Escala maior harmônica e melódica
A escala maior com o sexto grau abaixado, ou com o sexto e o sétimo abaixados na descida: o espelho das formas da escala menor. Aqui você aprende a construir as duas, os acordes que elas trazem para dentro do tom maior, e por que um livro as chama de escalas e outro chama os mesmos acordes de emprestados.
A escala menor tem três formas: a natural, a harmônica, com o sétimo grau elevado, e a melódica, com o sexto e o sétimo elevados na subida. Med observa que a escala maior tem formas equivalentes. A que todo mundo conhece é a forma primitiva; as outras duas são a maior harmônica e a maior melódica (MED, 1996, cap. XXIII).
A lógica é a do espelho. Na menor, as formas sobem notas para aproximá-la da maior; na maior, as formas descem notas e a aproximam da menor.
A maior harmônica
A escala maior harmônica é a escala maior com o sexto grau abaixado um semitom (MED, 1996, cap. XXIII). Em dó, o lá vira lá bemol:
O lá bemol muda o desenho da escala. Ela passa a ter três semitons, entre o terceiro e o quarto graus, entre o quinto e o sexto e entre o sétimo e a oitava, e ganha uma segunda aumentada entre o sexto e o sétimo, de lá bemol para si (MED, 1996, cap. XXIII). É o mesmo salto que dá à menor harmônica o seu sabor.
A semelhança não é por acaso. Compare com dó menor harmônica:
A metade de cima das duas escalas, sol, lá bemol, si, dó, é idêntica. A única nota que as separa é o terceiro grau: mi na maior harmônica, mi bemol na menor (MED, 1996, cap. XXIII). A maior harmônica é, por assim dizer, uma escala maior embaixo e menor em cima.
Ela circula com vários nomes: escala maior mista principal, maior harmônica artificial, como a chamava Rimsky-Korsakov, escala de Hauptmann, ou simplesmente escala maior com sexta menor. Med registra que ela já aparece no Barroco e no Classicismo, e que Rimsky-Korsakov e compositores do século XX a usaram (MED, 1996, cap. XXIII).
Os acordes que ela traz
O motivo prático para conhecer a maior harmônica está nos acordes. Com o lá bemol, dois acordes que não existem em dó maior passam a morar dentro dela:
- no quarto grau, fá menor, fá, lá bemol, dó, no lugar de fá maior;
- no sétimo grau, a tétrade diminuta si, ré, fá, lá bemol, no lugar do si meio diminuto.
O fá menor dá à cadência plagal um tom mais escuro, e o si diminuto com sétima é uma dominante ainda mais tensa, que resolve em dó com dois semitons ao mesmo tempo, si para dó e lá bemol para sol.
Aqui os livros explicam a mesma coisa de dois jeitos. Para Med, esses acordes são acordes de uma escala, a maior harmônica. Blatter não fala dessa escala; para ele, usar a tétrade diminuta no sétimo grau de um tom maior é tomar emprestado um acorde do modo menor, e o subdominante menor, igualmente, é um empréstimo (BLATTER, 2007, parte 3, art. 10). As notas são as mesmas. Muda a pergunta: de que escala esse acorde vem, ou de que tom ele foi tirado. O empréstimo modal, que tem um tópico próprio, segue o caminho de Blatter.
A maior melódica
A escala maior melódica muda de acordo com a direção. Na subida, ela é a escala maior sem nenhuma alteração:
Na descida, o sétimo e o sexto graus são abaixados um semitom (MED, 1996, cap. XXIII):
É o inverso exato da menor melódica, que altera na subida e volta ao natural na descida. Na subida, os semitons ficam entre o terceiro e o quarto graus e entre o sétimo e a oitava; na descida, entre o sexto e o quinto e entre o quarto e o terceiro. E, como na maior harmônica, a única diferença para a menor melódica está no terceiro grau (MED, 1996, cap. XXIII). Med a chama também de escala maior mista secundária.
Como elas aparecem numa partitura
As alterações dessas escalas nunca vão para a armadura. Uma música em dó maior que usa lá bemol continua com a armadura de dó maior, e o lá bemol aparece como acidente ocorrente (MED, 1996, cap. XXIII). Por isso, na prática, não se reconhece a maior harmônica olhando a armadura, e sim notando o sexto grau abaixado dentro de um tom claramente maior.
Med faz duas ressalvas que valem para as formas melódicas em geral. Uma melodia não é obrigada a seguir a regra de subir com uma forma e descer com outra. E a metade de cima da escala, onde ficam o sexto e o sétimo graus, acaba na verdade cromatizada, com as duas versões de cada nota disponíveis (MED, 1996, cap. XXIII).
Ele afirma ainda que as formas harmônica e melódica da escala maior são frequentes no folclore dos Bálcãs, do Oriente Médio e Extremo Oriente e, sobretudo, da Índia (MED, 1996, cap. XXIII).
O que vem depois
A maior harmônica mostra que a fronteira entre maior e menor é mais porosa do que as armaduras sugerem: uma nota basta para trazer um acorde do homônimo para dentro do tom. Os tons que ficam perto uns dos outros, pelas notas que compartilham, são o próximo passo dessa ideia.
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 3, art. 10
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. XXIII