Classificação das vozes

Soprano, meio-soprano, contralto, tenor, barítono e baixo: como as vozes se classificam por tessitura e por timbre, a regra que ajuda a lembrar a tessitura de todas, o registro médio de cada uma, as subdivisões da ópera e as claves em que cada voz se escreve. E por que um livro conta seis vozes adultas e outro, quatro.

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Toda voz tem a sua tessitura, mas as vozes não são todas diferentes umas das outras. Elas se agrupam em tipos, e o nome de cada tipo diz ao compositor, ao regente e ao próprio cantor que notas aquela voz alcança e com que cor ela soa.

Lacerda classifica as vozes humanas de duas maneiras: pela idade, em infantis e adultas, e pelo sexo, em femininas e masculinas (LACERDA, 1966, cap. XLI).

Vozes infantis

As vozes de meninas e de meninos não têm, do ponto de vista musical, diferença sensível entre si. Por isso as duas são agrupadas num nome só, vozes infantis. A tessitura delas vai, normalmente, do dó central ao mi no quarto espaço da pauta em clave de sol (LACERDA, 1966, cap. XLI):

A diferença aparece com a adolescência, quando a voz dos meninos muda e desce.

Vozes adultas: três femininas e três masculinas

As vozes adultas se dividem em três tipos femininos e três masculinos, separados por diferenças de timbre e de tessitura (LACERDA, 1966, cap. XLI). Do mais agudo ao mais grave:

Vozes femininasVozes masculinas
sopranotenor
meio-sopranobarítono
contraltobaixo

As duas coisas contam. A tessitura diz até onde a voz vai; o timbre diz como ela soa. Um meio-soprano e um soprano alcançam muitas notas em comum, mas o meio-soprano soa mais escuro e mais cheio no grave, e é isso, tanto quanto as notas extremas, que define o tipo.

A tessitura de cada voz

Estas são as tessituras das vozes adultas no quadro de Lacerda. As femininas, em clave de sol, de cima para baixo, soprano, meio-soprano e contralto:

As masculinas, em clave de fá, tenor, barítono e baixo:

Lacerda dá uma regra para lembrar o quadro inteiro sabendo só a tessitura do soprano (LACERDA, 1966, cap. XLI):

  1. a tessitura de cada voz abrange uma oitava e uma quinta;
  2. a do meio-soprano começa uma terça abaixo da do soprano, e a do contralto, uma terça abaixo da do meio-soprano;
  3. as tessituras masculinas reproduzem as femininas uma oitava abaixo.

Com a regra, o soprano, do dó ao sol, dá todas as outras: o meio-soprano, do lá ao mi; o contralto, do fá ao dó; e as três masculinas, as mesmas notas uma oitava abaixo.

O registro médio

Nem toda nota da tessitura sai com a mesma facilidade. Há um trecho, em geral de uma oitava, que a voz canta com mais conforto, e esse trecho é o registro médio (LACERDA, 1966, cap. XLI). O do soprano vai do mi ao mi uma oitava acima:

No quadro de Lacerda, o registro médio de cada voz segue a mesma regra das tessituras: uma terça abaixo de uma voz para a seguinte, e uma oitava abaixo nas masculinas. É o trecho onde uma melodia escrita para aquela voz deve passar a maior parte do tempo. E a tessitura não é fixa: o cantor que estuda técnica vocal pode ampliá-la (LACERDA, 1966, cap. XLI).

As subdivisões da ópera

A ópera divide as vozes ainda mais, e essa divisão se refere mais ao caráter da voz do que à sua tessitura. Um tenor cuja voz se presta a trechos de índole lírica é um tenor lírico; outro, mais adequado a trechos dramáticos, é um tenor dramático (LACERDA, 1966, cap. XLI). As subdivisões mais frequentes são:

VozSubdivisões
sopranoligeiro, lírico, dramático
tenorlírico, dramático
baixocantante, bufo (cômico), profundo

Um soprano ligeiro, ou de coloratura, tem voz leve e ágil, feita para escalas rápidas e notas muito agudas; um soprano dramático tem voz mais pesada, capaz de atravessar uma orquestra grande. Os dois podem ter tessituras parecidas e cantar papéis completamente diferentes.

Em que clave se escreve cada voz

Antigamente, cada tipo de voz tinha a sua clave, escolhida para que a tessitura coubesse dentro das cinco linhas sem linhas suplementares. Hoje se usam só duas (LACERDA, 1966, cap. XLI):

  • clave de sol para as vozes femininas;
  • clave de fá para o barítono e o baixo;
  • o tenor também se escreve em clave de sol, mas as notas soam uma oitava abaixo do que está escrito. Às vezes essa clave aparece com um pequeno 8 embaixo, para deixar isso claro.

Seis vozes ou quatro?

Blatter conta as vozes de outro jeito. Ele as divide em quatro classes, pela extensão e pela cor: soprano, as vozes mais agudas de mulheres e crianças; contralto, as mais graves de mulheres e crianças; tenor, as mais agudas dos homens; e baixo, as mais graves. É a distribuição que se abrevia SATB (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).

As duas contas não se contradizem; respondem a perguntas diferentes.

  • A de Lacerda descreve cantores: que tipo de voz uma pessoa tem, com o meio-soprano e o barítono como tipos próprios, e as crianças num grupo à parte.
  • A de Blatter descreve partes: as quatro linhas de uma escrita coral ou de um coral a quatro vozes. O meio-soprano canta a parte de soprano ou a de contralto, conforme o coro precisa; o barítono, a de tenor ou a de baixo; e as crianças se dividem entre soprano e contralto.

Blatter acrescenta uma ressalva que vale para as duas: muitas vozes não se deixam classificar tão facilmente, por terem propriedades únicas (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1). A classificação é um mapa, e uma voz real pode ficar entre duas casas.

O que vem depois

Os tipos de voz são as peças com que se monta um coro. O coro misto, a quatro vozes, é justamente onde as seis vozes de Lacerda viram as quatro partes de Blatter.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 4, art. 1
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XLI