Notação moderna

Microtons, clusters, altura indeterminada e duração em segundos: os sinais que compositores do século XX criaram para sons que a pauta tradicional não sabia escrever. Aqui você aprende o que cada um pede, por que eles variam de um compositor para outro e como ler uma partitura que os usa.

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A notação tradicional parte de algumas certezas. A oitava tem doze notas, e a menor distância entre duas delas é o semitom. Cada nota tem uma altura exata, uma posição na pauta. E o tempo se mede em pulsos: uma semínima dura um tempo, uma mínima dura dois.

No século XX, alguns compositores quiseram sons que escapavam dessas certezas: notas entre as teclas do piano, acordes que são uma mancha de notas vizinhas, alturas que o intérprete escolhe, durações medidas no relógio. Para escrevê-los foi preciso inventar sinais (MED, 1996, cap. LVIII).

Esses sinais não formam um sistema. Med lamenta que a grafia e a interpretação dos sons novos não estejam unificadas no mundo, e que variem de um compositor para outro (MED, 1996, cap. LVIII). Por isso, uma partitura que os usa costuma trazer uma bula, uma página que explica o que cada sinal quer dizer naquela obra. Os exemplos abaixo são os mais frequentes, não os únicos.

Microtons: notas entre os semitons

A música microtonal usa distâncias menores que um semitom: um quarto de tom, um oitavo, um duodécimo (MED, 1996, cap. LVIII). Algumas culturas usam intervalos assim com frequência, como as músicas árabe e indiana. No Ocidente, as experiências vêm de compositores como Ferruccio Busoni, Arnold Schoenberg, Ivan Wyschnegradsky e, sobretudo, o tcheco Alois Hába (MED, 1996, cap. LVIII).

O quarto de tom é o microtom mais comum. Dividindo cada um dos doze semitons da oitava ao meio, chega-se a 24 notas por oitava, um sistema que Med chama de música bicromática (MED, 1996, cap. LVIII). Para escrevê-lo, os acidentes ganham variações. Há vários conjuntos de sinais em uso:

  • acidentes pela metade: um sustenido com uma só barra vertical sobe um quarto de tom, em vez do semitom inteiro; um bemol espelhado desce um quarto de tom;
  • acidentes com setas: um sustenido, um bemol ou um bequadro com uma pequena seta para cima ou para baixo, que ajusta a nota um quarto de tom naquela direção.

Hába foi além e escreveu sextos e duodécimos de tom, com acidentes cortados por traços a mais (MED, 1996, cap. LVIII). A leitura exige ouvido treinado e, muitas vezes, instrumentos feitos para isso.

Nem todo livro de teoria entra nesse terreno. Blatter reconhece que os microtons existem na música de outras culturas e em alguns compositores ocidentais, e os deixa de fora do seu livro (BLATTER, 2007, parte 1, nota 8). É uma escolha comum: o sistema de doze semitons ainda é o chão de quase toda a música que se escreve e se ensina.

Clusters: acordes de segundas

Um acorde tradicional empilha terças: dó, mi, sol. Um cluster, ou bloco sonoro, empilha segundas, notas vizinhas soando juntas. A palavra inglesa quer dizer amontoado, apinhado (MED, 1996, cap. LVIII), e é o que se ouve: uma mancha de som em vez de um acorde com notas distintas.

Compare a tríade de dó maior com um cluster das cinco notas brancas de dó a sol:

No piano, um cluster se toca com a palma da mão ou com o antebraço. Med distingue dois tipos (MED, 1996, cap. LVIII):

TipoNotasComo se escreve
cluster diatônicosó notas naturais, as teclas brancasum bloco vazado entre a nota mais grave e a mais aguda
cluster cromáticonotas naturais e alteradas, brancas e pretasum bloco cheio, preto

Escrever o bloco em vez de cada nota poupa a pauta de uma pilha de cabeças encostadas e diz ao pianista, de relance, onde o cluster começa e onde termina. Na ópera Lulu, de Alban Berg, o piano toca um cluster nas teclas brancas na clave de fá e outro nas teclas pretas na clave de sol (MED, 1996, cap. LVIII).

Alturas que o intérprete escolhe

Alguns sinais deixam a altura exata em aberto e dizem só a região (MED, 1996, cap. LVIII):

  • uma seta para cima saindo da pauta pede a nota mais aguda possível no instrumento, e uma seta para baixo, a mais grave;
  • uma seta inclinada para dentro da pauta pede uma nota no registro médio;
  • uma linha de som, curva e contínua, desenha o contorno que a altura deve seguir, subindo e descendo;
  • uma faixa com o traçado aproximado pede que o intérprete improvise seguindo aquela trajetória.

Alguns compositores foram mais longe e criaram uma grafia inteira para si. Nicolas Obukhov, compositor russo radicado em Paris, escrevia as notas cromáticas da sua música atonal com sinais em forma de cruz, no lugar dos sustenidos e bemóis, uma notação que Med considera muito prática (MED, 1996, cap. LVIII).

O tempo sem compasso

Outro grupo de sinais trata da duração quando não há pulso para contar (MED, 1996, cap. LVIII):

  • uma linha horizontal depois da cabeça da nota mostra quanto ela dura, pelo comprimento, como num gráfico;
  • um número como 0.30, ou 30", indica uma duração aproximada de trinta segundos;
  • vigas que se multiplicam em leque, ou traços verticais cada vez mais juntos, pedem um accelerando; o desenho ao contrário, com as vigas se desfazendo e os traços se afastando, pede um ritardando;
  • uma viga cortada por um traço pede que as notas sejam tocadas o mais rápido possível;
  • uma linha ondulada, uma seta tracejada ou um ziguezague depois de uma figura pedem que o intérprete continue repetindo aquele modelo;
  • uma cunha preta que se alarga ou se estreita pede um crescendo ou um decrescendo, no lugar dos dois traços do sinal tradicional.

A menor duração possível também tem sinal próprio: uma nota com bandeirola cortada por um traço.

Partituras gráficas

No extremo, a pauta dá lugar ao desenho. Campos de pontos sonoros representam poucos sons, quando os pontos estão espalhados, ou muitos, quando estão aglomerados; triângulos, linhas e ondas se juntam a eles e formam uma partitura que se lê como um mapa. Linhas onduladas de larguras diferentes pedem tipos diferentes de vibrato (MED, 1996, cap. LVIII).

Nessas partituras, a bula deixa de ser um apêndice e vira parte da obra: sem ela, não há como saber o que tocar.

Como ler uma partitura assim

  1. Procure a bula, na primeira página ou no prefácio. O mesmo sinal pode significar coisas diferentes em dois compositores.
  2. Separe o que é exato do que é aberto. Uma nota escrita na pauta continua sendo aquela nota; uma seta ou uma faixa pede uma escolha sua.
  3. Leia o tempo em segundos quando for o caso, e só volte a contar pulsos quando a partitura voltar a ter compasso.

Med termina o capítulo recomendando que o estudo continue na notação da música contemporânea (MED, 1996, cap. LVIII), e o conselho é justo: o que foi mostrado aqui são os sinais que aparecem com certa frequência, e cada obra nova pode trazer os seus.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 1, nota 8
  2. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. LVIII