Propriedades do som
Quanto dura, com que força soa, se é grave ou agudo e quem o produziu. As quatro perguntas que todo som responde, e como a partitura escreve cada resposta.
Você está em casa e um som chega da rua. Antes mesmo de saber o que foi, o seu ouvido já respondeu a quatro perguntas. Durou um instante ou continuou? Foi forte ou fraco? Era grave ou agudo? E quem fez: uma buzina, um cachorro, alguém chamando o seu nome?
Essas quatro perguntas têm nome na música. São as propriedades do som, e qualquer som que você ouvir responde às quatro ao mesmo tempo.
Quatro perguntas, quatro nomes
- Duração responde quanto tempo? Uma batida na porta é curta; o apito de uma chaleira pode durar um minuto.
- Intensidade responde com que força? É o que muda quando você gira o botão de volume.
- Altura responde grave ou agudo? A voz de um locutor de rádio costuma ser grave; o canto de um passarinho, agudo.
- Timbre responde quem produziu? É o que faz você reconhecer a voz de um amigo ao telefone antes de ele dizer quem é.
Um cuidado com as palavras. No dia a dia, "som alto" quer dizer som forte, e "abaixa o som" quer dizer diminuir o volume. Na música, alto e baixo falam de altura: um som alto é agudo, um som baixo é grave. O volume tem outro nome, intensidade. Um apito pode soar fraco e agudo; um trovão, grave e fortíssimo.
Uma muda, as outras ficam
As quatro propriedades são independentes: dá para mexer numa sem tocar nas outras. Toque e depois . É o mesmo instrumento, com a mesma força e a mesma duração, e mesmo assim você ouve que o segundo é mais agudo. Só a altura mudou.
Agora imagine as outras três, uma de cada vez. Segure a mesma tecla por mais tempo, e muda a duração. Aperte com mais força, e muda a intensidade. Toque a mesma nota num violão, e muda o timbre, embora a altura continue exatamente a mesma.
O que acontece por trás de cada uma
Todo som é vibração. Algo se move para a frente e para trás muito depressa, esse movimento viaja pelo ar em ondas e chega ao seu ouvido. Cada propriedade corresponde a um aspecto dessa vibração:
- a altura depende de quantas vezes por segundo a vibração se repete. Essa contagem se chama frequência e se mede em hertz. O lá que as orquestras usam para afinar vibra 440 vezes por segundo; quanto mais vezes, mais agudo;
- a intensidade depende do tamanho da vibração: quanto mais amplo o movimento, mais forte o som;
- a duração é simplesmente por quanto tempo a vibração continua;
- o timbre vem do fato de que um som real nunca é uma vibração pura. Junto com a vibração principal soam várias outras, mais fracas, e cada instrumento mistura essas vibrações numa receita própria.
Essa receita tem nome: é a série harmônica, e ela merece um tópico só dela. Quem quiser adiantar a leitura encontra em Med a comparação entre instrumentos diferentes tocando a mesma nota (MED, 1996, cap. XVI), e em Blatter a descrição do som como soma de ondas simples (BLATTER, 2007, art. 1).
Nem todo som tem altura definida
Faça um teste: se você consegue cantar um som de volta, ele tem altura definida. A nota de um piano passa no teste. Uma palma, um ganzá ou uma porta batendo, não. Eles têm duração, intensidade e timbre, mas nenhuma nota que dê para cantar.
Isso não os deixa de fora da música: basta imaginar uma roda de samba sem chocalho. Os livros variam na ênfase. Lacerda descreve esses instrumentos como mais próximos do ruído do que do som musical (LACERDA, [s.d.], cap. I), enquanto Med prefere destacar que a música usa os dois tipos de som (MED, 1996, cap. I).
A partitura responde às mesmas perguntas
Uma partitura é, entre outras coisas, um jeito de anotar as quatro respostas para cada som:
- altura: a posição da nota na pauta. Quanto mais para cima, mais aguda;
- duração: o formato da figura. Uma nota branca dura mais que uma preta;
- intensidade: letras e sinais de dinâmica, como p para fraco e f para forte;
- timbre: o nome do instrumento ou da voz escrito no começo da pauta.
Neste trecho, a primeira nota fica mais baixa na pauta e tem outra figura: soa mais grave e dura o dobro de cada uma das duas seguintes.
Esses sinais não foram inventados juntos. A altura foi escrita muito antes das outras propriedades, e a indicação de timbre e de intensidade é bem mais recente. Blatter (BLATTER, 2007, art. 1) e Med (MED, 1996, cap. II) contam essa história com datas que não coincidem.
Para ir além
As quatro perguntas funcionam como um mapa. A altura leva às notas, à pauta e aos intervalos; a duração, às figuras, ao compasso e ao ritmo; a intensidade, à dinâmica; o timbre, às vozes e aos instrumentos. O Compêndio de Lacerda organiza a teoria elementar inteira a partir dessas quatro propriedades, e vale como roteiro para quem quer estudá-las nessa ordem (LACERDA, [s.d.], prefácio).
Referências
- BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: art. 1
- LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, [s.d.].Consultado: prefácio, cap. I
- MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. I, II, XVI