Progressão harmônica

A ordem em que os acordes de uma música aparecem. Aqui você aprende como uma progressão sai da tônica e volta a ela, as progressões mais comuns da música ocidental, a direção que as funções costumam seguir e quando a música a contraria, o movimento das fundamentais por quintas, terças e segundas, a terça de Picardia, e o que torna um encadeamento suave ou anguloso.

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Numa canção, os acordes do acompanhamento mudam de tempos em tempos. Quais acordes aparecem, e em que ordem, é uma das coisas que mais dão caráter a uma música. Essa ordem, do primeiro acorde ao último, se chama progressão harmônica (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6).

O compositor pode escolher qualquer acorde a qualquer momento. Mas alguns caminhos aparecem muito mais que outros, e conhecê-los é o que permite ouvir uma música e reconhecer, por baixo da melodia, um desenho que já se ouviu cem vezes.

Sair de casa e voltar

A música tradicional costuma começar na tônica e, com mais frequência ainda, terminar nela. O último acorde de uma peça é quase sempre a tônica, e quase sempre vem precedido da dominante (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6).

A progressão mais curta que faz isso é I, V, I. Ela leva a música de casa, a tônica, para um lugar estranho, a dominante, e de volta, completando uma pequena viagem (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6):

Trocando a dominante pela subdominante, a viagem muda de cor, mas não de forma:

As viagens mais comuns

Entre o primeiro e o último acorde cabem muitos outros. Algumas progressões aparecem em tanta música que viraram modelos (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6).

Tônica, subdominante, dominante, tônica:

A mesma, com o segundo grau entre a subdominante e a dominante, e a dominante com sétima:

Tônica, sexto grau, subdominante, dominante, tônica. É a base de muitas canções fáceis de tocar e de cantar (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6), e quem tocou violão numa roda já tocou esta:

A direção das funções

Olhando essas progressões pelas funções, aparece um sentido comum: elas saem do repouso da tônica, passam pela subdominante, chegam à tensão da dominante e voltam à tônica. Tônica, subdominante, dominante, tônica. O sexto grau, parente da tônica, prolonga o repouso antes de a viagem começar; o segundo grau, parente da subdominante, reforça o afastamento.

Essa é a direção mais comum na música clássica, e é por isso que a dominante indo para a subdominante soa, ali, como um passo atrás. Mas ela não é uma lei. O blues, e boa parte da música popular que veio dele, faz exatamente esse passo atrás, da dominante para a subdominante, e o torna característico (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6):

O blues de doze compassos

No blues, a progressão vem com as durações. Um dos modelos mais conhecidos distribui os mesmos acordes por doze compassos, um acorde por compasso, em três frases de quatro (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6):

Quatro compassos de tônica, dois de subdominante, dois de tônica, um de dominante, um de subdominante, dois de tônica. Blatter chama a atenção para isso: para soar como blues, não basta saber quais acordes tocar, é preciso saber quando tocar cada um (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6). O ritmo com que os acordes mudam é o ritmo harmônico, e tem assunto próprio.

Maior e menor

Os mesmos modelos funcionam em tonalidades menores, com os acordes da tonalidade menor: I, V, I vira i, V, i, e a progressão com o sexto e o segundo graus vira i, VI, iv, ii°, V, i (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6):

A dominante continua maior, com a sensível, porque é ela que puxa para a tônica.

A terça de Picardia

Uma peça em tom menor às vezes termina num acorde maior. A tônica final ganha a terça maior, e a música, que era menor, fecha em luz.

Esse costume data provavelmente de cerca de 1500, quando a terça menor ainda era considerada dissonante demais para servir de acorde final, e durou até o fim do Barroco, por volta de 1750. O nome é terça de Picardia, e ela ainda é usada, por gosto ou para evocar uma música antiga (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6).

Como as fundamentais se movem

Outra maneira de olhar uma progressão é seguir as fundamentais dos acordes. Elas se movem de três jeitos, e cada um soa de um modo.

Por quintas descendentes. Cada fundamental é a dominante da seguinte. Quando isso se repete por vários acordes, a progressão segue o círculo das quintas, e como toda tônica pode ser precedida pela sua dominante, essa ordem funciona em muitos estilos (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6). É o movimento mais forte, o que mais parece andar para a frente:

Por terças. Acordes com fundamentais a uma terça de distância dividem duas notas, e a mudança é suave, quase uma troca de cor. Descendo por terças, cada acorde muda uma nota só:

Por segundas. Acordes vizinhos não têm nenhuma nota em comum, e a mudança é nítida. É o que acontece da subdominante para a dominante, e da dominante para o sexto grau na cadência de engano.

Suave ou angulosa

Blatter resume a questão das notas comuns em duas regras. Quanto mais notas em comum entre dois acordes seguidos, mais suave o movimento harmônico; sem notas em comum, a sensação de mudança é maior (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6). Mudar só a inversão, ou a distribuição das notas de cima, é o movimento mínimo: o acorde fica, e só a sua forma muda.

E nenhuma das duas regras age sozinha. A mudança de registro, de timbre, de dinâmica ou de ritmo pode suavizar um encadeamento anguloso, ou dar força a um suave (BLATTER, 2007, parte 3, art. 6).

O que vem depois

A progressão diz quais acordes vêm e em que ordem. Falta dizer quando: com que frequência os acordes mudam, e onde caem as mudanças. Isso é o ritmo harmônico.

Referências

  1. BLATTER, Alfred. Revisiting music theory: a guide to the practice. New York: Routledge, 2007.Consultado: parte 3, art. 6