A harmonia da bossa nova, e o vocabulário ampliado da mesma gramática
Extensões como norma, empréstimo modal frequente, II-V-I encadeados e uma condução de vozes que quase não salta; é harmonia funcional com mais vocabulário, não outra harmonia, e a análise por graus continua valendo.
Uma cifra de bossa nova parece feita de acordes que não existem em outra música: sextas com nona, meio-diminutos, dominantes com décima terceira, baixos cromáticos. Lida por graus, ela é a harmonia funcional de sempre, I, ii, V, empréstimos e dominantes secundárias, com o vocabulário ampliado: as tétrades como norma, as extensões como cor, e uma condução de vozes que quase não sai do lugar. Esta página lê esse vocabulário.
As tétrades são o mínimo
Na bossa nova não há tríade. A tônica é maior com sétima maior, ou com sexta e nona; o segundo grau é menor com sétima; a dominante tem sétima e, quase sempre, uma nona ou uma décima terceira.
O II-V-I com extensões e o II-V-I terminando na sexta com nona, o acorde de repouso do gênero. Lidos por graus, ii, V, I nos dois; as extensões não mudam a função de nada.
Os II-V-I encadeados
A frase típica da bossa nova é uma cadeia de II-V-I apontando para centros diferentes, cada um preparando o próximo, com a resolução adiada até o fim.
Na segunda sequência: um II-V menor para lá menor, um II-V para... sol, que não chega, porque o ré com sétima vira o V7 do V e o ré menor entra no lugar, e o II-V-I final em dó. É a leitura por graus que desembaraça: cada par é uma fórmula, e a cifra inteira são quatro fórmulas em fila.
O empréstimo modal como cor de rotina
O quarto grau menor, o sexto abaixado, o sétimo abaixado com sétima: o empréstimo do homônimo menor, que noutros gêneros é um evento, na bossa nova é rotina, e o mais frequente de todos é o iv com sétima antes da tônica.
Fá menor com sétima em dó maior: o lá bemol e o mi bemol do acorde são as duas notas do homônimo menor, e a volta ao dó maior com sétima maior é o gesto de despedida que fecha metade das canções do gênero.
A substituição de trítono e o baixo cromático
Onde a harmonia funcional tem uma dominante, a bossa nova costuma pôr a substituta, e o baixo passa a descer por semitom. Junte a substituição com os II-V encadeados e o baixo desce uma escala cromática inteira.
Mi, mi bemol, ré, ré bemol, dó: cada dominante substituída pela que está a um trítono, e a linha do baixo virou o que o violão de João Gilberto faz com o polegar.
A condução de vozes que não salta
O que faz tudo isso soar suave, e não denso, é a mão que quase não muda de posição. De um acorde ao seguinte, as vozes de cima se movem por semitom ou ficam; a sétima de um vira a terça do próximo; a nona vira a décima terceira. A extensão não é enfeite: é a nota que permite à mão ficar parada enquanto o acorde muda.
Ré menor com sétima e nona, sol com sétima e décima terceira, dó maior com sétima e nona, lá menor com sétima e nona, cada voz se movendo o mínimo. Toque com a mão direita parada no meio do teclado; é o som.
O que levar daqui
A harmonia da bossa nova é a harmonia funcional com tétrades como mínimo, extensões como cor, II-V-I encadeados, empréstimo modal de rotina, substituição de trítono com baixo cromático, e uma condução de vozes por semitom que mantém a mão parada. Nada nela é uma harmonia diferente; tudo nela se lê por graus, e é assim que se aprende a tocá-la.