Transposição com mudança de clave

Transpor sem reescrever nada: a nota fica no mesmo lugar da pauta e, lida em outra clave, ganha o nome que precisa ter. Aqui você aprende a diferença entre transposição escrita e lida, como achar a clave certa para cada intervalo, por que sete claves dão conta de todas as transposições, o que fazer com a armadura e com os acidentes ocorrentes, e onde essa técnica ainda é usada.

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Transpor uma música, na forma mais conhecida, é passar cada nota um mesmo intervalo para cima ou para baixo, uma por uma. Funciona, mas é lento. Existe outro jeito, mais antigo, que não move nota nenhuma: deixa cada nota onde está na pauta e troca, na cabeça, a clave. Com outra clave, as mesmas posições têm outros nomes, e a música sai transposta.

Escrita ou lida, com ou sem clave

Lacerda organiza a transposição em dois pares (LACERDA, 1966, cap. XXXIX). A transposição escrita é feita no papel, e não oferece grande dificuldade, porque quem transpõe tem tempo para evitar e corrigir os erros. A transposição lida é feita lendo a música, ao mesmo tempo que se toca ou canta; tem de ser instantânea e depende de muita prática.

As duas podem ser feitas sem mudança de clave, passando cada nota o intervalo pedido, ou com mudança de clave, substituindo mentalmente a clave da música por outra, escolhida conforme o intervalo da transposição (LACERDA, 1966, cap. XXXIX).

Sem mudança de claveCom mudança de clave
Escritacada nota é reescrita o intervalo acima ou abaixolê-se na clave nova e escreve-se na antiga
Lidacada nota é calculada enquanto se tocalê-se direto na clave nova

A mudança de clave é a ferramenta da transposição lida. Na escrita, ela serve só de apoio: lê-se a nota na clave nova e escreve-se o resultado na clave original (LACERDA, 1966, cap. XXXIX).

A nota fica, o nome muda

Pegue a nota do segundo espaço da pauta em clave de sol. É um lá. Agora imagine, no lugar da clave de sol, a clave de dó na terceira linha. A nota não saiu do lugar, mas o segundo espaço dessa clave é si:

Lá virou si: a nota subiu uma segunda, sem ninguém tocar nela. Se todas as notas de um trecho forem lidas assim, o trecho inteiro sobe uma segunda.

Como achar a clave

Lacerda dá um procedimento de três passos (LACERDA, 1966, cap. XXXIX):

  1. escolha uma nota qualquer do trecho original;
  2. sem mudar a nota de lugar na pauta, dê a ela mentalmente o nome que deve ter depois da transposição;
  3. procure a clave que dá esse nome àquela posição.

É o raciocínio do exemplo acima, de trás para a frente. Para transpor um tom acima, o lá do segundo espaço tem de virar si, e a clave que chama o segundo espaço de si é a de dó na terceira linha.

Sete claves, sete transposições

Fazendo a mesma conta para cada clave do setticlavio, a partir da clave de sol, aparece uma coisa elegante: cada clave desloca os nomes das notas por um intervalo diferente.

ClaveO lá do 2º espaço viraA leitura transpõe
de dó na 3ª linhasiuma segunda acima
de fá na 4ª linhauma terça acima
de dó na 2ª linhauma quarta acima
de fá na 3ª linhamiuma quinta acima
de dó na 1ª linhauma sexta acima
de dó na 4ª linhasoluma sétima acima

Como uma sétima acima dá o mesmo nome que uma segunda abaixo, uma sexta acima o mesmo que uma terça abaixo, e assim por diante, cada clave serve também para o intervalo complementar descendo. As sete claves cobrem os sete nomes de nota, e por isso bastam para qualquer transposição. É uma das razões pelas quais os músicos continuaram a estudá-las depois que a maioria saiu de uso.

A clave dá o nome da nota, não a oitava. A leitura numa clave nova pode sair uma oitava acima ou abaixo do que se queria, e quem transpõe corrige a oitava de ouvido (MED, 1996, cap. XXVII).

Primeiro, a armadura

Antes de ler uma nota, é preciso armar a clave com a armadura da nova tonalidade (LACERDA, 1966, cap. XXXIX). A clave acerta a letra; a armadura acerta os sustenidos e bemóis.

O exemplo de Lacerda: um trecho em sol maior deve ser transposto para fá maior, um tom abaixo. A clave de dó na quarta linha chama cada posição por uma letra abaixo, e a armadura de fá maior põe o bemol no si (LACERDA, 1966, cap. XXXIX). Um trecho em sol maior:

As mesmas posições, lidas em clave de dó na quarta linha com a armadura de fá maior:

E o resultado escrito, de volta na clave de sol:

Os acidentes ocorrentes

A armadura resolve as notas da escala. Mas, se o trecho tem acidentes ocorrentes, eles também têm de aparecer na transposição (LACERDA, 1966, cap. XL).

Sem mudança de clave, basta aplicar a esses acidentes o mesmo intervalo das outras notas (LACERDA, 1966, cap. XL). Com mudança de clave, a clave muda a letra mas copia o sinal, e o sinal copiado nem sempre é o certo. Lacerda dá uma regra para saber quais notas mudam de acidente (LACERDA, 1966, cap. XL):

  1. aplique a dó maior a transposição pedida; as notas que vão mudar de acidente são as que estão na armadura da tonalidade encontrada;
  2. essas notas, quando lidas com acidente ocorrente, sobem um semitom cromático se a armadura for de sustenidos, e descem um semitom cromático se for de bemóis. As outras notas com acidente ocorrente conservam o sinal.

O exemplo dele: de sol maior para lá maior, um tom acima, com a clave de dó na terceira linha. Dó maior um tom acima dá ré maior, cuja armadura tem fá sustenido e dó sustenido. Então, lendo o trecho na clave nova, todo fá e todo dó com acidente ocorrente sobe um semitom cromático (LACERDA, 1966, cap. XL).

Um trecho em sol maior com dois acidentes ocorrentes, um si bemol e um dó sustenido:

Transposto para lá maior:

O si bemol, lido na clave de dó na terceira linha, cai na posição de dó e traz o bemol junto. Dó é uma das notas da regra, então o bemol sobe um semitom cromático e vira bequadro: dó natural. O dó sustenido cai na posição de ré; ré não está na regra, e o sustenido fica: ré sustenido. Conferindo pelos graus, a terça abaixada de sol maior virou a terça abaixada de lá maior, e a quarta elevada virou a quarta elevada. É o que Med pede de toda transposição: que cada nota conserve a sua função (MED, 1996, cap. XXVII).

Para tonalidades menores, a regra é a mesma, raciocinando ainda em maior. De ré menor para fá sustenido menor, uma terça maior acima: dó maior uma terça maior acima dá mi maior, e as notas da regra são fá, dó, sol e ré (LACERDA, 1966, cap. XL).

Onde isso ainda se usa

Med registra que a transposição lida fazia mais sentido quando todas as claves eram de uso comum, e que hoje se prefere a transposição escrita (MED, 1996, cap. XXVII). Com programas de edição de partitura, que transpõem um trecho com um clique, a escrita ficou ainda mais fácil.

Mesmo assim, a técnica continua viva onde é preciso transpor na hora. Pianistas acompanhadores a usam quando o cantor pede a canção um tom abaixo. E regentes a usam para ler, na partitura de orquestra, as partes dos instrumentos transpositores: a parte do clarinete em si bemol, que soa uma segunda maior abaixo do escrito, lida em clave de dó na quarta linha, dá os nomes reais das notas; a da trompa em fá, que soa uma quinta abaixo, lida em clave de dó na segunda linha.

O que vem depois

A transposição com mudança de clave junta duas coisas já conhecidas, a clave e o intervalo. O passo seguinte é olhar de perto os instrumentos que vivem transpostos, e por que a parte deles se escreve numa altura e soa em outra.

Referências

  1. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXXIX, XL
  2. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXVII