Quiálteras

Três notas onde o tempo caberia duas. Aqui você aprende o que é uma quiáltera, como a tercina se escreve e se lê, os grupos de cinco, seis e sete, as duas e as quatro-quiálteras do compasso composto, as quiálteras com valores desiguais e pausas, e a razão que diz exatamente o que um grupo significa.

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Bata um pulso constante com o pé e diga "um-e, dois-e": duas sílabas a cada batida. Agora, sem mudar a velocidade do pé, diga "ta-ca-ta, ta-ca-ta": três sílabas a cada batida. O pulso não saiu do lugar; mudou a maneira de dividi-lo. O compasso simples divide o tempo em dois, e aquela terceira sílaba não cabe em nenhuma figura que o compasso usa normalmente. Para escrevê-la, a música tem as quiálteras.

Um grupo fora da divisão normal

Quiálteras são grupos de notas que não obedecem à divisão normal do compasso ou à subdivisão normal dos seus tempos (LACERDA, 1966, cap. XII). Elas se escrevem com as mesmas figuras da divisão normal, e um número acima ou abaixo do grupo diz quantas notas ele tem (MED, 1996, cap. XXXII).

No dois por quatro, cada tempo se divide normalmente em duas colcheias. No segundo compasso, cada tempo recebe três:

A tercina

A quiáltera mais comum é a tercina, ou três-quiálteras: três valores iguais no lugar de dois da mesma espécie (MED, 1996, cap. XXXII). Três colcheias de tercina ocupam o tempo de duas colcheias, e por isso cada uma dura dois terços de uma colcheia normal (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4).

A mesma ideia vale para qualquer figura. Semínimas de tercina ocupam o tempo de uma mínima:

Mínimas de tercina ocupam o compasso inteiro de quatro por quatro:

E semicolcheias de tercina ocupam o tempo de uma colcheia:

Como o grupo é marcado

O número é pequeno, e segundo alguns teóricos deve vir em itálico (MED, 1996, cap. XXXII). Quando uma barra já une o grupo, o número basta, como nas colcheias acima. Quando não há barra, como nas semínimas e mínimas de tercina, um colchete mostra onde o grupo começa e termina. Lacerda admite uma linha curva no lugar do colchete, mas prefere o colchete, porque a curva pode ser confundida com a ligadura de frase (LACERDA, 1966, cap. XII).

Há material que coloca colchete em todo grupo, com barra ou sem:

O número fica do lado das hastes, junto da barra. Quando várias quiálteras do mesmo valor se seguem, nem todo grupo precisa do seu número (MED, 1996, cap. XXXII); aqui todos o levam.

Cinco, seis, sete

As quiálteras são chamadas pelo número de notas que as compõem (LACERDA, 1966, cap. XII). Depois da tercina vêm as cinco-quiálteras, as seis-quiálteras e as sete-quiálteras, em geral cinco, seis ou sete semicolcheias no tempo de quatro (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4):

As seis-quiálteras podem ser ouvidas de dois jeitos, e os acentos decidem qual: dois grupos de três ou três grupos de dois (MED, 1996, cap. XXXII).

Num grupo de cinco quiálteras ou mais, pode ser preciso um acento secundário levíssimo para facilitar a execução, e não há regra para onde ele cai: depende do desenho melódico e da sensibilidade do intérprete (LACERDA, 1966, cap. XII).

A figura em que a quiáltera se escreve depende de qual divisão normal está mais perto do seu número de notas (MED, 1996, cap. XXXII). Sete notas numa semínima estão mais perto de oito fusas do que de quatro semicolcheias, e por isso muitos compositores as escrevem em fusas (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4):

As duas sete-quiálteras soam iguais. A segunda mostra a razão, 7:8, porque só o número deixaria o leitor fazendo conta.

Menos notas que a divisão: duas e quatro-quiálteras

No compasso composto o tempo se divide em três, e ali a quiáltera pode ir no sentido contrário. As duas-quiálteras põem duas notas no tempo de três, e as quatro-quiálteras, quatro no tempo de três (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4):

Med dá nome aos dois sentidos. Na quiáltera aumentativa o número de notas cresce, três no lugar de duas, cinco no lugar de quatro, e as notas ficam mais rápidas que o normal. Na diminutiva ele diminui, duas no lugar de três, e as notas ficam mais lentas (MED, 1996, cap. XXXII).

Valores desiguais e pausas

A quiáltera não precisa ser feita de valores iguais. Pode misturar notas longas e curtas, e ter pausas (LACERDA, 1966, cap. XII). O que importa é que os valores somem o grupo: uma semínima e uma colcheia são as mesmas três colcheias de tercina que três colcheias separadas (MED, 1996, cap. XXXII).

A quiáltera de valores iguais se chama regular, e a de valores desiguais, irregular (MED, 1996, cap. XXXII). Os valores de dentro também podem ser subdivididos, desde que continuem somando o grupo (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4):

A razão

Só o número diz quantas notas há, não no tempo de quantas. Na tercina todo mundo sabe a resposta; nos grupos mais raros, nem tanto. Desde meados do século XX os compositores escrevem a razão, o número de notas e depois a divisão normal: 3:2 é três no tempo de dois, 5:4 é cinco no tempo de quatro (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4). A música contemporânea usa razões como 7:4, 7:5 e 11:10 (MED, 1996, cap. XXXII).

O primeiro exemplo outra vez, com a razão em todos os grupos:

Nomes em outras línguas

NotasPortuguêsInglêsFrancêsAlemão
2duas-quiálterasdupletduoletDuole
3três-quiálteras, tercinatriplettrioletTriole
4quatro-quiálterasquadrupletquartoletQuartole
5cinco-quiálterasquintupletquintoletQuintole
6seis-quiálterassextupletsextoletSextole
7sete-quiálterasseptupletseptoletSeptole

Os nomes em inglês, francês e alemão seguem a lista de Med (MED, 1996, cap. XXXII); os em português, a regra de Lacerda de chamar o grupo pelo número de notas (LACERDA, 1966, cap. XII). Lacerda lembra também que um grupo de três se chama "três-quiálteras" ou "uma tercina", e não "três tercinas" (LACERDA, 1966, cap. XII).

O que vem depois

Uma quiáltera também pode soar contra um grupo normal em outra voz, três contra dois, e Lacerda chama essa simultaneidade de contra-ritmo (LACERDA, 1966, cap. XII). É aí que o ritmo começa a correr em mais de uma camada ao mesmo tempo: a polirritmia.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 1, art. 4
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XII
  3. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXXII