Análise
O Prelúdio em dó maior de Bach, e a harmonia sem melodia
Quatro compassos em que não há melodia, só acordes arpejados, e por isso a harmonia fica exposta como em nenhum outro lugar. O baixo desce por graus, as inversões fazem o caminho, e cada acorde se ouve nota por nota.
O primeiro prelúdio de O Cravo Bem Temperado não tem melodia. Cada compasso é um acorde só, quebrado num arpejo de semicolcheias que se repete duas vezes, e o que resta quando se tira a melodia é a harmonia, nua. Por isso ele é a peça mais analisada do repertório: a partitura já é a análise, e falta só dar nome ao que se ouve.
Um acorde por compasso
O ritmo harmônico é o mais regular que existe: um acorde por compasso, sem exceção, ao longo dos trinta e cinco compassos da peça. A figura rítmica também não muda. Tudo o que acontece, acontece na escolha dos acordes e no caminho do baixo entre eles.
Nos quatro primeiros compassos: a tônica; o segundo grau com sétima, mas com o dó no baixo; a dominante com sétima, com o si no baixo; a tônica. Lidos por graus, I, ii7, V7, I: a frase mais comum da harmonia tonal, a subdominante representada pelo segundo grau, a dominante, o repouso.
O baixo desce por graus
O que as inversões fazem aqui é o exemplo de manual. Se os quatro acordes estivessem em estado fundamental, o baixo iria de dó a ré, de ré a sol, de sol a dó: dois saltos. Bach segura o dó embaixo do ré menor, a terceira inversão da tétrade, e põe o si embaixo do sol com sétima, a primeira inversão. O baixo faz dó, dó, si, dó: um semitom para baixo e um para cima.
É a condução de vozes reduzida ao mínimo movimento, e é ela, não os acordes, que dá à abertura o caráter de coisa que respira em vez de andar.
As vozes de cima quase não se mexem
Dentro de cada arpejo, as cinco notas são as vozes de um acorde a cinco partes, e de um compasso ao seguinte cada uma se move o mínimo. Do dó maior para o ré menor com sétima, o dó e o mi ficam; o sol vai para o lá, o dó de cima para o ré, o mi de cima para o fá. Do ré menor para o sol com sétima, o ré e o fá ficam; o lá vai para o sol, o dó do baixo para o si.
Os quatro acordes em bloco, como Bach os teria escrito num coral: é isto que o arpejo esconde e que o ouvido, no andamento certo, reconstrói. Nenhuma voz salta mais que uma terça.
A dominante que resolve para dentro
O terceiro compasso é a dominante, e ela contém o trítono, si e fá. No quarto compasso o si sobe para dó e o fá desce para mi, exatamente como a teoria diz que deve ser. Ouça o terceiro compasso arpejado e depois o quarto: o arpejo faz cada nota da resolução soar separada, e o puxão do si para o dó fica audível como raramente fica num acorde tocado em bloco.
O que a peça ensina
Que a harmonia é um conjunto de linhas, e que um acorde invertido é uma escolha sobre o baixo. Que a frase I, ii, V, I sustenta um prelúdio inteiro se o caminho entre os acordes for bom. E que a análise não precisa de melodia: nesta peça, ela é o texto.