Coro e conjuntos vocais
Quando as vozes cantam juntas. Aqui você aprende os quatro tipos de coro, por que o coro misto se escreve a quatro vozes e deixa de fora o meio-soprano e o barítono, como se escreve uma partitura de coro, o que é cantar a cappella, a diferença entre um coro e um quarteto de solistas, e onde o cantor deve respirar.
Uma voz sozinha canta uma melodia. Várias vozes juntas podem cantar a mesma melodia, mais forte e mais cheia, ou cantar melodias diferentes ao mesmo tempo e formar acordes. O agrupamento de vozes que faz isso é o coro (LACERDA, 1966, cap. XLI).
Med define o coro como um grupo de cantores que executa peças escritas para conjuntos vocais, e lembra que a palavra coral é, a rigor, o adjetivo: canto coral, música coral (MED, 1996, cap. XXXVII). No Brasil, "coral" também se usa como substantivo, e dizer "o coral da igreja" é tão comum quanto "o coro da igreja".
Quatro tipos de coro
O coro é feminino, masculino, misto ou infantil (LACERDA, 1966, cap. XLI). O nome diz quem canta: só mulheres, só homens, homens e mulheres juntos, ou crianças.
O mais comum é o coro misto, e ele se apresenta geralmente a quatro vozes: soprano, contralto, tenor e baixo (LACERDA, 1966, cap. XLI). É a distribuição que se abrevia SATB: soprano e contralto são as vozes agudas e graves de mulheres e crianças, tenor e baixo, as agudas e graves dos homens (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).
Aqui está uma cadência simples para coro misto, com as quatro vozes em duas pautas. Na de cima, o soprano e o contralto; na de baixo, o tenor e o baixo:
O soprano desce mi, ré, dó; o contralto segura o sol e desce ao mi; o tenor vai do dó ao si e volta; o baixo salta do dó ao sol e volta. Quatro linhas, e cada uma pode ser cantada sozinha.
Onde ficam o meio-soprano e o barítono
A classificação das vozes tem seis tipos adultos, e o coro misto tem quatro partes. A conta não é um descuido. É costume não usar as vozes médias, meio-soprano e barítono, como partes próprias do coro misto, para que os timbres das quatro partes fiquem mais diferentes entre si (LACERDA, 1966, cap. XLI).
Os cantores com essas vozes continuam no coro, só não têm uma linha própria. Uma meio-soprano canta com os sopranos ou com as contraltos, conforme a peça e o equilíbrio do grupo; um barítono canta com os tenores ou com os baixos.
Vozes de coro não são vozes de solista
Blatter dá as tessituras das quatro partes supondo cantores sem formação vocal, e observa que cantores treinados alcançam muito mais, enquanto muitos amadores só cantam uma parte dessas extensões (BLATTER, 2007, parte 4, art. 1).
Isso muda o jeito de escrever. Uma parte de coro não pede as notas extremas que um solista de ópera alcança, porque ela vai ser cantada por um grupo em que nem todos têm a mesma técnica. Quem escreve para coro mantém cada parte no trecho confortável da voz, o registro médio, e guarda os extremos para momentos curtos.
Como se escreve para coro
Numa partitura de coro, cada parte pode ter a sua pauta, de cima para baixo na ordem das vozes: soprano, contralto, tenor, baixo. O soprano e o contralto em clave de sol; o baixo em clave de fá; e o tenor, em geral, em clave de sol, com as notas escritas uma oitava acima do que soam (LACERDA, 1966, cap. XLI).
Quando o espaço é curto, as quatro partes se juntam em duas pautas, como na cadência acima: as vozes femininas na de cima, as masculinas na de baixo. É a forma dos hinários e de muitos livros de harmonia.
Um coro pode ter mais de quatro partes. Quando uma parte se divide, os cantores daquele naipe se separam em dois grupos, com linhas diferentes, e a partitura marca "soprano I" e "soprano II", por exemplo. E há obras para coro duplo, dois coros a quatro vozes cantando um diante do outro.
A cappella
Um coro a cappella é aquele que canta sem acompanhamento instrumental (LACERDA, 1966, cap. XLI). A expressão italiana quer dizer "à maneira da capela", e vem da música das igrejas, em que o coro cantava sozinho.
Cantar a cappella é mais difícil do que parece. Sem um instrumento que dê as notas, o coro tem de manter a afinação sozinho, e um grupo que desafina um pouco a cada frase pode terminar a peça num tom diferente daquele em que começou.
Med registra ainda um uso figurado da palavra coro: instrumentos da mesma família tocando juntos podem ser chamados de coro, como um coro de trompetes ou um coro de metais (MED, 1996, cap. XXXVII).
Solistas e conjuntos de solistas
O solista é o cantor que interpreta individualmente, sozinho ou acompanhado por outras vozes ou por instrumentos (LACERDA, 1966, cap. XLI). Dois ou mais solistas juntos formam um dueto, ou duo, um terceto, ou trio, um quarteto, um quinteto, um sexteto, e assim por diante (LACERDA, 1966, cap. XLI).
Um quarteto vocal e um coro a quatro vozes podem cantar exatamente a mesma partitura. A diferença está em quantas pessoas cantam cada linha: no quarteto, uma; no coro, várias. Com uma voz por parte, cada cantor é ouvido como indivíduo, com o seu timbre; com várias, as vozes de uma parte se fundem num som só.
Onde respirar
Um instrumentista de cordas pode tocar sem parar. Um cantor, não. Ao respirar num ponto sem pausa escrita, o cantor é obrigado a interromper o som por um instante, e isso cria uma pequena pausa. Às vezes o compositor indica onde respirar, com uma vírgula ou um V sobre a pauta (LACERDA, 1966, cap. XLI).
A regra de Lacerda é que o tempo da respiração deve ser tirado sempre da nota anterior, nunca da seguinte (LACERDA, 1966, cap. XLI). Assim, a nota seguinte entra no seu tempo exato:
O jeito errado é segurar a nota até o fim e respirar no tempo da nota seguinte, que entra atrasada:
Num coro, isso importa ainda mais. Se cada cantor respirar quando quiser, a entrada da frase seguinte sai borrada; tirando o tempo da nota anterior, todos chegam juntos ao tempo forte.
O que vem depois
O coro é o conjunto em que as vozes se organizam como a orquestra se organiza pelas famílias. Para que tantos cantores e instrumentistas façam a mesma obra, alguém precisa ver todas as linhas de uma vez, e é para isso que existe a partitura. E a escrita a quatro vozes, soprano, contralto, tenor e baixo, é também o laboratório onde se estuda a harmonia.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 4, art. 1
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XLI
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXXVII