Dominantes secundárias, e o acorde que chega um compasso antes
Acordes de fora da tonalidade que funcionam como dominante de um grau que não é o primeiro, e a razão de fazerem o acorde seguinte soar inevitável.
Numa música em Dó maior, o acorde não deveria existir. A escala não tem , e o quinto grau de Dó é . Mesmo assim ele aparece o tempo todo — e quase sempre logo antes de .
A razão é simples: é a dominante de . Ele não está servindo à tonalidade, está servindo ao acorde seguinte. O trítono que ele carrega, –, resolve por movimento contrário — e o ouvido faz o resto sozinho.
O V7 de cada grau
Todo grau que pode ser tônica tem uma dominante própria: o acorde com sétima uma quinta acima dele. Em dó maior:
- V7 do II — lá com sétima, resolvendo em ré menor.
- V7 do III — si com sétima, resolvendo em mi menor.
- V7 do IV — dó com sétima, resolvendo em fá maior.
- V7 do V — ré com sétima, resolvendo em sol.
- V7 do VI — mi com sétima, resolvendo em lá menor.
Mi com sétima prepara lá menor; ré com sétima prepara sol. Cada um deles contém uma nota estranha à tonalidade, e é essa nota, a sensível do grau de chegada, que faz o acorde seguinte soar como um destino em vez de um passo.
O sétimo grau fica de fora da lista. Si diminuto não pode ser tônica de nada, então não recebe dominante; a regra é que só se prepara um grau que possa soar como centro.
O que o acorde faz de fato
Uma dominante secundária faz, em pequeno, o que a dominante principal faz na tonalidade inteira: cria uma sensível para o acorde de chegada e um trítono que resolve nele.
Lá com sétima tem lá, dó sustenido, mi e sol. O dó sustenido é a sensível de ré, um semitom abaixo dele; o sol está um semitom acima de fá, que é a terça de ré menor. As duas resolvem por semitom, exatamente como si e fá resolvem em dó e mi na dominante principal.
Por um instante a música se comporta como se estivesse em ré. A tradição chama isso de tonicização: o grau ganha, por um acorde, o tratamento de tônica, e depois a música segue na tonalidade de sempre. Não é modulação, porque não há mudança de centro; é um desvio de um compasso.
Onde aparecem
O lugar mais comum é um compasso antes de um grau diatônico que a música quer sublinhar. O V7 do V é o mais frequente de todos, porque transforma a chegada à dominante num pequeno evento:
O V7 do II abre metade das canções que começam pelo II-V-I; o V7 do VI prepara a volta ao sexto grau depois de uma cadência de engano; o V7 do IV é o acorde de dó com sétima que aparece de repente antes do fá.
Cadeias
Uma dominante secundária pode ter a sua própria dominante secundária. Encadeie e as fundamentais descem por quintas até chegar à tônica:
Mi, lá, ré, sol, dó. Cada acorde é dominante do seguinte, e o único diatônico da lista é o último. O ouvido segue porque cada resolução é um passo do ciclo de quintas, e o ciclo é o trajeto que ele mais conhece.
O que levar daqui
Uma dominante secundária é o V7 de um grau que não é o primeiro: um acorde de fora do campo, com a sensível do grau de chegada dentro, que faz o acorde seguinte soar inevitável. Todo grau que pode ser tônica tem uma; o sétimo não. Reconhecê-las explica quase todo acorde "estranho" de uma cifra popular, e o turnaround da próxima leitura é o lugar onde elas mais se acumulam.