Partitura

Todas as partes de uma obra escritas uma sobre a outra, para serem lidas de uma vez. Aqui você aprende o que é uma partitura e o que é uma parte, em que ordem os instrumentos aparecem na partitura de orquestra e por quê, como as chaves e colchetes agrupam as pautas, o que é uma redução, e os termos que só aparecem quando várias pessoas leem a mesma música.

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Um violinista numa orquestra lê a sua linha e mais nada. O regente, diante dele, precisa saber o que o violino, a flauta, a trompa e o tímpano estão fazendo no mesmo instante. Os dois leem a mesma música em papéis diferentes: o violinista lê a parte, o regente lê a partitura.

Partitura e parte

A partitura é a sobreposição de várias pautas, uma para cada instrumento ou voz, dispostas uma abaixo da outra de maneira que se veja perfeitamente o que se toca no mesmo compasso e no mesmo tempo (MED, 1996, cap. XXXVII). Em inglês, full score; entre músicos brasileiros, também grade.

A parte é um extrato da partitura com as notas de um só integrante do conjunto, como a parte do primeiro violino (MED, 1996, cap. XXXVII).

A diferença é de função. A parte é feita para tocar: tem só o necessário, e as viradas de página caem onde o músico tem pausa. A partitura é feita para ver o todo: quem rege, quem estuda a obra, quem a analisa.

Duas pautas de uma partitura, uma melodia de violino sobre uma linha de violoncelo. O que está no mesmo compasso soa junto:

Na partitura, as duas ficariam presas pela mesma barra de compasso, e cada tempo de uma cairia exatamente sobre o mesmo tempo da outra.

A ordem dos instrumentos

Numa partitura de orquestra, os instrumentos não aparecem em ordem qualquer. A partitura sinfônica que Lacerda reproduz segue a ordem tradicional (LACERDA, 1966, cap. XLII), de cima para baixo:

GrupoInstrumentos
madeirasflautim, flautas, oboés, corne-inglês, clarinetas, fagotes, contrafagote
metaistrompas, trompetes, trombones, tuba
percussãotímpanos, triângulo, pratos, bumbo
teclado e harpaharpa, piano
cordasprimeiros violinos, segundos violinos, violas, violoncelos, contrabaixos

Duas regras organizam o quadro. Os grupos vêm por família: sopros em cima, cordas embaixo, percussão no meio. E, dentro de cada família, do instrumento mais agudo para o mais grave: o flautim acima das flautas, o contrabaixo no fim.

Há uma exceção famosa, e ela aparece no próprio quadro de Lacerda: as trompas vêm acima dos trompetes, embora sejam mais graves. É uma herança da orquestra do século XVIII, em que as trompas faziam parte do grupo das madeiras, sustentando notas longas com elas, enquanto os trompetes tocavam junto com os tímpanos.

Conhecer a ordem é o que permite achar um instrumento numa página cheia sem ler os nomes. Quem procura a viola sabe que ela está logo acima dos violoncelos, perto do fim; quem procura o oboé sabe que ele está entre as primeiras pautas.

Pautas agrupadas

A partitura junta pautas de dois jeitos.

  • Um colchete, um traço grosso à esquerda, agrupa instrumentos de uma mesma família: as madeiras, os metais, as cordas.
  • Uma chave, a chave curva, junta as pautas de um mesmo instrumento que precisa de mais de uma. É a do piano e a da harpa, que usam duas pautas, clave de sol e clave de fá.

Instrumentos iguais podem dividir uma pauta. Na partitura de Lacerda, as duas flautas estão numa pauta só, e também os dois oboés, as duas clarinetas e os dois fagotes (LACERDA, 1966, cap. XLII). Quando as duas tocam a mesma nota, a partitura escreve a 2; quando tocam notas diferentes, cada uma segue a sua haste.

E, para economizar papel, uma página da partitura muitas vezes traz só os instrumentos que tocam naquela página (MED, 1996, cap. XXXVII). Quem está em pausa longa simplesmente some dali, e volta quando entra.

Palavras que só existem na partitura

Quando várias pessoas leem a mesma música, surgem instruções sobre quem toca o quê. Algumas das mais comuns, com o sentido que Med dá a elas (MED, 1996, cap. XXXVII):

TermoSentido
a 2 (a due)a mesma parte tocada por dois instrumentos
divisi, div.o naipe se divide em grupos, cada um com a sua nota
non divisinão dividir; tocar as notas juntas
col, colla partetocar junto com outro instrumento, ou seguir a voz principal
V. S. (volti subito)virar a página depressa

Redução

Uma orquestra inteira não cabe num piano, mas a sua música, em boa parte, cabe. A redução é a transcrição de uma obra escrita para um conjunto grande para um conjunto menor, ou para piano (MED, 1996, cap. XXXVII).

A redução para piano é o que usa o pianista que ensaia com cantores uma ópera ou um oratório, quando a orquestra ainda não está lá. Nela, as vozes aparecem nas suas pautas e a orquestra é resumida nas duas pautas do piano. Med registra também os nomes italianos ligados à ópera: spartito, a partitura da ópera com a parte vocal e a instrumental, e libretto, o texto (MED, 1996, cap. XXXVII).

Ler uma partitura

Ninguém lê todas as pautas ao mesmo tempo, nota por nota. Quem lê uma partitura aprende a olhar por camadas: primeiro a melodia, depois o baixo, depois o que preenche o meio, e só então os detalhes. Uma boa porta de entrada é seguir uma pauta só enquanto se ouve a gravação, e ir abrindo o olhar para as vizinhas.

Duas coisas atrapalham no começo. Uma é a clave de dó, que as violas usam o tempo todo. A outra são os instrumentos transpositores, como a clarineta e a trompa, cuja pauta mostra notas diferentes das que soam.

O que vem depois

Os instrumentos transpositores são justamente o próximo passo: por que a parte de alguns instrumentos se escreve numa altura e soa em outra, e como ler essas pautas na partitura.

Referências

  1. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XLII
  2. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXXVII