Formação de intervalos

Dar nome a um intervalo escrito e escrever um intervalo pedido são o mesmo raciocínio feito em sentidos opostos. Aqui você aprende o método de Lacerda: partir do intervalo natural, que se reconhece de cabeça, e acertar a diferença com os acidentes, para cima e para baixo.

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Saber que a terça maior tem dois tons é uma coisa. Escrever, sem piano por perto, a terça maior acima de si bemol, ou a sexta diminuta abaixo de ré, é outra. Contar semitons nota por nota funciona, mas é lento e cheio de armadilhas, porque os acidentes mudam a conta a cada passo.

Lacerda dedica três capítulos a um método que evita essa conta. A ideia é sempre a mesma: primeiro achar o intervalo natural, o que se forma sem nenhum acidente, e só depois acertar a diferença (LACERDA, 1966, cap. XXXII).

Os intervalos naturais, de cabeça

Intervalo natural é aquele em que nenhuma das duas notas tem acidente (LACERDA, 1966, cap. XXX). Eles se decoram com uma chave só: os dois semitons naturais, mi–fá e si–dó. Lacerda organiza as regras em torno deles:

IntervaloRegra
segundasmaiores, menos mi–fá e si–dó, que são menores
terçasmaiores quando não abrangem nenhum dos dois semitons; menores quando abrangem um
quartasjustas, menos fá–si, que é aumentada
quintasjustas, menos si–fá, que é diminuta
sextas e sétimasmaiores quando abrangem só um dos semitons; menores quando abrangem os dois
oitavastodas justas

"Abranger" aqui quer dizer que o semitom fica entre as duas notas do intervalo. Ré–fá passa por mi–fá: terça menor. Dó–mi não passa por nenhum: terça maior. Lá–sol passa por si–dó e por mi–fá: sétima menor.

Qualificar: reduzir ao natural e comparar

Para dar nome a um intervalo com acidentes, Lacerda manda fazer duas coisas, nesta ordem (LACERDA, 1966, cap. XXXI):

  1. Reduzir o intervalo a natural: tirar os acidentes e qualificar o que sobra, pelas regras acima.
  2. Comparar o natural com o dado: cada nota que se afastou alarga o intervalo em um semitom; cada nota que se aproximou o estreita.

Um exemplo. Lá bemol até sol:

Sem o bemol, lá–sol é uma sétima menor, porque abrange os dois semitons naturais. No intervalo dado, a nota de baixo desceu: as notas se afastaram, e o intervalo cresceu um semitom. Sétima menor mais um semitom é sétima maior.

Outro, com as duas notas alteradas. Fá sustenido até ré bemol:

Fá–ré, natural, abrange só si–dó: sexta maior. No intervalo dado, a nota de baixo subiu e a de cima desceu. As duas se aproximaram, e o intervalo encolheu dois semitons: de maior foi a menor, e de menor a diminuto. É uma sexta diminuta.

Quando as duas notas têm o mesmo acidente, nada muda: o intervalo dado tem a qualificação do natural. Blatter chega ao mesmo resultado por etapas, um acidente de cada vez (BLATTER, 2007, parte 2, art. 1).

Formar para cima

Formar é o caminho inverso. Dados uma nota e um intervalo, acha-se a outra nota. Lacerda usa o mesmo processo: toma-se o intervalo natural como base e introduzem-se nele as alterações necessárias (LACERDA, 1966, cap. XXXII).

Pedido: a terça maior acima de si bemol.

  • Tira-se o acidente da nota dada: si. Conta-se três nomes para cima: si, dó, ré.
  • O natural si–ré abrange si–dó: é terça menor.
  • Mas a nota dada é si bemol, mais grave que si. Isso já afasta as notas um semitom, e a terça menor vira maior.

A resposta é , sem nenhum acidente.

Outro pedido: a quinta justa acima de si. O natural si–fá é quinta diminuta; para ficar justa, precisa crescer um semitom. A nota de cima sobe: fá sustenido.

Formar para baixo

A nota dada pode ser a de cima. Nesse caso conta-se para baixo, e o ajuste, se for preciso, cai na nota de baixo (LACERDA, 1966, cap. XXXII).

Pedido: a terça menor abaixo de sol. Três nomes para baixo: sol, fá, mi. O natural mi–sol abrange mi–fá: já é terça menor. A resposta é mi.

Pedido: a terça maior abaixo de sol. O mesmo mi–sol é menor; para crescer, as notas precisam se afastar, e quem pode mexer é a de baixo, que desce: mi bemol.

A regra de sempre vale nos dois sentidos. Para alargar, a nota de cima sobe ou a de baixo desce; para estreitar, o contrário. Só muda qual das duas está livre para receber o acidente.

Um caminho mais curto, com a escala maior

No apêndice do capítulo, Lacerda dá um segundo método. Pense na escala maior que começa na nota de baixo do intervalo. Da primeira nota dessa escala até cada uma das outras, os intervalos são todos maiores ou justos: segunda, terça, sexta e sétima maiores; quarta, quinta e oitava justas (LACERDA, 1966, cap. XXXII). Basta comparar a nota dada com a nota da escala.

Qualificar ré–si bemol: na escala de ré maior, a sexta nota é si natural, e ré–si é sexta maior. O si bemol está um semitom abaixo: sexta menor.

Lacerda acha esse processo, em geral, mais simples que o primeiro, e avisa onde ele complica: quando a nota dada é a de cima, porque então não se sabe de antemão qual escala imaginar, e quando aparecem dobrados sustenidos ou dobrados bemóis. Med ensina um procedimento parecido com o primeiro: forma-se o intervalo a partir da nota sem acidente, qualifica-se o natural, e só então se aplica o acidente da nota dada, ajustando a outra (MED, 1996, cap. X).

O que vem depois

Com os intervalos formados em qualquer sentido, dá para ver o que acontece quando as duas notas trocam de lugar, a de baixo subindo uma oitava. Isso é a inversão, e ela transforma cada intervalo em outro, com regras próprias de número e de qualificação.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 2, art. 1
  2. LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. 3. ed. São Paulo: Ricordi Brasileira, 1966.Consultado: cap. XXX, XXXI, XXXII
  3. MED, Bohumil. Teoria da música. 4. ed. Brasília: Musimed, 1996.Consultado: cap. X