Escalas exóticas

A escala cigana, a napolitana, as de seis notas e a de tons inteiros: escalas de fora do sistema maior e menor, que o folclore guardou e os compositores foram buscar. Aqui você aprende a construir cada uma a partir de uma escala que já conhece, por que a segunda aumentada dá a elas o seu sabor, e por que o mesmo desenho de intervalos muda de nome de um livro para outro.

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A música de concerto do Ocidente viveu por séculos sobre duas famílias de escalas: os modos e o sistema maior e menor. Mas muitas melodias do folclore se constroem sobre outras escalas, e são essas que os livros chamam de escalas exóticas (LACERDA, 1966, cap. XXXVII).

O nome diz mais sobre quem olha do que sobre a escala. Uma escala só é exótica vista da música de concerto europeia; para quem canta com ela desde criança, é a escala de casa. Os livros usam a palavra num sentido técnico, "de fora do sistema maior e menor", e é nesse sentido que ela aparece aqui.

A partir do século XIX, os compositores foram buscar essas escalas, e Lacerda aponta dois motivos numa nota do capítulo (LACERDA, 1966, cap. XXXVII):

  • os nacionalistas queriam dar à sua música o caráter do seu país, e encontraram no folclore escalas que a música de concerto não usava;
  • outros, sem intenção nacionalista, queriam emprestar um sabor exótico a uma obra determinada.

Blatter conta a mesma busca pelo outro lado: o que os compositores encontraram foram músicas tradicionais do mundo inteiro e escalas inventadas por eles mesmos, que davam sons novos sem afastar a música demais das bases ocidentais (BLATTER, 2007, parte 2, art. 10).

A segunda aumentada

Boa parte do sabor dessas escalas vem de um intervalo que a escala maior não tem: a segunda aumentada, um salto de três semitons entre duas notas vizinhas. Você já o encontrou na menor harmônica, entre o sexto e o sétimo graus. Em lá menor harmônica, é o salto de fá para sol sustenido:

Numa escala de tons e semitons, os passos são de um ou dois semitons. A segunda aumentada abre um buraco de três no meio da escala, e o ouvido ocidental o reconhece na hora como "oriental", "cigano", "árabe". As escalas abaixo têm duas segundas aumentadas em vez de uma.

A escala cigana

Lacerda descreve a escala cigana como a menor harmônica com o quarto grau elevado um semitom (LACERDA, 1966, cap. XXXVII). Em sol menor harmônica, o dó vira dó sustenido:

A elevação cria uma segunda segunda aumentada, de si bemol para dó sustenido, e a escala fica com dois buracos simétricos, um em cada metade. Na pauta, cada buraco fica entre duas letras vizinhas, si bemol e dó sustenido, mi bemol e fá sustenido: é uma segunda, só que aumentada, e não uma terça.

Liszt usou essa escala na Rapsódia húngara n.º 3 (LACERDA, 1966, cap. XXXVII).

Med chega à mesma escala pelo mesmo caminho: parte da menor natural, eleva o sétimo grau e obtém a harmônica, e depois eleva o quarto (MED, 1996, cap. XXXV). Ele a chama de cigana menor, porque descreve também uma cigana maior, construída a partir da escala maior: abaixa-se o sexto grau, e depois o segundo (MED, 1996, cap. XXXV). Em dó:

A cigana maior tem uma simetria perfeita: as duas metades da escala, dó–ré bemol–mi–fá e sol–lá bemol–si–dó, fazem o mesmo desenho, semitom, segunda aumentada, semitom. Med registra que ela também é chamada de escala árabe e que aparece no folclore grego, húngaro e eslovaco (MED, 1996, cap. XXXV).

A escala napolitana

A escala menor napolitana, ou siciliana, é a menor harmônica com o segundo grau abaixado (MED, 1996, cap. XXXV). Em dó, o ré vira ré bemol, e a escala começa com um semitom logo acima da tônica:

Blatter a lista entre as escalas de sete notas que têm intervalos maiores que um tom, junto com a menor harmônica, que também tem (BLATTER, 2007, parte 2, art. 10).

Um desenho, vários nomes

As escalas desse capítulo são o terreno em que os livros menos concordam sobre nomes. A mesma sequência de intervalos, a menor harmônica com o quarto grau elevado, se chama assim:

OndeNome
Lacerdaescala cigana
Medescala cigana menor, também "Asbein", que ele descreve como o modo árabe mais conhecido
BlatterHungarian minor, menor húngara

O primeiro nome é de Lacerda (LACERDA, 1966, cap. XXXVII). O segundo é de Med (MED, 1996, cap. XXXV). O terceiro vem da lista de escalas de Blatter (BLATTER, 2007, parte 2, art. 10). A cigana maior de Med é, em textos de língua inglesa, a double harmonic, a "dupla harmônica", porque tem as duas segundas aumentadas da harmônica. E Blatter avisa que muitas das escalas que ele reúne levam o nome de um povo ou de uma tradição, na medida em que se conhece a sua origem, e que outras não têm origem conhecida (BLATTER, 2007, parte 2, art. 10).

A lição prática é guardar os intervalos, não os nomes. "Cigana" pode querer dizer duas escalas diferentes em dois livros; "semitom, segunda aumentada, semitom" quer dizer a mesma coisa em qualquer um.

Escalas de seis notas

Uma escala de seis notas é uma escala hexafônica, e o nome só diz isso: seis notas (LACERDA, 1966, cap. XXXVII). Ela aparece, por exemplo, no folclore americano de origem africana e em melodias do folclore brasileiro, e em geral se parece com uma escala de sete notas a que falta uma.

Um tipo de escala hexafônica merece nome próprio: a escala de tons inteiros, feita só de tons, sem nenhum semitom (LACERDA, 1966, cap. XXXVII).

Sem semitom, nenhuma nota puxa para outra, e a escala não tem tônica que se imponha: Med a chama de "não funcional", porque nela não se sente tônica, dominante ou subdominante (MED, 1996, cap. XXXV). Ela soa suspensa, como se a melodia flutuasse. E, dividida em tons iguais, a oitava só comporta duas escalas de tons inteiros diferentes, uma que passa por dó e outra que passa por dó sustenido (BLATTER, 2007, parte 2, art. 10).

Quem a trouxe para a música de concerto? Os livros não dizem o mesmo:

  • Lacerda diz que foi Debussy, que a ouviu de músicos javaneses (LACERDA, 1966, cap. XXXVII);
  • Med diz que ela aparece antes de Debussy, em Glinka e em Liszt (MED, 1996, cap. XXXV);
  • Blatter a associa a Debussy e aos compositores impressionistas e pós-impressionistas (BLATTER, 2007, parte 2, art. 10).

As três afirmações cabem juntas. A escala já existia antes de Debussy, e ele não foi o primeiro a escrevê-la; mas foi com ele que ela deixou de ser uma curiosidade e virou um som característico, o som que hoje se associa ao impressionismo.

E as outras

As escalas exóticas não param aqui. A pentatônica, de cinco notas, é a mais espalhada de todas, e os livros a incluem nesta família (LACERDA, 1966, cap. XXXVII); ela tem um tópico próprio. Blatter lista ainda escalas de sete notas feitas de cinco tons e dois semitons em ordens pouco usuais, escalas de oito notas e escalas de nove ou mais (BLATTER, 2007, parte 2, art. 10), e Med registra escalas "matemáticas", construídas repetindo um mesmo grupo de intervalos (MED, 1996, cap. XXXV).

A escala de tons inteiros é justamente uma escala desse tipo: um único intervalo repetido até fechar a oitava. As escalas feitas de um padrão que se repete, e o que essa simetria faz com o som, são o assunto seguinte.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 2, art. 10
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXXVII
  3. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXXV