Escala cromática

Doze semitons seguidos, todas as notas entre um som e a sua oitava. Aqui você aprende por que para Lacerda existe uma escala cromática só, sem tonalidade, e para Med existem várias, cada uma presa a um tom; a regra prática de escrever sustenidos subindo e bemóis descendo, o que muda quando há armadura, e por que a grafia importa se o som é o mesmo.

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Toque todas as teclas do piano em seguida, brancas e pretas, de um dó até o dó seguinte. Cada tecla está a um semitom da anterior, e em doze passos iguais a oitava se fecha. Essa é a escala cromática:

Ela é a sucessão de doze semitons consecutivos, a oitava dividida em doze semitons (MED, 1996, cap. XXXI). A décima terceira nota repete a primeira, e por isso se diz que a escala tem doze notas diferentes. É a escala que usa todos os sons possíveis entre uma nota e a sua oitava, no sistema temperado.

Notas diatônicas e notas cromáticas

Das doze notas, sete são diatônicas, as da escala de onde se parte, e cinco são cromáticas, as que se põem entre elas. Do mesmo modo, os doze semitons se dividem em sete diatônicos, entre notas de nomes diferentes, e cinco cromáticos, entre notas de mesmo nome (MED, 1996, cap. XXXI).

A palavra vem do grego chroma, cor. Med explica a imagem: as notas diatônicas são a base da tonalidade, e as cromáticas são elementos de coloração (MED, 1996, cap. XXXI). Uma melodia em dó maior que passa por um fá sustenido não mudou de tonalidade; ganhou uma cor.

Uma escala só, ou muitas?

Aqui os livros se separam, e a divergência ensina bastante.

Para Lacerda, a escala cromática, ao contrário das diatônicas, não dá origem a tonalidade nenhuma. Não existe uma escala cromática "de mi" ou "de lá bemol": ela é uma só, subindo ou descendo, e começa e termina em qualquer nota (LACERDA, 1966, cap. XXVII). De fato, as doze teclas são sempre as mesmas, comece-se onde se começar.

Para Med, no sistema temperado existe aparentemente uma só escala cromática, mas combinando as notas cromáticas de maneiras diferentes forma-se um grande número de escalas, que diferem na escrita e têm, cada uma, uma interpretação harmônica própria (MED, 1996, cap. XXXI). O som das doze teclas é o mesmo; o nome de cada tecla muda conforme a tonalidade em que a escala está.

Os dois estão certos sobre coisas diferentes. Lacerda fala do som, que é um só. Med fala da escrita, e a escrita diz de onde cada nota cromática vem.

A regra prática: sustenidos subindo, bemóis descendo

A grafia mais usada é a de Lacerda. Sem armadura, a escala ascendente sustenta as notas naturais, e a descendente as bemoliza (LACERDA, 1966, cap. XXVII). Blatter dá a mesma regra (BLATTER, 2007, parte 2, art. 8). Subindo, como acima; descendo:

A lógica é a da direção. Um sustenido sugere uma nota que quer subir, um bemol, uma nota que quer descer, e a escrita acompanha o movimento da linha.

Com armadura

Quando há armadura, a regra continua a mesma na ideia: subindo, cada nota sobe um semitom cromático; descendo, desce. Mas o sinal depende do que a armadura já pôs na nota (LACERDA, 1966, cap. XXVII):

Nota na armaduraSubindo viraDescendo vira
naturalsustenidobemol
com sustenidodobrado sustenidonatural
com bemolnaturaldobrado bemol

Blatter resume a questão dizendo que as convenções são as mesmas, mas a armadura tem prioridade (BLATTER, 2007, parte 2, art. 8). Uma escala cromática ascendente em mi bemol maior:

O mi bemol da armadura sobe para mi natural, o fá natural sobe para fá sustenido, e assim por diante. Entre sol e lá bemol, e entre ré e mi bemol, não há nota a pôr: já são semitons.

As escalas cromáticas de Med

Med descreve várias maneiras de escrever a escala cromática de uma tonalidade (MED, 1996, cap. XXXI). As duas mais úteis de conhecer são estas.

A escala cromática clássica. As notas cromáticas têm de pertencer aos tons vizinhos da tonalidade. Em dó maior, subindo, elevam-se todos os graus, menos o sexto, e abaixa-se o sétimo: em vez de lá sustenido, si bemol, que é o quarto grau de fá maior. Descendo, abaixam-se todos, menos o quinto, e eleva-se o quarto: em vez de sol bemol, fá sustenido, a sensível de sol maior (MED, 1996, cap. XXXI).

As exceções caem justamente sobre fá e si, as duas notas cuja combinação costuma dar origem a exceções, e têm uma razão harmônica: si bemol e fá sustenido são notas que a tonalidade de dó maior de fato usa quando se aproxima de fá maior ou de sol maior.

A escala cromática atual. As notas cromáticas não precisam pertencer aos tons vizinhos. Subindo, elevam-se todos os graus; descendo, abaixam-se todos (MED, 1996, cap. XXXI). É, na prática, a regra de Lacerda e de Blatter, vista a partir de uma tonalidade.

Med registra ainda uma escala cromática enarmônica, que oferece as duas grafias para cada nota cromática, surgida no século XX, e uma escala cromática atonal, sem armadura nem tonalidade, que não usa mi sustenido, fá bemol, si sustenido nem dó bemol (MED, 1996, cap. XXXI).

Por que a grafia importa

No piano, dó sustenido e ré bemol são a mesma tecla, e escrever uma ou outra parece questão de gosto. Não é. A grafia diz para onde a nota vai: um dó sustenido quer subir para ré, um ré bemol quer descer para dó. Diz também de que tonalidade a cor vem. E, para quem canta ou toca um instrumento de afinação livre, as duas notas nem são exatamente a mesma altura.

O que vem depois

A escala cromática é o caso extremo das escalas simétricas: um único intervalo repetido, uma única transposição. E as suas notas, usadas com critério, são o material dos acordes cromáticos e das dominantes secundárias, que emprestam cor de tonalidades vizinhas sem sair da tonalidade.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 2, art. 8
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXVII
  3. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXXI