Contraponto por espécies, e o método que isola uma variável por vez
O método clássico de escrever duas linhas independentes contra um cantus firmus, uma restrição por vez, primeiro só a altura, depois o ritmo, depois a dissonância; a escola em que a condução de vozes foi formulada.
Contraponto é a arte de escrever duas ou mais linhas que sejam, cada uma, uma melodia, e que juntas façam sentido. O método por espécies, fixado por Fux em 1725 e usado desde então, ensina isso isolando uma variável por vez: primeiro só as alturas, nota contra nota; depois o ritmo, duas notas contra uma; depois a dissonância, controlada; e só no fim tudo junto. Cada espécie acrescenta uma liberdade e uma regra.
O cantus firmus
Tudo parte de uma melodia dada, o cantus firmus, em semibreves, de oito a doze notas, que começa e termina na tônica e se move quase só por grau conjunto. Contra ela se escreve a outra voz, acima ou abaixo. A melodia dada não muda; o exercício é o que se põe contra ela.
Um cantus firmus em dó: onze notas, um salto só, começo e fim na tônica.
Primeira espécie: nota contra nota
Uma semibreve contra cada semibreve. Só consonâncias: uníssono, terça, quinta, sexta, oitava, e nada de quarta, que no contraponto a duas vozes é dissonância. As regras de movimento:
- Começar e terminar em consonância perfeita, uníssono, quinta ou oitava.
- Preferir o movimento contrário e o oblíquo; o direto com moderação.
- Nunca chegar a uma quinta ou oitava por movimento direto, e nunca duas quintas ou duas oitavas seguidas.
- Preferir as consonâncias imperfeitas, terças e sextas, no meio, porque as perfeitas soam vazias.
Uma solução acima do cantus: oitava, sexta, terça, terça, terça, terça, terça, terça, terça, sexta, oitava. Movimento contrário nas pontas, terças e sextas no meio, nenhuma paralela perfeita.
Segunda espécie: duas contra uma
Duas mínimas contra cada semibreve. A primeira de cada par cai no tempo forte e tem de ser consonante; a segunda, no tempo fraco, pode ser dissonante se for de passagem, chegando e saindo por grau conjunto. É a primeira aparição controlada da dissonância, e a regra diz exatamente onde ela pode estar.
Terceira espécie: quatro contra uma
Quatro semínimas contra cada semibreve. Mais liberdade rítmica, e a dissonância continua só de passagem ou de bordadura, sempre por grau conjunto, nunca no primeiro tempo. Aparece também a nota cambiata, uma figura de quatro notas com um salto de terça a partir de uma dissonância, que a tradição aceita porque o ouvido a aceita.
Quarta espécie: o retardo
Mínimas ligadas através da barra: a nota do tempo fraco é segurada para o tempo forte seguinte, onde vira dissonância, e resolve descendo por grau conjunto. É o retardo, a dissonância mais expressiva do contraponto, e a espécie o ensina em estado puro: preparação consonante, dissonância no tempo forte, resolução para baixo.
Quinta espécie: contraponto florido
Tudo junto: valores mistos, passagens, bordaduras, retardos, com as regras de cada espécie valendo onde a figura correspondente aparece. É a escrita livre com as restrições internalizadas, e é o objetivo de todo o percurso.
O que levar daqui
Contraponto por espécies é escrever contra um cantus firmus com uma liberdade a mais por espécie: alturas consonantes, depois ritmo com dissonância de passagem, depois quatro notas, depois o retardo, depois tudo. As regras, consonâncias perfeitas nas pontas, movimento contrário, nada de paralelas, dissonância só por grau conjunto e no lugar certo, são as da condução de vozes na sua forma mais pura, e é aqui que elas foram formuladas.