Regras de grafia rítmica
O mesmo ritmo pode ser escrito de vários jeitos, e só alguns deixam ver os tempos do compasso. Aqui você aprende as regras de Lacerda para o ponto de aumento, a ligadura, as bandeirolas e as pausas, todas com a mesma ideia por trás: quem lê deve enxergar onde cai cada tempo, sem precisar contar.
Estes dois compassos soam exatamente igual:
Os dois valem quatro tempos, e as notas começam nos mesmos instantes. Mas no primeiro dá para ver, sem contar, onde começa o terceiro tempo; no segundo, o terceiro tempo está escondido no meio de uma semínima pontuada. A primeira escrita é a certa.
É disso que tratam as regras de grafia rítmica. Elas não mudam o som; mudam a leitura. Lacerda observa que elas pertencem, a rigor, a um livro de caligrafia musical, e reúne as de interesse mais imediato para quem estuda teoria (LACERDA, 1966, cap. IX). Todas seguem uma ideia só: a escrita deve mostrar os tempos do compasso.
O ponto de aumento
No compasso quaternário, a mínima pontuada só deve ser escrita no primeiro ou no segundo tempo, nunca na parte fraca do primeiro (LACERDA, 1966, cap. IX). Assim:
E não assim, com a mínima pontuada começando no meio do primeiro tempo:
Nesse caso, a nota longa se escreve com ligaduras, de modo que o começo de cada tempo apareça (LACERDA, 1966, cap. IX):
Pela mesma razão, quando o segundo tempo se prolonga para o terceiro, usa-se ligadura e não ponto de aumento (LACERDA, 1966, cap. IX). É o exemplo do começo do tópico: o meio do compasso quaternário, entre o segundo e o terceiro tempo, deve ficar à vista.
Os compassos de cinco e sete tempos
No compasso quinário, a divisão entre a parte ternária e a binária também deve ficar visível. Se uma nota da parte ternária se prolonga para a binária, usa-se ligadura, e não ponto de aumento (LACERDA, 1966, cap. IX). Num compasso de cinco tempos agrupados três mais dois, a nota que atravessa a divisão:
E não com ponto, que apagaria a fronteira entre as duas partes:
O mesmo vale quando é a parte binária que se prolonga para a ternária, e a mesma regra se aplica ao compasso setenário (LACERDA, 1966, cap. IX). Quando a unidade de tempo não tem bandeirola, Lacerda sugere indicar o agrupamento com uma linha pontilhada separando as partes do compasso, ou escrevendo a fórmula como soma, cinco por quatro como três mais dois (LACERDA, 1966, cap. IX).
As bandeirolas
Colcheias e semicolcheias podem ter as bandeirolas unidas por barras. A regra é não unir os tempos entre si: cada tempo forma o seu grupo (LACERDA, 1966, cap. IX). Num compasso binário, as colcheias do primeiro tempo ficam juntas, as do segundo também:
Olhando só as barras, dá para contar os tempos. Lacerda admite duas exceções. No compasso ternário, as seis colcheias podem ser unidas numa barra só. No quaternário, podem-se unir o primeiro com o segundo tempo e o terceiro com o quarto, mas nunca o segundo com o terceiro (LACERDA, 1966, cap. IX), pela mesma razão do ponto de aumento: o meio do compasso tem de aparecer.
Nos compassos que têm a colcheia por unidade de tempo, a regra se adapta: no quatro por oito, unem-se o primeiro tempo com o segundo e o terceiro com o quarto, nunca o segundo com o terceiro; e nos compassos de cinco e de sete colcheias, é a própria união das bandeirolas que mostra o agrupamento, três mais dois ou dois mais três (LACERDA, 1966, cap. IX).
Nos compassos compostos, o tempo é a semínima pontuada, e as colcheias se agrupam de três em três, uma barra por tempo:
Na música vocal existia o costume de não unir as bandeirolas quando cada nota tem a sua sílaba. Lacerda considera melhor seguir a regra geral e uni-las, porque isso facilita a leitura (LACERDA, 1966, cap. IX).
As pausas
As pausas seguem a mesma lógica das notas, com algumas regras próprias (LACERDA, 1966, cap. IX).
A pausa pode somar tempos inteiros. Dois tempos de silêncio no fim de um quaternário cabem numa pausa de mínima:
Mas não pode somar parte de um tempo com parte de outro. No binário, a pausa depois de uma colcheia no primeiro tempo se escreve como duas pausas de colcheia, uma em cada tempo:
E não como uma pausa de semínima atravessando o meio do compasso:
No quaternário, a pausa não deve somar o segundo tempo com o terceiro. Duas pausas de semínima, e não uma de mínima no meio do compasso (LACERDA, 1966, cap. IX):
No ternário, não é costume usar pausa de mínima; escrevem-se duas pausas de semínima (LACERDA, 1966, cap. IX):
Em compasso composto, a pausa pode ser pontuada ou desdobrada, desde que respeite os tempos (LACERDA, 1966, cap. IX):
Um compasso inteiro de silêncio leva pausa de semibreve, qualquer que seja a fórmula de compasso: no dois por quatro, no três por oito, no cinco por dezesseis (LACERDA, 1966, cap. IX). Aqui a pausa de semibreve não vale quatro tempos; ela quer dizer "o compasso todo". No dois por quatro, ela vale dois tempos, e fica no meio do compasso:
No três por oito, a mesma pausa vale três colcheias:
Outras regras de escrita
Lacerda reúne no mesmo capítulo algumas regras que não são de ritmo, mas servem ao mesmo fim (LACERDA, 1966, cap. IX):
- na música vocal, quando uma sílaba se prolonga por várias notas, essas notas são abrangidas por uma linha curva;
- quando há muitas linhas suplementares, a leitura fica mais fácil escrevendo as notas uma oitava abaixo ou acima com a indicação 8ª;
- sons sem altura definida, de instrumentos de percussão ou de trechos falados, podem ser escritos numa linha só, ou com cabeças de nota especiais.
A mesma melodia aguda, primeiro com as linhas suplementares e depois uma oitava abaixo, sob a indicação de oitava, que muitas edições escrevem 8va. As duas soam iguais:
O que vem depois
Com as regras de grafia, a notação rítmica fica completa: as figuras, os compassos, a anacruse, e agora a maneira de distribuí-los para que a leitura seja imediata. O que falta são as divisões irregulares, as quiálteras, que têm regras de escrita próprias.
Referências
LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.