Tonalidade
Pare uma melodia conhecida uma nota antes do fim e você sente exatamente onde ela deveria cair. Essa atração por uma nota, e a ordem de importância que ela dá a todas as outras notas e acordes, é a tonalidade. Aqui você aprende o que os livros entendem por ela, a diferença entre tom e tonalidade, quais graus firmam o centro e quais decidem entre maior e menor, e como uma música sai da tonalidade principal e volta.
Toque estas notas e pare:
A última nota fica suspensa. Quase todo mundo que a escuta quer mais uma nota, e sabe qual: o sol de cima.
Nada nas notas em si diz que o sol é especial. Quem decide é o ouvido, porque tudo o que veio antes foi organizado em torno do sol. Essa organização, uma nota como centro e todas as outras notas e acordes colocados em relação a ela, é a tonalidade.
O que os livros entendem por ela
Lacerda parte de como a música costuma ser construída: a melodia tira suas notas de uma escala maior ou menor, e os acordes que a acompanham se formam sobre a mesma escala. Os graus dessa escala passam então a ter funções, e não são iguais: o primeiro grau, a tônica, é o principal, seguido em importância pelo quinto, a dominante, e pelo quarto, a subdominante. Tonalidade é o nome desse conjunto de funções, dos graus e dos acordes formados sobre eles (LACERDA, 1966, cap. XXVI).
Med reúne várias definições que dizem a mesma coisa por lados diferentes: a dependência de todos os graus em relação à tônica, centro de todo movimento; o conjunto de sons e acordes que se referem a um centro principal; o conjunto de funções dos graus e dos seus acordes. E acrescenta uma definição curta de música tonal: aquela em que os sons têm uma hierarquia e se distingue um centro de atração (MED, 1996, cap. XV).
Tom e tonalidade
Em português a ideia se divide em duas palavras, e Med deixa a divisão explícita. Tonalidade é o sistema: maior ou menor, a própria hierarquia. Tom é esse sistema colocado numa altura determinada: o tom de sol, o tom de si bemol (MED, 1996, cap. XV). Um tom usa as notas da sua escala, mas na ordem que a música quiser. Em inglês uma palavra só, key, cobre quase tudo isso, e "tom" ainda tem um segundo sentido em português, o intervalo de dois semitons, que o contexto costuma resolver.
A tonalidade recebe o nome da escala sobre a qual se constrói: um trecho feito sobre a escala de si bemol menor está em si bemol menor (LACERDA, 1966, cap. XXVI).
Os graus que firmam o centro, e os que dão a cor
Toque ré maior e ré menor, uma depois da outra.
O primeiro, o quarto e o quinto graus, ré, sol e lá, são iguais nas duas. Blatter mostra o que isso significa para o ouvido: se uma música usasse só essas três notas, não daria para saber se está em maior ou em menor. Por isso tônica, subdominante e dominante se chamam graus tonais: são eles que estabelecem onde está o centro. O terceiro, o sexto e o sétimo graus mudam de uma para a outra, e são eles que dizem ao ouvinte qual é o modo; chamam-se graus modais. O segundo tem um pouco dos dois (BLATTER, 2007, parte 2, art. 8). Med dá o mesmo trio, I, IV e V, como os graus que definem o tom, e observa que eles formam intervalos justos com a tônica (MED, 1996, cap. XV).
Toda nota pende para algum lado
Dentro de uma tonalidade as notas não são neutras. Algumas são pontos de repouso, outras pedem movimento. Blatter descreve as tendências mais fortes (BLATTER, 2007, parte 2, art. 8):
- a sensível, o sétimo grau, puxa para cima, para a tônica;
- a supertônica, o segundo grau, no fim de uma linha descendente, quer cair na tônica;
- uma melodia que para na dominante soa inacabada, e se satisfaz chegando à tônica, por grau conjunto ou por salto;
- no modo maior, a subdominante tende a descer para o terceiro grau.
Em sol maior, as quatro atrações em ordem: sétimo para a tônica, segundo para a tônica, dominante descendo à tônica pelo terceiro e pelo segundo, quarto para o terceiro. A tônica, o terceiro grau e, em menor medida, o quinto são onde a melodia repousa; as outras notas são as ativas.
Sair da tonalidade principal, e voltar
A maioria das músicas não fica num tom só do começo ao fim. Lacerda descreve o percurso de costume: a música começa numa tonalidade principal, passa por outras tonalidades e volta à principal para terminar. Cada mudança de tonalidade no caminho é uma modulação, e, quando a nova tonalidade dura bastante, até a armadura pode mudar (LACERDA, 1966, cap. XXVI).
A tonalidade principal é também a primeira que um leitor quer identificar. A armadura reduz a escolha a um tom maior e ao seu relativo menor; a nota mais grave do último acorde costuma decidir entre os dois; e, numa melodia sem acordes, o sétimo grau elevado perto do começo ou do fim aponta para o menor (LACERDA, 1966, cap. XXVI).
O que vem depois
Os tons não ficam todos à mesma distância uns dos outros. Alguns compartilham quase todas as notas com a tonalidade principal e são fáceis de alcançar e de deixar; outros são distantes. Esses vizinhos mais próximos são os tons vizinhos.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 2, art. 8
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXVI
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XV