Formas binária e ternária

As formas em duas e em três partes, as mais usadas por séculos em danças, canções e movimentos de sinfonia. Aqui você aprende a diferença entre forma aberta e fechada, a binária e a binária arredondada, a ternária e o da capo, o minueto com trio, e as formas vizinhas: a forma de canção, a forma bar e a música sem repetição.

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A forma de uma música é o desenho que ela faz em grande escala: quais partes aparecem, em que ordem, e quais voltam. O tópico sobre forma apresentou as letras, A, B, A, que dão nome a esse desenho. Este trata das duas formas mais antigas e mais usadas, a binária e a ternária, e do que elas fazem com a tonalidade.

Repetir, voltar, variar

Blatter separa as formas em dois grandes grupos. As seccionais têm frases claras e cadências nítidas, que marcam de ouvido os pontos importantes da estrutura. As contínuas parecem, à primeira escuta, fluir sem cadências claras nem objetivos previsíveis (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). As formas binária e ternária são seccionais.

Numa forma seccional, depois de apresentar uma seção, o compositor tem poucas escolhas: repeti-la, variá-la ou trazer material novo. Blatter dá nome a cada uma (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4):

TermoO que aconteceLetra
repetiçãoo material recém-apresentado volta logo em seguidaA A
retornoo material volta depois de outro materialA B A
variaçãoo material volta modificadoA A′
material novoalgo que ainda não apareceu na peçaA B

A primeira seção é sempre A; o material novo recebe a letra seguinte; o que volta modificado ganha um apóstrofo para cada variação (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

Forma aberta e forma fechada

O que diferencia a binária da ternária não é só o número de partes. É o caminho da tonalidade.

Uma forma é aberta quando a primeira seção termina fora da tônica, quase sempre na dominante. Uma forma é fechada quando cada seção termina com uma cadência na sua própria tônica (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). Numa forma aberta, a primeira parte deixa uma pergunta; numa fechada, cada parte se resolve sozinha.

A forma binária

Na forma binária, a peça se divide em duas seções. É uma forma aberta: a primeira seção sai da tônica e vai para outro centro, na maioria das vezes a dominante; a segunda começa nesse novo centro e volta à tônica. Se a tonalidade é menor, o segundo centro costuma ser o relativo maior. Em peças curtas, a primeira seção pode terminar só com uma meia cadência; nas maiores, o compositor modula (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

O caminho harmônico de uma binária curta pode ser este. A primeira seção sai da tônica e para na dominante, alcançada pela dominante dela:

A segunda parte da dominante e volta para casa:

Nas binárias, o material da segunda seção costuma ser parente próximo do da primeira, e por isso a forma se escreve mais como A A′ do que como A B. E é comum que as duas seções sejam repetidas: A A, A′ A′ (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

A binária arredondada

A binária arredondada é uma variação da binária. A segunda seção começa com material novo, mas, perto do fim, traz de volta parte do material inicial (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). O desenho fica assim: A, e depois B seguido de um pedaço de A.

Esse retorno "arredonda" a peça: o ouvido reencontra o que já conhecia, e isso dá uma sensação de fechamento (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). A diferença para a ternária é sutil e está nas proporções: na binária arredondada, o A que volta é parte da segunda seção, geralmente mais curto que o primeiro, e as repetições continuam agrupando B e o retorno juntos.

A forma ternária

A forma ternária, ou tripartida, tem três seções distintas, e costuma ser fechada: cada parte começa e termina na sua tônica. A seção do meio fica numa tonalidade própria e traz, em geral, material novo, e não derivado do primeiro. O relativo maior, o relativo menor e a dominante são as escolhas mais comuns para ela (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

Uma ternária com a seção do meio no relativo menor. A primeira seção, fechada em dó maior:

A do meio, fechada em lá menor:

E a primeira de volta, fechada em dó.

Como a terceira seção muitas vezes é idêntica à primeira, o compositor pode, em vez de escrevê-la de novo, pôr no fim da seção do meio a indicação da capo, "do começo", e o intérprete volta ao início (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

Alguns autores chamam a forma ternária de forma em arco: o ponto de maior tensão tende a ficar no meio da seção B, e a peça desenha uma curva, subindo até ela e descendo de volta (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

Minueto e trio, e a ária da capo

As formas binária e ternária aparecem uma dentro da outra. O caso clássico é o minueto das sinfonias. O minueto costuma ser binário ou binário arredondado, e é seguido de um trio, que é outro minueto, feito de material diferente e também binário. Depois do trio, um da capo traz o primeiro minueto de volta (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4). Em grande escala, minueto, trio, minueto é uma ternária; olhando cada parte de perto, são binárias.

A ária da capo da ópera barroca é outra variante da ternária. A seção A é longa, com partes para a orquestra e para o cantor e uma modulação que sai e volta à tônica; a seção B é mais curta, em outra tonalidade; e no fim dela a música volta ao começo e o A se repete inteiro (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

Formas vizinhas

Três outras formas curtas completam o quadro (BLATTER, 2007, parte 5, art. 4).

  • Forma de canção, A A′ B A′. Comum na canção popular do começo do século XX, com cerca de 32 compassos. O A termina numa meia cadência, o A′ repete o A com uma cadência completa, o B contrasta, muitas vezes chamado de ponte, e o A′ final fecha a peça.
  • Forma bar, A A B. As duas seções A se chamam, em alemão, Stollen, e a B, Abgesang. Muitos corais luteranos, do tipo que Bach harmonizou, têm essa forma.
  • Sem repetição. Uma peça em que nenhum material volta, A B C D, e assim por diante. O termo nasceu para canções em que cada estrofe tinha uma melodia diferente, e desde o século XVIII os exemplos são relativamente poucos.

O que vem depois

As formas binária e ternária são os tijolos das formas maiores. O rondó, que alterna um refrão com episódios, o tema com variações e os movimentos de sonata são construídos com as mesmas escolhas: repetir, voltar, variar ou trazer o novo.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 5, art. 4