia curta que se repete e se transforma, e a frase, que termina numa cadência. E, quando há palavras, o ritmo da melodia e o ritmo da língua precisam se entender.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 2, art. 9
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXV
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XV