Instrumentos transpositores
O clarinetista lê dó e o piano ouve si bemol. Aqui você aprende por que alguns instrumentos soam diferente do que está escrito, a regra que diz como cada um soa, como escrever a parte de um deles e como ler a parte deles no piano, por que flautim e contrabaixo não contam como transpositores, o que é a transposição dupla, e as escolhas de armadura que ainda dividem as partituras.
Um pianista e um clarinetista leem juntos a mesma nota escrita, um dó. O pianista toca dó. O clarinetista, com o dedilhado de dó, também toca o que para ele é dó. Mas o que se ouve da clarineta é um si bemol, um tom abaixo do piano.
Ninguém errou. A clarineta mais comum é um instrumento transpositor: a nota que ela soa não é a nota escrita na sua parte (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice V).
Por que existem
Os instrumentos transpositores são, na maioria, instrumentos de sopro construídos em tamanhos diferentes. Mudando o comprimento do tubo, a mesma posição dos dedos produz outra altura. Por razões práticas, a nota conserva o nome ligado ao dedilhado, mesmo que o som real não coincida com ele (MED, 1996, cap. LVII).
A vantagem é para quem toca. Um saxofonista que passa do saxofone alto para o tenor não precisa reaprender a ler: a mesma nota escrita pede o mesmo dedilhado nos dois, e cada instrumento soa na sua altura. O trabalho de transpor fica com quem escreve a parte.
O resto dos instrumentos, a grande maioria, é em dó: soa na altura escrita. Por isso ninguém diz "piano em dó" ou "violino em dó" (MED, 1996, cap. LVII). A altura real, a do piano, é chamada de som real, som de efeito ou, em inglês, concert pitch (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice V).
A regra do nome
Um instrumento transpositor é chamado pela nota em que é afinado: clarineta em si bemol, trompa em fá, flauta em sol. E o nome diz exatamente como ele soa. A regra geral de Med é curta: o dó escrito soa como o instrumento se chama (MED, 1996, cap. LVII).
Um dó escrito na parte de quatro instrumentos, e o que cada um faz soar:
No violino, em dó, soa dó. Na clarineta em si bemol, soa o si bemol abaixo. Na trompa em fá, o fá uma quinta abaixo. No saxofone alto em mi bemol, o mi bemol uma sexta maior abaixo.
A regra dá a nota, mas não a oitava; cada instrumento tem a sua distância própria. Os mais comuns:
| Instrumento | O dó escrito soa | Distância |
|---|---|---|
| clarineta, trompete, saxofone soprano em si bemol | si bemol | segunda maior abaixo |
| clarineta em lá | lá | terça menor abaixo |
| flauta em sol (flauta contralto) | sol | quarta justa abaixo |
| trompa em fá, corne-inglês | fá | quinta justa abaixo |
| saxofone alto em mi bemol | mi bemol | sexta maior abaixo |
| saxofone tenor, clarone em si bemol | si bemol | nona maior abaixo |
| trompete em ré | ré | segunda maior acima |
Blatter dá a mesma lista dos mais conhecidos, e lembra que o saxofone tenor e o clarone, embora também em si bemol, soam uma nona abaixo, e não uma segunda (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice V).
Med observa também que "clarineta em si bemol" não quer dizer que a música esteja em si bemol, nem que a parte tenha dois bemóis na armadura (MED, 1996, cap. LVII). O nome fala do instrumento, não da peça.
Transpor de oitava não conta
Alguns instrumentos também são escritos numa altura diferente da real, mas só por uma oitava, para evitar linhas suplementares demais. O flautim é escrito uma oitava abaixo do que soa; o contrabaixo e o violão, uma oitava acima. Como a oitava não muda o nome das notas nem a tonalidade, esses instrumentos não são classificados como transpositores (MED, 1996, cap. LVII).
Escrever a parte
Para que a clarineta em si bemol soe um trecho em sol maior, a parte dela precisa ser escrita um tom acima, para compensar o tom que o instrumento desce. Um tom acima de sol maior é lá maior, então a parte vai com a armadura de lá maior, três sustenidos, e cada nota sobe um tom (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice V).
O que se quer ouvir, em som real:
O que se escreve na parte da clarineta em si bemol:
Com isso vem uma regra prática para a armadura. A parte de um instrumento em si bemol tem sempre dois sustenidos a mais, ou dois bemóis a menos, que a música em som real. A de um instrumento em fá, um sustenido a mais. A de um em mi bemol, três sustenidos a mais. A de um em lá, três bemóis a mais.
Med resume o paradoxo: para quem ouve, escrever para um instrumento transpositor não é transpor nada, é só transcrever a mesma melodia na mesma altura. A transposição acontece na escrita (MED, 1996, cap. LVII).
Ler a parte no piano
O caminho inverso aparece quando um pianista precisa tocar uma parte de clarineta, ou quando um regente lê a partitura. Para passar da nota escrita ao som real, desce-se a distância do instrumento: um tom para o si bemol, uma quinta para a trompa.
Quando o intervalo é grande ou incômodo, Blatter sugere pensar por graus. Uma parte de flauta em sol escrita em ré maior soa em lá maior, e cada nota conserva o seu grau: o que era tônica em ré continua tônica em lá, o que era dominante continua dominante (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice V). Em vez de descer uma quarta nota a nota, lê-se "primeiro grau, sétimo, quarto" e toca-se esses graus em lá.
Há ainda o recurso das claves, que Blatter também descreve: ler uma parte de si bemol trocando mentalmente a clave de sol pela de dó na quarta linha, e corrigindo armadura e oitava (BLATTER, 2007, parte 6, apêndice V). Os programas de edição de partitura fazem essa conta sozinhos; ler de primeira ainda exige saber fazê-la.
Transposição dupla
Às vezes a parte está escrita para um instrumento que o músico não tem. As trompas do período clássico eram trocadas conforme o tom da peça, e uma parte de Mozart pode estar escrita para trompa em sol; o trompista de hoje toca uma trompa em fá. Então ele transpõe mais uma vez, de sol para fá: lê dó, toca ré, e soa sol, que é o som que o compositor queria (MED, 1996, cap. LVII).
O mesmo acontece com o clarinetista que toca uma parte de clarineta em lá num instrumento em si bemol, ou com o trompetista que toca uma parte de trompete em ré num instrumento em si bemol (MED, 1996, cap. LVII). Há casos extremos: numa abertura de Berlioz, Benvenuto Cellini, quatro trompetes aparecem escritos em quatro transposições diferentes (MED, 1996, cap. LVII).
Com ou sem armadura
A parte de um instrumento transpositor pode ser escrita com a armadura da transposição ou com a mesma armadura dos outros instrumentos, pondo as alterações como acidentes ocorrentes (MED, 1996, cap. LVII). As partes de trompa, por tradição, são muitas vezes escritas sem armadura.
E alguns compositores do século XX, para simplificar a leitura das suas partituras, passaram a escrever todos os instrumentos em som real (MED, 1996, cap. LVII). É a chamada partitura em dó: o regente lê as alturas reais, e só as partes individuais continuam transpostas para os músicos.
O que vem depois
Os instrumentos transpositores fecham o assunto da transposição: primeiro a ideia de mover tudo por um intervalo, depois as claves como atalho, e agora os instrumentos que vivem transpostos. Com isso, uma partitura de orquestra fica inteira legível, com cada pauta dizendo o que soa.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 6, apêndice V
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. LVII