Teoria Musical

Escrita a quatro vozes, e as regras que mantêm as vozes audíveis

A harmonia distribuída em soprano, contralto, tenor e baixo, com as regras de dobramento, de espaçamento e de movimento que existem para que cada voz continue sendo ouvida como uma linha.

formal · 4 conceitos

A harmonia a quatro vozes é o laboratório em que as regras de condução foram descobertas e onde ainda se aprendem: quatro linhas, soprano, contralto, tenor e baixo, cada uma cantável, cada uma ouvida como linha, todas juntas formando os acordes. As regras parecem muitas e têm uma razão só: manter as quatro vozes independentes ao ouvido.

Quatro vozes, três notas

Uma tríade tem três notas e o coral tem quatro vozes: uma nota se dobra. A regra de dobramento no estado fundamental é dobrar a fundamental; na primeira inversão, dobrar de preferência o soprano ou o baixo, evitando a sensível; na segunda inversão, dobrar o baixo, a quinta.

Dó maior a quatro vozes: baixo dó, tenor sol, contralto mi, soprano dó. A fundamental aparece duas vezes, e a terça, a nota mais colorida, uma vez só; dobrar a terça engrossa o que devia ser fino, e a regra evita isso.

Espaçamento

Entre soprano e contralto, e entre contralto e tenor, no máximo uma oitava; entre tenor e baixo, o que for preciso. A razão é acústica: as vozes de cima soam juntas quando estão perto, e o baixo pode ficar longe porque os graves precisam de espaço para não embolar.

O primeiro acorde tem as três vozes de cima amontoadas no grave e soa opaco; o segundo as espalha e cada uma se ouve.

O movimento entre acordes

As regras de movimento são as da condução de vozes, aplicadas com rigor:

  • Notas comuns ficam paradas. A voz que tem a nota comum não se move.
  • As outras andam por grau conjunto, para a nota mais próxima.
  • Sem quintas nem oitavas paralelas. Duas vozes a uma quinta ou uma oitava não se movem na mesma direção mantendo o intervalo: o ouvido as funde numa só, e a textura perde uma voz.
  • Sem cruzamento. O contralto não passa por cima do soprano nem por baixo do tenor.
  • A sensível sobe para a tônica, e a sétima da dominante desce.

Sol maior para dó maior, a quatro vozes: o sol do baixo salta para o dó; o ré do tenor desce para o dó; o sol do contralto fica; o si do soprano sobe para o dó. Nenhuma quinta paralela, nenhuma oitava paralela, a sensível resolvida, e o acorde de chegada com a fundamental dobrada, sem quinta, como a tradição aceita depois de uma dominante.

Por que as proibições existem

As quintas e oitavas paralelas são proibidas por uma razão física, não por gosto: duas vozes movendo-se em paralelo a uma oitava soam como uma voz mais grossa, e a uma quinta soam como uma voz com um timbre estranho. Em ambos os casos o ouvido deixa de contar quatro linhas. A regra protege a independência das vozes, que é o que a textura a quatro partes promete.

O procedimento

Diante de um baixo cifrado ou de uma sequência de graus, a rotina é sempre a mesma. Escreva o baixo. Escolha as notas do primeiro acorde com o dobramento e o espaçamento certos. Para cada acorde seguinte, segure as notas comuns, mova as outras o mínimo, resolva a sensível e a sétima, e confira as paralelas voz por voz. Com prática, a conferência vira reflexo e as regras somem da consciência, que é o que elas querem.

O que levar daqui

Quatro vozes, três notas, uma dobrada, e dobrar a fundamental é a escolha padrão; as vozes de cima próximas, o baixo livre; entre acordes, notas comuns paradas, o resto por grau conjunto, sem paralelas, sem cruzamento, a sensível para cima. Tudo serve a uma coisa: que o ouvido continue contando quatro linhas. É a condução de vozes com um enunciado exato, e o exercício que ensinou harmonia a três séculos de músicos.