Anacruse

Nem toda música começa no primeiro tempo. Aqui você aprende as três maneiras de começar, no tempo forte, antes dele ou depois de uma pausa, a regra que decide quando se escreve só as notas iniciais e quando se escreve um compasso inteiro, o que o último compasso deve à anacruse, por que as palavras quase sempre pedem uma, e as terminações masculina e feminina.

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Cante "Parabéns pra você" batendo o pé no tempo forte. O pé não desce no "Pa", nem no "ra". Desce no "béns". As duas primeiras sílabas vêm antes do primeiro tempo forte, e a música, na verdade, começou antes do seu primeiro compasso:

Essas notas que chegam antes do primeiro tempo forte são a anacruse.

Três maneiras de começar

Nem sempre a música começa no primeiro tempo; ela pode começar em qualquer parte do compasso (LACERDA, 1966, cap. IX). Med dá nome às três possibilidades (MED, 1996, cap. XXII).

Ritmo tético. Começa no primeiro tempo do compasso, no tempo forte. O nome vem do grego thesis, o tempo de baixo, o pé firme no chão na dança:

Ritmo anacrústico, ou protético. As notas iniciais precedem o início do compasso, como em "Parabéns pra você":

Ritmo acéfalo, ou decapitado. O começo do primeiro compasso é ocupado por uma pausa, e a música entra depois dela, num tempo fraco. Acéfalo quer dizer sem cabeça:

A palavra anacruse também vem do grego: anakrousis designava as sílabas que, no início de certos versos, vinham antes da sílaba acentuada (MED, 1996, cap. XXII). É exatamente o que a música faz.

Anacruse ou acéfalo: a regra da metade

O anacrústico e o acéfalo se parecem, e a diferença está na escrita. Lacerda dá a regra (LACERDA, 1966, cap. IX):

  • quando as primeiras notas ocupam mais da metade de um compasso binário ou quaternário, ou mais de dois terços de um ternário, escreve-se o compasso inteiro, começando com pausas. É o ritmo acéfalo;
  • quando ocupam menos que isso, escrevem-se só as notas, sem completar o compasso. É a anacruse.

Med dá a mesma divisão, com os mesmos limites (MED, 1996, cap. XXII). No exemplo acéfalo acima, as notas ocupam três dos quatro tempos, mais da metade, e o compasso vem inteiro, com a pausa. No anacrústico, a nota ocupa um tempo só, e aparece sozinha antes da primeira barra.

Na prática, a anacruse costuma ser curta. Blatter observa que ela tem, em geral, só um ou dois tempos, correspondendo ao último tempo, ou aos dois últimos, de um compasso (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4).

Uma consequência da regra: não se escrevem pausas antes de uma anacruse (MED, 1996, cap. XXII). Se a música começa no último tempo, a partitura começa no último tempo. Encher o começo com pausas transformaria a anacruse num compasso acéfalo que ela não é.

O último compasso paga a conta

Se o primeiro compasso é incompleto, o costume é deixar também o último incompleto, de modo que os dois, somados, deem um compasso inteiro (LACERDA, 1966, cap. IX). Em "Parabéns pra você", a anacruse tem um tempo e o último compasso tem dois: somados, os três tempos de um compasso ternário.

Blatter confirma o costume e acrescenta que há muitas exceções (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4). Med diz a mesma coisa com um "ou não": a anacruse se ajusta, ou não, no último compasso (MED, 1996, cap. XXII). A razão do costume é musical: numa canção com várias estrofes, o fim de uma se emenda com a anacruse da seguinte, e a conta dos compassos continua certa.

Na numeração dos compassos, a anacruse não conta como compasso 1. Ela pertence ao compasso "número zero" (MED, 1996, cap. XXII), e o primeiro compasso completo é o número 1.

As palavras pedem anacruse

Med lembra que os acentos das palavras devem coincidir com os acentos métricos (MED, 1996, cap. XXII). É isso que torna a anacruse tão comum nas canções.

Em português, muitas palavras começam com sílabas átonas: "a-mor", "can-ção", "sau-da-de". Para que a sílaba forte caia no tempo forte, as fracas que vêm antes precisam cair antes dele, e a frase começa em anacruse. "Pa-ra-béns" é o mesmo caso: duas sílabas átonas, e a tônica no primeiro tempo.

A ideia vale também dentro da música. No sentido mais amplo, anacruse é qualquer grupo de notas que antecede um ponto de chegada: uma mudança de tonalidade, de ritmo, de andamento (MED, 1996, cap. XXII). Muitas frases dentro de uma peça começam com a sua própria anacruse, mesmo que a peça tenha começado no tempo forte.

Terminação masculina e feminina

O começo tem três formas; o fim tem duas (MED, 1996, cap. XXII).

A terminação masculina, também chamada truncada, acaba no tempo forte do compasso:

A terminação feminina, ou plana, acaba num tempo fraco:

A masculina soa firme, conclusiva; a feminina, mais suave, como uma frase que termina numa sílaba átona. E, como qualquer começo pode se combinar com qualquer fim, Med conta seis combinações: tético, anacrústico ou acéfalo, cada um com terminação masculina ou feminina (MED, 1996, cap. XXII).

O que vem depois

A anacruse mostra que a métrica não começa no papel, e sim no ouvido: o primeiro tempo forte é onde a música se apoia, esteja onde estiver a primeira nota. O próximo passo na organização do tempo são as divisões irregulares, as quiálteras, que encaixam três notas onde caberiam duas.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 1, art. 4
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. IX
  3. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXII