Tons vizinhos
Os cinco tons que ficam a um acidente de distância de qualquer tom, e por que uma música vai a eles antes de ir a qualquer outro lugar. Aqui você aprende a achar os vizinhos diretos e indiretos, a contar as notas que dois tons compartilham, e por que o homônimo, longe na armadura, soa perto.
A maioria das músicas começa numa tonalidade principal, passa por outras e volta à principal para terminar (LACERDA, 1966, cap. XXVI). A pergunta é: passa por quais? De dó maior, uma música pode ir para qualquer um dos outros tons, mas alguns ficam logo ao lado e outros exigem uma viagem. Os que ficam ao lado têm nome.
Tons vizinhos são os tons que têm a mesma armadura do tom principal, ou que diferem dele por um acidente a mais ou a menos (MED, 1996, cap. XXIV). Todo tom tem cinco vizinhos.
Os cinco vizinhos
Med os divide em três diretos e dois indiretos (MED, 1996, cap. XXIV):
| Tipo | Qual é | De dó maior | De lá menor |
|---|---|---|---|
| direto | o relativo | lá menor | dó maior |
| direto | o tom do mesmo modo uma quinta acima, na dominante | sol maior | mi menor |
| direto | o tom do mesmo modo uma quinta abaixo, na subdominante | fá maior | ré menor |
| indireto | o relativo do tom da dominante | mi menor | sol maior |
| indireto | o relativo do tom da subdominante | ré menor | fá maior |
Pela armadura, a conta é simples. Dó maior não tem acidentes; lá menor também não; sol maior e mi menor têm um sustenido; fá maior e ré menor têm um bemol. Os cinco vizinhos de dó maior são todos os tons com zero ou um acidente, menos o próprio dó maior.
Por que esses cinco
Um acidente de diferença na armadura quer dizer uma nota de diferença na escala. Dó maior e sol maior têm seis notas em comum e diferem só no fá, que em sol maior é sustenido. Dó maior e lá menor, relativos, têm as sete.
Med chama essa comparação de afinidade tonal: ao comparar dois tons, separam-se as notas comuns, que estão nos dois, das notas diferenciais, que estão só num deles. A quantidade de notas diferenciais sai direto das armaduras: sol maior, com um sustenido, e si maior, com cinco, têm quatro notas diferenciais e três comuns (MED, 1996, cap. XXIV).
Quanto mais notas em comum, mais suave a passagem de um tom a outro, porque a música troca poucas notas para chegar lá. É por isso que os vizinhos são os primeiros destinos de uma modulação.
Os graus que viram tônica
Há um jeito de achar os vizinhos sem pensar em armaduras. Num tom maior, cada grau da escala, com exceção do sétimo, é a tônica de um tom vizinho; num tom menor, cada grau, com exceção do segundo (MED, 1996, cap. XXIV).
Em dó maior, as tríades de cada grau, menos a do sétimo, são os acordes de tônica dos vizinhos:
Ré menor, mi menor, fá maior, sol maior e lá menor: os cinco vizinhos, cada um com a sua tônica já dentro de dó maior. O sétimo grau fica de fora porque a sua tríade, si, ré, fá, é diminuta, e um acorde diminuto não serve de tônica. Em lá menor, quem fica de fora é o segundo grau, pelo mesmo motivo.
O homônimo, perto sem ser vizinho
Dó menor tem três bemóis. Pela regra da armadura, está longe de dó maior, que não tem nenhum. E no entanto qualquer ouvido percebe que os dois estão perto: têm a mesma tônica, a mesma dominante, e a música passa de um ao outro sem sair do lugar.
Med resolve isso com uma categoria à parte. O tom homônimo, com três acidentes de diferença, é um tom próximo, pela grande afinidade entre as suas notas (MED, 1996, cap. XXIV). A armadura mede a distância pelas notas da escala; o ouvido mede também pela tônica, e pela tônica o homônimo é o vizinho mais próximo de todos.
Tons afastados
Todos os outros tons, fora dos vizinhos, são tons afastados: diferem do tom principal por dois acidentes ou mais. Dó maior e ré maior, com dois sustenidos, já são afastados (MED, 1996, cap. XXIV). Chegar a um tom afastado não é proibido, mas pede mais caminho: uma cadeia de dominantes, um acorde que sirva de ponte, ou uma passagem por um vizinho no meio.
Para onde as músicas vão
Os exemplos dos livros confirmam a preferência pelos vizinhos. O trecho que Lacerda usa para mostrar uma modulação começa em ré menor e vai para fá maior, o seu relativo (LACERDA, 1966, cap. XXVI). E na forma sonata, a forma mais comum dos movimentos rápidos de sonatas e sinfonias clássicas, a exposição apresenta o primeiro tema na tônica e modula para o tom da dominante, ou para o relativo maior, quando o tom principal é menor, onde aparece o segundo tema (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). Dominante e relativo: dois vizinhos diretos.
O que vem depois
Saber quais tons são vizinhos diz para onde uma modulação costuma ir. Como ela chega lá, pelo acorde que dois tons compartilham, ou pela dominante do tom novo, é assunto da modulação.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 5, art. 4
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXVI
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXIV