Polirritmia e polimetria
Ritmos diferentes ao mesmo tempo, e compassos diferentes ao mesmo tempo. Aqui você aprende a polirritmia, com os seus tipos complementar e contraditório, o três contra dois e o quatro contra três, a hemíola que troca dois grupos de três por três grupos de dois, e a polimetria, as pautas em compassos diferentes cujos tempos fortes voltam a se encontrar.
Bata um pulso constante com uma mão e, com a outra, bata um ritmo que não o segue. Quando dois ritmos que não coincidem soam juntos, nenhum dos dois desaparece: o ouvido escuta os dois, e o atrito entre eles vira um ritmo à parte. Essa sobreposição é o assunto aqui.
Um ritmo ou vários
Med chama um ritmo só de monorritmia, e a sobreposição de ritmos diferentes de polirritmia, uma pluralidade de ritmos combinados (MED, 1996, cap. XIX). Ele separa dois tipos.
Na polirritmia complementar, os ritmos têm a mesma divisão e se completam, confundindo-se um com o outro (MED, 1996, cap. XIX). A parte de cima toca nos tempos, a de baixo entre eles, e juntas fazem uma linha de colcheias iguais:
Na polirritmia contraditória, cada ritmo conserva a sua personalidade, como quando grupos de dois soam contra quiálteras de três (MED, 1996, cap. XIX). É essa que o ouvido escuta como duas camadas.
Três contra dois
A polirritmia contraditória mais comum põe uma tercina contra a divisão normal. Lacerda dá um nome próprio a essa simultaneidade, contra-ritmo: grupos normais e quiálteras executados ao mesmo tempo, ou quiálteras diferentes ao mesmo tempo (LACERDA, 1966, cap. XII).
As duas camadas começam cada tempo juntas e se separam no meio: a segunda nota da tercina vem um pouco antes da segunda colcheia, e a terceira um pouco depois. A mesma relação um nível acima, semínimas de tercina contra semínimas, espalha o atrito por dois tempos:
Quatro contra três
Com mais notas, as camadas demoram mais para se encontrar. Uma quatro-quiálteras de semínimas no três por quatro põe quatro notas onde o compasso tem três, e as duas partes só voltam a coincidir no tempo forte seguinte:
A hemíola
A polirritmia não precisa de duas partes. Quando três durações iguais ocupam o lugar de duas numa mesma linha, como nas tercinas, a relação se chama hemíola, e Blatter a aponta em muitas das valsas de Tchaikovsky e em "America", de Leonard Bernstein, do West Side Story (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4). No seis por oito, um compasso de duas semínimas pontuadas respondido por um compasso de três semínimas:
As seis colcheias são as mesmas nos dois compassos; o que muda é o agrupamento, dois grupos de três e depois três grupos de dois. No três por quatro, a mesma troca se escreve ao contrário, com ligaduras atravessando o tempo (BLATTER, 2007, parte 1, art. 4):
Polimetria
A polirritmia sobrepõe ritmos dentro de um compasso. A polimetria sobrepõe os próprios compassos: compassos de espécies diferentes executados ao mesmo tempo. Med os chama de compassos mistos e acrescenta a regra que os faz funcionar: os primeiros tempos devem coincidir (MED, 1996, cap. XIX). O nome pede cuidado, porque outros livros chamam de "compasso misto" uma linha só cujos compassos somam grupos desiguais, como o cinco por quatro em 3 + 2.
Três por quatro sobre dois por quatro, com os tempos fortes marcados:
As semínimas se alinham uma a uma, mas os acentos não: a parte de cima acentua a cada três semínimas, e a de baixo a cada duas. Os dois tempos fortes caem juntos no começo, se afastam e voltam a se encontrar depois de seis semínimas, o menor comprimento que os dois compassos dividem. É esse reencontro que o ouvido espera.
O que vem depois
Polirritmia e polimetria são o ritmo de todo dia em boa parte da música do mundo, dos cruzamentos rítmicos da percussão africana e afro-brasileira às polimetrias dos compositores do século XX. Ouvir as camadas, e o instante em que elas se encontram, é o primeiro passo para tocá-las.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 1, art. 4
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XII
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XIX