Transposição dos modos

Ré dórico nas teclas brancas é só o modelo. Aqui você aprende a escrever qualquer modo em qualquer nota, pelo caminho mais rápido, o de achar a escala maior em que ele mora, e pelo outro, o de alterar uma nota da escala de mesma tônica; a responder às três perguntas que costumam aparecer, dada a nota, dado o intervalo e dada a armadura; e por que os dois caminhos dão o mesmo som com armaduras diferentes.

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Os modos litúrgicos costumam ser apresentados nas teclas brancas: dórico de ré a ré, frígio de mi a mi, lídio de fá a fá. É o jeito mais simples de mostrá-los, porque nenhum precisa de acidente. Mas é só o modelo. Assim como a escala maior pode começar em qualquer nota, natural ou alterada, os outros modos também podem, desde que se respeite a posição dos tons e semitons que é própria de cada um (LACERDA, 1966, cap. XXXV).

Transpor um modo é escrever o mesmo modo em outra altura (MED, 1996, cap. XXIX). O desenho de tons e semitons fica; a nota de partida muda. Ré dórico e dó dórico são o mesmo modo, com uma segunda maior de distância:

A dificuldade é saber quais acidentes pôr. Existem vários procedimentos, e Med recomenda um como o mais simples e rápido (MED, 1996, cap. XXIX).

Cada modo mora num grau da escala maior

Na escala de dó maior, cada nota é a final de um dos modos: o dórico começa no segundo grau, o frígio no terceiro, o lídio no quarto, o mixolídio no quinto (MED, 1996, cap. XXIX). O jônio é a própria escala maior, e o eólio, que começa no sexto grau, é a escala menor natural.

ModoComeça no grau da escala maior
jônioI
dóricoII
frígioIII
lídioIV
mixolídioV
eólioVI
lócrioVII

Isso não vale só para dó maior. Toda escala maior tem as mesmas relações, então o dórico pode ser encontrado em qualquer escala maior, tomando o segundo grau como final (MED, 1996, cap. XXIX). Transpor um modo vira, portanto, uma pergunta sobre escalas maiores, que já se sabe responder: de qual escala maior esta nota é o grau certo?

Dada a primeira nota

O caso mais comum. Formar o modo dórico começando em lá.

O dórico começa no segundo grau. Lá é o segundo grau de sol maior. Então lá dórico usa as notas de sol maior, de lá a lá, com a armadura de sol maior (MED, 1996, cap. XXIX):

Para conferir, basta olhar o que define o dórico: terça menor entre a final e o terceiro grau, e o intervalo característico, a sexta maior, entre a final e o sexto grau. Lá–dó é terça menor; lá–fá sustenido é sexta maior. O modo chegou inteiro.

Dado o intervalo de transposição

Transportar o modo frígio uma segunda maior acima.

O frígio modelo começa em mi, e uma segunda maior acima de mi está fá sustenido. O frígio começa no terceiro grau, e fá sustenido é o terceiro grau de ré maior. Então fá sustenido frígio usa as notas de ré maior (MED, 1996, cap. XXIX):

A conferência: terça menor de fá sustenido para lá, e a segunda menor característica do frígio, de fá sustenido para sol.

Dada a armadura

Formar o modo lídio com cinco sustenidos.

Cinco sustenidos é a armadura de si maior. O lídio começa no quarto grau, e o quarto grau de si maior é mi. Então o lídio com cinco sustenidos é mi lídio (MED, 1996, cap. XXIX):

Terça maior de mi para sol sustenido, e a quarta aumentada característica do lídio, de mi para lá sustenido.

As três perguntas são a mesma conta feita a partir de pontos diferentes: nota de partida, grau do modo, escala maior. Dadas duas dessas coisas, a terceira sai.

O outro caminho: alterar a escala de mesma tônica

Há um segundo procedimento, que parte de outra ideia. Cada modo, com exceção do jônio e do eólio, difere da escala maior ou menor de mesma tônica em uma nota só, a do seu intervalo característico. Para formar o modo, escreve-se a escala do mesmo tipo, menor para o dórico e o frígio, maior para o lídio e o mixolídio, e introduz-se nela o intervalo característico (MED, 1996, cap. XXIX).

Formar o modo dórico em fá. O dórico é um modo do tipo menor, então parte-se de fá menor natural, com quatro bemóis, e eleva-se o sexto grau, de ré bemol para ré, para ter a sexta maior:

Pelo primeiro caminho, fá é o segundo grau de mi bemol maior, e fá dórico se escreve com três bemóis, sem nenhum acidente na pauta:

As notas são as mesmas, e o som também. Só a escrita muda (MED, 1996, cap. XXIX). Med observa ainda que o acidente usado para alterar a escala mexe só no fim da armadura: ou acrescenta mais um acidente, ou anula o último dela (MED, 1996, cap. XXIX). Aqui, o bequadro no ré anula o quarto bemol de fá menor, e o que sobra são os três bemóis de mi bemol maior.

E há um limite: não se chega a um modo de tipo maior alterando uma escala menor, nem o contrário (MED, 1996, cap. XXIX). A terça não muda nesse processo, e é a terça que decide o tipo.

Qual armadura usar

Os dois caminhos são corretos, e cada escrita mostra uma coisa.

  • A armadura da escala maior de onde o modo vem deixa a pauta limpa. É a mais fácil de ler e de tocar, porque a armadura já traz todas as notas.
  • A armadura da tonalidade de mesma tônica, com o acidente na nota característica, deixa à vista o que faz o modo ser o que é. Quem lê fá dórico com quatro bemóis e um ré natural vê na hora que aquilo é "fá menor com sexta maior".

Na prática aparecem as duas. Uma partitura de fá dórico com três bemóis não está em mi bemol maior, e uma com quatro bemóis e ré natural não está com um acidente errado. Nos dois casos, o que diz o modo é a final, a nota que a música trata como centro.

O que vem depois

Transpor um modo é transpor uma escala, com um passo a mais: lembrar em que grau ele mora. O mesmo raciocínio serve para ler a transposição por troca de clave, em que as notas não mudam de lugar na pauta e mudam de nome.

Referências

  1. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXXV
  2. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXIX